Andróide ou Humano?

A propósito da discussão tida durante o dia de hoje – acerca da boa, ou não, utilização da tecnologia -, importará deixar-vos uma pequena reflexão que elaborei sobre o assunto.

© 2008 Julio

A relação dialéctica entre realidade e construção mental, segundo uma perspectiva construtivo-cognitiva, define os processos de aprendizagem e tomada de consciência ontológica, revelando-nos o mundo de uma forma subjectivamente kantiana. A questão epistemológica tradicional sobre o objecto do conhecimento encontra aqui respostas concretas, podendo traduzir-se a realidade pelo resultado de uma reprodução “passiva”, susceptível de encontrar a sua fórmula na validação a posteriori de um algoritmo matemático castrador das autonomias próprias. Este advento da técnica e da racionalidade deveria colocar o homem no rumo do interesse colectivo, através de um discurso técnico que resolveria todos os problemas.

Se pensarmos as relações resultantes da comunicação em rede como uma espécie de processo cibernético de retroacção – em que a relação de causalidade linear se rompe e o círculo causal A age sobre B que em retorno age sobre A se estabelece –, poderemos ser tentados a utilizar a analogia que é estabelecida entre o comportamento das máquinas e dos seres humanos para nos autoentitularmos Andróides: a experiência tornar-se-ia determinante, neste processo, sob a forma de um check digit informático, o que configuraria a construção racional da realidade como produto de processos cognitivos individuais e não como resultado de uma vivência social e histórica (Sampson, 1981).

Esta visão suporta facilmente a tese de que as novas tecnologias operam sobre os indivíduos processos de transformação alienadores e inibidores, bastando compreender o comportamento das máquinas para nos compreendermos a nós próprios.

Numa outra perspectiva, o grau de indeterminação que subsiste na consistência material das infra-estruturas de comunicação deixa espaço para que sejamos levados a pensar esta relação como inversa, ou seja, “(…) é agora possível estudar a nossa envolvente artificial, de que modo se comporta, por que o faz e o que procura fazer, por analogia com aquilo que sabemos acerca de nós próprios” (Dick, 2006: 31).

Partindo de um ponto de vista optimista, pode a utilização destes fluxos de informação horizontais ser associada a uma forte componente antropológica que reconheça em cada um dos indivíduos a sua componente humana, bem como o importante papel da comunicação nos processos de construção de identidades sociais com base na retroacção: “Para se compreender a si próprio, o homem precisa de ser compreendido pelo seu semelhante. Para ser compreendido pelo seu semelhante, precisa de o compreender” (Hora cit. por Watzlawick, 1991: 13). Esta necessidade dialógica deverá ser, antes de tudo, um processo interno que consolide a idiossincrasia de cada um dos cibercidadãos. Se assim for, estaremos a contribuir para a constituição, não de um sincretismo sinónimo de reificação do ser humano, mas para uma plêiade de autenticidade e enriquecimento mútuo: “(…) o que define andróide e humano não é a sua origem, maquínica ou orgânica, mas sim as acções, rígidas ou empáticas, perante os seus semelhantes. Um andróide pode agir humanamente tanto quanto um humano […] pode comportar-se como um andróide” (Dick, 2006: 13-14).

Referências

Dick, P. K. (2006). O andróide e o humano. Lisboa: Vega.
Sampson, E. (1981). Cognitive psychology as ideology. American Psychologist, 36, 30-43.
Watzlawick, P. (1991). A realidade é real?. Lisboa: Relógio D’Água.

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