A consonância dissonante

(Apontamento sobre a consonância e a dissonância.)

Estimulado pelo pensamento estético pitagórico que casa a matemática com a música, inserindo-a numa coerência cósmica e atribuindo-lhe uma universalidade harmónica, rememoro uma conversa do guitarrista Pat Metheny [1] com o jornalista Carlos Vaz Marques [2], no programa “Pessoal e Transmissível” da TSF, na qual o músico norte-americano declara inserir grande parte das suas composições musicais numa lógica matemática. Existirá, então, entre estas duas figuras, tão afastadas na história, uma forma comum de pensar a música?

A relação da música com a matemática em Pitágoras é de tal forma, que somos levados a crer que este a considera como um dos seus ramos [3]. Para ele, todas as coisas constituem uma sinfonia que se assume como o «mundo músico» [4]. Tudo no universo é harmonia que se expressa através do som. O universo é também um mundo de contrastes, em cuja harmonização consiste o segredo da existência. Um mundo de contrastes constituído por dualidades que divergindo se complementam, como p. ex., a divisão dos números em pares e ímpares, a separação de linhas rectas e linhas quebradas…

Podemos inferir que, para os pitagóricos, a existência encerra em si própria a necessidade de colocar em consonância tudo o que é dissonante, de ligar tudo o que se opõe.

Uma consonância [5] traduz-se num acorde [6] estável. Se quisermos conferir à consonância um sentido mais restrito, ela representa um som que é agradável. O contrário define-se como a dissonância, que é considerada instável ou desagradável. Numa tentativa de simplificação, diria que um som dissonante necessita, logo de seguida, de um outro som que reponha o equilíbrio harmónico, que o resolva. Tudo aquilo que nos soa bem, que nos é agradável ao ouvido, é consonante. O contrário, necessariamente dissonante. Reparemos, mais uma vez, na existência de um dualismo. Para Pitágoras as consonâncias perfeitas foram obtidas através da experiência do monocórdio [7], investigando-se a relação entre o comprimento de uma corda vibrante e o tom por ela produzido. Pitágoras observou que se pressionasse um ponto situado a ¾ do comprimento da corda e a tocasse, ouvia uma quarta acima do tom emitido pela corda completa. Se pressionasse a 2/3, ouvia uma quinta acima e a ½ a oitava do som original. Estes intervalos passaram a ser denominados consonâncias pitagóricas.

Mas terá este conceito de consonância mantido a sua imutabilidade ao longo dos tempos?

Todos estes conceitos associados à instabilidade e estabilidade, seja a nível harmónico, melódico ou métrico, foram sendo condicionados e moldados por tradições e culturas musicais diversas, pelo que tais conceitos não se poderiam ter mantido inalteráveis. Dir-se-á que cada povo tem as suas consonâncias e dissonâncias, fruto das suas subjectividades e idiossincrasias.

Houve uma modificação estética de cultura para cultura. A própria história da música ocidental é prova desta transformação [8]. Deste modo, os limites da dissonância foram sendo ampliados, a ponto de Arnold Schoenberg [9] ter chamado emancipação da dissonância ao facto de alguns compositores do século XX terem alargado ainda mais os seus limites.

Segundo Pat Metheny, a nota musical imediata é pensada de forma a encaixar na nota precedente, causando a sensação de tudo se encontrar no lugar certo. Diz ele: «Quando escrevo uma melodia, ou quando faço um chorus [10], procuro as notas que se encadeiam o mais naturalmente possível, independentemente de qualquer consideração técnica. O objectivo final é o de fornecer a prova de que as notas se impõem por si próprias, que soarão de forma definitiva e no lugar certo» [11]. Num determinado momento, tudo parece indicar que nos situamos no domínio da pura coerência, isto é, no campo da estabilidade harmónica e da consonância, uma característica tipicamente pitagoriana.

Contudo, ao analisarmos a vontade expressa do músico em provar que as notas «se impõem por si próprias», poderemos concluir que caminhamos no sentido de uma homogeneização de seus valores, uma característica do dodecafonismo [12] de Schoenberg, e desta forma levados a entrar no domínio do atonal [13]. As notas a que Pat Metheny se refere inserem-se numa lógica que não depende de uma progressão. Elas são pedidas pela sua sonoridade única, impondo-se por si próprias. Entendemos a sua preocupação em alargar os limites, quando diz: «o que trago para a minha música é uma abertura harmónica da guitarra. Um jogo moderno para a época» [14].

E, conclusão: Por um lado, a escala pitagórica reflecte um sistema tonal, onde as frequências das notas musicais estão interrelacionadas matematicamente como fracções (harmónicas).
Estamos assim perante a origem acústica do sistema tonal. Num sistema tonal, as instabilidades pedem resolução, de forma a que o repouso e a harmonia possam ser repostos. Por outro lado, segundo as palavras de Pat Metheny, na sua música existe uma tentativa de distanciamento da harmonia tradicional e de distanciamento da «força gravítica» que determinadas notas exercem sobre outras, força essa que age de acordo com o tom da peça musical. Esta premissa permite-me pensar que a sua idealização musical caminha mais para o serialismo de Schoenberg. São, certamente, duas diegeses musicais completamente distintas. Nenhuma se sobrepõe. Ambas são inteligíveis dentro das suas próprias fronteiras.

Notas:
[1] Guitarrista de jazz norte-americano, nascido em Lee’s Summit, Missouri, em 1954. Durante anos, ganhou vários concursos como o “melhor guitarrista de jazz” e prémios, incluindo discos de ouro e Grammy Awards sobre uma variedade de categorias diferentes, incluindo “Best Rock Instrumental”, “Best Contemporary Jazz Recording”, “Best Jazz Instrumental Solo”, “Best Instrumental Composition”.
[2] Carlos Vaz Marques nasceu em Lisboa a 28 de Janeiro de 1964. Jornalista profissional desde 1987. Integra a redacção da TSF desde 1990. Iniciou-se no jornalismo na redacção do JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, tendo passado também pela redacção do (já desaparecido) semanário O Jornal.
[3] BAYER, Raymond, História da estética. Trad.. por José Saramago, Lisboa: Editorial Estampa, 1995,p. 33.
[4] Ibidem.
[5] Do latim “consonare” que significa soar junto.
[6] Acorde é a escrita ou execução de três ou mais notas simultaneamente.
[7] O monocórdio é um instrumento composto por uma só corda estendida sobre uma prancha, que se pensa ter sido inventado por Pitágoras.
[8] Tome-se como exemplo o facto de, no início do Renascimento, intervalos como o da quarta justa serem considerados grandes dissonâncias.
[9] Arnold Franz Walter Schönberg, nascido erm Viena, Áustria, em 1874, foi um compositor de música erudita e criador do dodecafonismo, um dos mais revolucionários e influentes estilos de composição do século XX.
[10] O chorus é o nome dado a cada uma das repetições da estrutura de acordes de um tema de jazz. Estas repetições proporcionam aos solistas várias improvisações sobre a mesma base estrutural.
[11] MARCIANO, Félix, Pat Metheny participe au présent in Revista Jazzman, nº 78, Março 2002, p. 13
[12] O dodecafonismo é uma técnica de composição na qual as 12 notas da escala cromática são tratadas como equivalentes, ou seja, sujeitas a uma relação ordenada e não hierárquica.
[13] A música atonal não possui um centro tonal específico e onde nem sempre se aplicam as regras dos acordes e escalas.
[14] MARCIANO, Félix,Op. Cit., p. 15

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