O corpo como abertura à alteridade

Sidi Larbi Cherkaoui

Em Babel (Words), a linguagem do movimento significará, porventura, o elemento unificador da multiplicidade cultural contemporânea, o elo que estabelece o vínculo entre etnicidade e identidade, o apaziguamento do balbuciar que impede um acordo comum entre opostos. O corpo, contínua fonte de inspiração, emerge como um dispositivo subtil de comunicação, lançando um olhar apriorístico sobre as conflações geradas pela diversidade do discurso, num processo de mediação sensorial que não se dliui na sua expressividade, mas que procura sublinhar as contradições do progresso e da ilusória união dos povos. Esta descodificação sensorial do mundo, que a cada instante se dá em cada um de nós, não poderá prescindir dos sinais corporais que escapam à nossa vontade e consciência, não perdendo, contudo, o seu significado social. Para Cherkaoui, o corpo é uma ferramenta de expressão que não pode fugir à sua matriz cultural e racial e cuja proxémica poderá explicar a génese de um dualismo assumido à partida: a linha divisória ente a vida e a morte, a pertença e a alienação, o oriente e o ocidente. Metonímias de um mundo que se afunda na mais ilusória das promessas de sofisticação, e para as quais a linguagem – aqui entendida como barreira – contribui decididamente. A linguagem – como forma abrangente da constituição do mundo – não encontra correspondência no caos provocado pela profusão de línguas, culturas e territórios. É no ritmo, um bailado de células nervosas que veiculam sentido e sentimentos sem a distorção das palavras, que Cherkaoui dilui a tensão criada pela diversidade, provocação e ruptura.

O trabalho de Cherkaoui, Jalet e Gormley inspira-se na história bíblica, essa punição de Deus que divide os homens inexoravelmente. A obra desenrola-se no caos provocado pela imperceptibilidade do palrar multicultural do corpo de bailarinos, actores e músicos que, movimentando-se na intersticialidade da conexão e da retirada, intensificam uma dinâmica de clímax e anti-clímax. As estruturas metálicas de Gormley encerram a fala genuína, só ela capaz de desfazer o equívoco. A dança-teatro de Babel deslumbra pela sua graça, virtuosidade acrobática, eclectismo de estilos e energia inesgotável. A constante mudança de enquadramentos musicais, que viaja pelas diversas escalas, acolhe a sinestesia, fundindo a espiritualidade transcendente com a inevitável evidência da nossa mundanidade.

O corpo, como abertura à alteridade, é fonte de percepção para o funcionamento regular do mundo. Acentuará este facto o eterno dualismo da divisão corpo/mente ou será o corpo o último refúgio de uma mente distanciada da sua génese física?


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