“La Danse Macabre”

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Figura 1 – La Danse Macabre 
Fonte: http://joaopauloinquiridor.blogspot.com/2010/11/camille-saint-saens1835-1921-la-danse.html 

Da finitude do ser humano e da sua ligação com o divino, aliado à eminência da morte na Idade Medieval, passando pela trilogia das catástrofes daquela Era (fome, peste e guerra), a ideia de universalidade e igualdade no post mortem trespassam à arte, pelas mãos criativas do Homem medieval. As danças da morte, ou La Danse Macabre, são representações cénicas com figurações humanas, em esqueleto, que juntas formam, pela batuta do divino, um todo par, sem nada que as separe por classes sociais ou acessórios da vida terrena. Às danças da morte subjaz a ideia de paridade entre todos os seres humanos, levando a uma espécie de exorcização da poluição advinda da vida mundana, distante do Deus omnipotente, omnipresente, omnisciente e sumamente bom. A proximidade eminente do fim da existência humana, pela constante presença da morte no seio dos desastres da peste-negra, em particular, afigura-se como causa primária destas representações. 

A influência de Deus na vida do Homem vai para além da Idade Média, chegando aos dias de hoje, passando pelas provações da racionalidade iluminista, das Revoluções Industriais, das duas grandes guerras mundiais e o neo-liberalismo político da actualidade. Deus está presente na vida do Homem, especialmente na sociedade ocidental, onde as religiões cristãs ainda tomam grande parte dos credos que os seres humanos (ainda) estão dispostos a devotar. O Bem e o Mal tomam-nos os conceitos de finitude, o que leva o ser humano hodierno a querer experimentar tudo em pouco tempo, recorrendo aos prazeres fáceis, aproveitando a desvirtude dos valores conservadores em falência gradual. Questionando o valor do fim e do início, o homem terá sempre a morte presente e a ideia da sua igualdade, de rico a pobre. A dança da morte é de interesse actual pela influência, entre os tempos, dos ideais medievais que as representações encerram. Somos um recalcamento, portanto. Santo Agostinho de Hipona, e as suas “cidades” que segregam os homens, influenciam intemporalmente as nossas noções de bem e mal e dos comportamentos que, na sua senda, todos somos capazes de executar. 

Lady Gaga, no seu tema “Bloody Mary”, parece cantar precisamente uma espécie de ritual acerca da finitude, numa clara alusão à Rainha Maria I de Inglaterra (de epíteto “Maria, a Sanguinária”) e a Maria Madalena. As discussões modernas acerca do Santo Graal e dos Evangelhos Apócrifos colocam esta última personagem bíblica numa posição privilegiada em relação a Jesus Cristo. “Love is just a history that they may prove/ And when you’re gone I’ll tell them my religion’s you/ When Pontius comes to kill the king upon his throne/ I’m ready for their stones/ I’ll dance dance dance/ With my hands hands hands/ Above my head head head/ Like Jesus said (…)”, canta Gaga. Mais à frente acrescenta: “I won’t cry for you/ I won’t crucify the things you do/ I won’t cry for you see/ When you’re gone I’ll still be bloody mary”. Este último verso relembra que a existência humana tem um fim, como o próprio Jesus Cristo, e que, no leito da morte, todos não seremos mais do que apenas pó (“tu és pó, e ao pó voltarás”, livro do Génesis: 3,19). 

 

“Bloody Mary”, Lady Gaga, do álbum “Born This Way”

 

Ricardo Miranda

 

 

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