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Será o dualismo corpo/mente inevitável

A propósito de uma discussão realizada à volta da mesa do jantar.

 

No mais profundo da natureza ontológica do ser humano radica a inevitável distinção entre substância física e substância não física, consubstanciada no binómio corpo/mente. Este dualismo, necessário para explicarmos porque sentimos o que sentimos quando poderíamos não sentir nada, é uma das questões mais fascinantes e complicadas que tem vindo a ocupar inúmeras páginas de livros e horas de discussão, na incessante procura de uma resposta satisfatória. Se, por um lado, as leis e propriedades do domínio físico parecem insuficientes para explicar o comportamento da nossa mente, por outro, contemplamos maravilhados a complexa e alucinante concordância entre aquilo que experienciamos e aquilo que o nosso cérebro nos diz que experienciamos. Exemplificando esta relação concordante, consideremos a seguinte situação: quando cheiramos uma laranja, sentimos exatamente o cheiro de uma laranja. E porque não o cheiro de um limão? Quer-me parecer oportuno, neste momento, introduzir mais uma questão para reflexão. Admitindo que tudo tenha uma explicação num universo estritamente físico, como entender a sensação subjetiva? Na verdade, a distinção entre o verdadeiramente físico e a consciência parece estar ligada a uma meticulosa ação do Criador, que não encontra melhor exemplo do que a distinção cartesiana de res cogitans e res extensa. Diz Descartes:

Por um lado tenho uma ideia clara e distinta de mim mesmo, na medida em que sou apenas uma coisa pensante não-extensa; e, por outro lado, tenho uma ideia clara e distinta do corpo, na medida em que é simplesmente uma coisa externa, não pensante (Descartes, “Sexta-meditação”, AT VII 78: CSM II 54).

Tal como Descartes, recusamo-nos a aceitar a nossa condição puramente atómica. Não nos vemos na pele de um automóvel, de um frigorífico ou de um computador. Esta nossa inclinação dualista leva-nos a suspeitar de Espinosa e a admitir que Leibniz nos é cómodo quando, mais uma vez, tentamos encontrar a solução para o “sincronismo helvético” entre corpo e mente.

Pensamo-nos separadamente, e assim alimentamos esta inevitabilidade dualista que afasta como hipótese que, quanto à consciência, seja pensável a sua não existência.

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