Reutilização de edifícios – remédios, remendos e remedeios

Maurits Cornelis Escher- Galeria de Arte, 1956 (litografia)

Desde a apropriação dos templos pagãos pela igreja cristã até à actualidade em que um espaço com identidade arquitectónica reconhecida, mesmo que em ruínas, é passível de se transformar em espaço de exposição, a reutilização de edifícios não é pacífica. Temos casos que são remédios, tratam do assunto; remendos… reparam, cortam e cozem e aqueles que apenas remedeiam, nada resolvem em concreto.

Não é de todo minha intenção fazer aqui uma distinção segura, a história encarregar-se -á disso. No entanto, se a apropriação do espaço for bem feita, o velho e o novo coabitam de forma saudável e complementam-se, tal como o avô e o neto: ambos têm histórias para contar; se for uma intervenção envergonhada, resultam remendos sem diálogo entre o velho e o novo; os piores casos são as “caricaturas” que pouco remedeiam, em que se justapõe o velho e o novo sem qualquer ligação, fachadas antigas que se mantêm como se de um cenário se tratasse “coladas” a edifícios novos sem qualquer relação.

A arquitectura surgiu da primeira concepção, mais ou menos consciente, de casas, monumentos e cidades há perto de oito ou nove mil anos ou, tal como diz o arquitecto Mies Van Der Rohe : “Quando dois tijolos eram bem colocados”.

Muitos edifícios monumentais foram reutilizados ao longo da história. A apropriação de templos de culto pagão pela igreja católica foi, talvez, dos primeiros casos dignos de registo: no Panteão em Roma coabitam memórias de culto aos Deuses dos sete planetas (o “olho” no centro do tecto servia para afastar o fumo do altar central e simbolizava o sol nos céus) com estatuárias que foram aditamentos posteriores.

Muitos outros monumentos foram-se degradando até se transformar em ruínas…

Com a “Carta de Atenas, em 1933, resultado do IV C.A.M. (Congresso Internacional de Arquitectura Moderna), a cidade passa a ter quatro funções básicas: trabalhar, habitar, circular e cultivar o corpo e o espírito:  Chandigar, na Índia, projectada por Le Corbusier, e Brasília, no Brasil, projectada por Lúcio Costa e Óscar Niemeyer, são o paradigma dessa era: projectadas de raiz com uma “malha urbana ortogonal”, zonas pré-definidas… cidades sem passado  viradas para o futuro. Quanto ao património histórico das cidades, a carta de Atenas refere: “fazem parte do património humano e os que os possuem são encarregados da sua protecção. Têm a responsabilidade e a obrigação de fazer tudo o que é lícito para a transmitir intacta aos séculos futuros, esta nobre herança”. “A morte que não poupa nenhum ser vivo ataca também a obra dos homens. É preciso saber, nos testemunhos do passado, reconhecer e discriminar os que estão bem vivos… nos casos em que se enfrentam soluções repetidas em numerosos exemplares, conservar-se-ão alguns a título documental, os outros serão abatidos; …se a sua conservação implicar o sacrifício de populações mantidas em condições insalubres.”

Museu Castelvecchio, Verona,1956-64 - Carlo Scarpa

Museu Castelvecchio, Verona,1956-64 - Carlo Scarpa

Assim, no século XX, graças à revolução industrial, grandes mudanças acontecem na sociedade e na sua relação com o espaço. Muitos edifícios históricos foram demolidos ou deixados em ruínas, o que levou à criação, por oposição, de movimentos de conservação empenhados em salvar a nossa herança arquitectónica, não só em preservá-la como em encontrar novos usos. Na década de 60, vários arquitectos adaptam edifícios antigos, impregnando-lhes um carácter novo, conseguindo que duas linguagens arquitectónicas coabitassem sem quezílias. No “Museu Castelvecchio” em Verona, (1956-64) o arquitecto Carlo Scarpa misturou passado e presente, transformou um castelo medieval num museu de arte. Para muitos arquitectos apontou o caminho quanto à conservação inteligente. O ” Museu d´Orsay “(1984-86), em Paris, converte uma estação ferroviária em museu, projecto da arquitecta milanesa Gaia Aulenti. Várias centrais eléctricas do séc. XX foram também intervencionadas no sentido de lhes dar uma nova utilização: em Londres, a central Bankside foi transformada na ” Tate Modern of Modern Art” (1999) pelos arquitectos suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron; esta galeria foi ligada à Catedral de São Paulo por uma ponte para peões projectada pelo arquitecto Norman Foster juntamente com o escultor Chris Wise. Norman Foster também realizou uma das grandes remodelações do séc. XX – o Reichstag – em Berlim, antigo parlamento do segundo Reich.

Tate Modern , Londres, 1999 – Jacques Herzog e Pierre de Meuron

Ponte de Norman Foster

Em Portugal, entre outros, temos: a adaptação do pátio das Nações a “Floor” da Bolsa de valores do Palácio da Bolsa, Porto-1991, projecto do arquitecto Alcino Soutinho; o Centro Social da Sé Catedral do Porto – projecto do arquitecto Jorge Gigante; Convento de Refóios do Lima convertido na Escola Superior Agrária de Ponte de Lima (1986-91) e Pousada no Convento de Santa Marinha da Costa em Guimarães, projectos do arquitecto Fernando Távora, bem como,  a pousada de Santa Maria de Bouro (1994 – 1997), projectada por Eduardo Souto Moura.

Pousada Santa Maria de Bouro, 1989-97, Amares – Eduardo Souto Moura

Pousada Santa Maria de Bouro, 1989-97, Amares – Eduardo Souto Moura

Sessenta e cinco anos depois da Carta de Atenas de 1933, a Comunidade Europeia publica o documento intitulado “Nova Carta de Atenas” (1998) discutindo questões urbanas como a “qualidade do ambiente construído nas nossas cidades baseado na ideia desenvolvimentista que desconsiderava valores da população, a complexidade da vida urbana, do património histórico, da integração e inter-relação entre as funções e actividades humanas, a importância das redes sociais estabelecidas, dos valores afectivos e de outros.” ( Del Rio ,1990). Este documento aponta as seguintes linhas orientadoras: “demografia e habitação, questões sociais, cultura e educação, sociedade informatizada, meio ambiente, economia, movimento, escolha e diversidade, segurança e saúde “ (Kanashino, Milena- arquitecta, “Da antiga à nova carta de Atenas- em busca de um paradigma espacial de sustentabilidade”,  2004). Assim a forma urbana é conectada ao carácter da cidade e ao seu “genius loci” – segundo Norbez Shulz, genius loci é um conceito romano de que toda entidade tinha o seu genius, o seu espírito guardião. Esse espírito, responsável pelas pessoas e lugares, determinava o seu carácter ou a sua essência.

Qualquer reutilização que se dê a um edifício deve preservar o seu “genius loci”, só assim o novo poderá aspirar a também ele construir o seu próprio “genius loci”, a sua identidade.

Bibliografia

– Besset, Maurice (1987), Le Corbusier. Genève,  Editions d´Art Albert kira S.A.

– Carta de Atenas 1933- IV CIAM (Congresso Internacional da Arquitectura Moderna), documento fotocopiado.

– Clancey, Jonathan (2001), História da Arquitectura, Edição Círculo de Leitores.

– Kanashido, Milena (2004), “Da antiga à nova carta de Atenas – em busca de um paradigma espacial de sustentabilidade”, Desenvolvimento e meio ambiente n. 9 p. 33-37, editora UFPR.

– Pereira, Paulo dir. (1995), História da Arte Portuguesa, Volume III, Edição Círculo de Leitores e Autores.

– Revista Architecti- revista de arquitectura e construção, n. 11/12 e n. 13

 

 Celeste Semanas

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