A Felicidade Paradoxal

Korda, como era conhecido Alberto Díaz Gutiérrez, olha através da nota de três pesos cubanos fazendo lembrar os que, em vão, procuraram o corpo de Camilo Cienfuegos, também ele, tal como Che Guevara, um líder da revolução. Esta poderia ter sido a nota que Giangiacomo Feltrinelli entregara a Alberto Korda em troca da sua mais célebre fotografia, não fosse a ironia desse gesto ser a sua completa negação.  A imagem, de forte apelo simbólico, é o ponto de partida para a construção de uma mensagem que extravasará as fronteiras da Cuba de 60 para quem, mais tarde, a emissora clandestina anti-castrista La Voz Del Cid reclamará os epítetos de “Independiente y Democrática”, sempre a partir da emissora Camilo Cienfuegos.

O olhar distante de Che, num dia 5 de março de 1960, captado pelos 90mm de objectiva da Leica de Korda, em apenas duas batidas, uma horizontal e outra vertical, mistura-se fugazmente com os restantes olhares da tribuna em que Fidel discursa, tendo a seu lado Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Esse olhar vago, que correria mundo, permaneceu durante sete anos guardado nos arquivos de Alberto Korda.

Os esforços do revolucionário argentino de levar a revolução até à Bolívia acabaram veleidosamente por transformar a sua imagem na de um ícone a quem Feltrinelli se encarregou de dar eco e amplificar ruidosamente. Seria o “Diário Boliviano”, que Feltrinelli publicaria, o pretexto para que duas cópias da fotografia de Che lhe fossem cedidas graciosamente por Korda. Este nunca tivera cargo nem salário como fotógrafo pessoal de Fidel, e não seria a partir da morte de Che Guevara, e da sua consequente ascenção a símbolo revolucionário, que veria a sua equidade reforçada. Foi uma espécie de “execução sumária” que o privou de somas avultadas – cinco milhões de dólares, dizem – e que o “absolveram”, porventura, de possíveis “trabalhos forçados”. O paradoxo em que se constituirá a exploração comercial da imagem de Che – ela própria dada às mais variadas formas do consumo capitalista – é uma espécie de poder apreendido das mãos do líder e do revolucionário a quem se lhe conhece um único perfume: o do suor do trabalhador. Não será o rosto que Korda imortaliza, nos sais de prata que o desenham, uma cruel negação da propensão natural para a felicidade? É esse  Mito da Igualdade, que levará Che a lutar e que, paradoxalmente, se transformará em símbolo de consumo. A economia fordiana levará à abundância e à multiplicação de memórias intertextuais que nos aproximam de um momento:  ao dever do trabalho e da bondade, segue-se o dever derradeiro da destruição. Significantes dão origem a novos significados, num sistema de disposições aberto e incessantemente confrontado com novas experiências.

Terá Korda, pela força das imagens de Che, alterado o seu habitus? Gritou ele, “Che Vive!”? Em algum momento ter-se-á encolerizado Alberto Díaz Gutiérrez? Transpira o suor da frase: “Hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás”. Sem querer, Korda, com o seu clique, ao jeito de Cartier-Bresson, pulverizou um instante de felicidade paradoxal.

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