Cultura, cultura portuguesa e sentido mais profundo da vivência cultural na sociedade de hoje

A cultura e os seus múltiplos sentidos

Procurar a definição para cultura levar-nos-ia a percorrer inúmeros caminhos, tantos quantas as diferentes definições já propostas por numerosos antropólogos(1).  As várias definições encontradas são o resultado de diversas formulações, mais ou menos convergentes, sobre o estudo do ser humano nas suas componentes antropológica e etnográfica. Se atentarmos ao facto de cultura – ou a sua definição – extravasar o domínio conceptual de antropólogos e filósofos, facilmente nos consciencializaremos da vastidão de possíveis enunciações. A esse nível situam-se, por exemplo, as várias significações da palavra cultura na nossa linguagem quotidiana, não raras vezes associadas a uma aplicação especializada do saber humano, mas sobretudo ligadas a uma grande abrangência de temas e conhecimentos.

A partir de Bernardo Bernardi(2), apresentam-se duas divisões de cultura que serão objecto de reflexão: cultura humanística e cultura científica ou antropológica.

Na genealogia do conceito de cultura, temos, desde a tradição mais antiga, dois elementos: o elemento descritivo e o normativo. O elemento normativo é o factor discriminador que resulta dos diferentes estádios de desenvolvimento do ser humano.  Primitivos(3) e não primitivos são classificações que – não fora as investigações realizadas por antropólogos clarificar(4) – poderiam ser tomadas como a não existência e existência de cultura. A proto-história, que colocara o homem em perfeita harmonia com a natureza, sofre uma ruptura – no mito grego de Prometeu e Epimeteu – que resulta na vida de sofrimento e de adaptação que o ser humano enceta. A caixa de Pandora que nos torna selvagens, bárbaros ou mais humanos abre o caminho para que o elemento descritivo – que surge como tudo aquilo que não procede da natureza – ligue a cultura ao seu significado etimológico. Este devir cultural do ser humano, claramente universal e necessário para evolução futura, consubstancia-se nas suas formas de agir e de viver.

Na etimologia latina, a palavra cultura recebe o significado que lhe advém do verbo colere, cultivar. Esta acepção original da palavra cultura está na base do conceito humanístico, sinónimo de erudição. Uma cultura que se adquire através da artes e das letras, do cultivo do espírito e do corpo humanos, e que encontra a sua expressão máxima ao longo dos tempos em ideais como os da paideia grega ou das “Humanidades” da época renascentista(5). A esta componente cultural de desenvolvimento humano, acresce-se um carácter colectivo – para além do individual – particularmente no século XVIII, através da filosofia idealista alemã e do conceito de bildung (construção). Segundo esta acepção, os padrões de formação intelectual e comportamental devem reger-se por padrões superiores e refinados(6). Com o nascimento das ciências humanas(7), no século XIX, nasce o conceito científico ou antropológico de cultura. A primeira definição canónica deste conceito, deve-se ao antropólogo inglês Edward B. Tylor, que, na sua obra Primitive Culture, de 1871, diz:

Cultura ou civilização, em sentido etnográfico amplo, é aquele todo complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, o direito, os costumes e quaisquer outras aptidões e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade.

Com esta delimitação externa, determinam-se as noções de “todo”, “conteúdo” e “condição fundamental” que definem o conceito antropológico que Tylor acreditava possuir uma base funcional e universal e que, pela sua abrangência, abarca toda a cultura humanística. Faltará determinar os elementos que permitem encontrar respostas ao como e porque se transmite. Nesse sentido vai a proposta de Clifford Geetz – fundador da Antropologia Hermenêutica ou Interpretativa – claramente alicerçada na componente etnográfica da cultura. Diz Geetz:

… se você quer compreender o que é a ciência, você deve olhar, em primeiro lugar, não para as suas teorias ou as suas descobertas, e certamente não para o que seus apologistas dizem sobre ela; você deve ver o que os praticantes da ciência fazem (8) .

Esta visão antropológica veio classificar o processo cultural como um processo necessariamente dinâmico. Um produto de factores inter-relacionados – indivíduo, povos, ambiente e tempo – que comporta tudo o que o ser humano faz significativamente – com sentido e finalidade – em sociedade.

Cultura Portuguesa

As duas acepções da palavra “cultura” que em António Sérgio adquirem significados bem distintos – o etnográfico (relativo) e o universal (absoluto)(9) – encontram eco em Eduardo Lourenço quando este, em 1952, nas páginas da revista Bicórnio, promove um inquérito que pretende indagar da real existência de uma “cultura portuguesa” ou, em alternativa, de uma cultura importada da Europa que corresponderia a uma “cultura em Portugal”(10). Criticando a postura dogmática das fórmulas gerais, António Sérgio adverte para a necessidade de conhecer previamente as características dos outros povos como condição para a determinação do que é verdadeiramente nosso(11).  Tanto António Sérgio como Eduardo Lourenço acentuam as diferenças marcantes da idiossincrasia portuguesa em relação aos restantes povo europeus, particularmente manifestas no espírito acrítico que perdurou em Portugal durante o período das luzes. Enquanto a França de Montaigne, Descartes ou Pascal produzira pensamento suficiente para um liberalismo cultural que se manifestava em finais do século XIX, Portugal via estagnado esse desígnio espiritual, só iniciado com a Geração de 70 – ou Geração de Coimbra –  e sem consequências práticas de monta. Este fenómeno tipicamente português é o resultado de um “magma obscuro de heranças e ritos milenários”(12), como refere Eduardo Lourenço, e de uma hiperidentidade que ecoa dos feitos quinhentistas da nação. Um messianismo que faz de Portugal a Jerusalém do povo judaico(13).  Valerá a pena citar António José Saraiva, quando diz:

O messianismo, filosofia de exilados e de infelizes, mas também afirmação de forte personalidade espiritual, tem-se revelado uma das persistentes expressões do espírito português, desde Os Lusíadas até ao «25 de Abril» inclusive, assumindo várias formas, uma das quais foi o sebastianismo propriamente dito(14).

Porventura, este sentimento surrealista, com que Portugal se faz navegar, terá raízes na “solidão” a que nos vimos votados como povo, desde cedo na nossa nacionalidade. Castela funcionou como um “deserto isolador, mais do que como um espaço de ressonância e comunicação”, fazendo-nos viver entre a “aventura fora e a passividade dentro”(15). Experimentamos uma “mistura confusa de transcendência-imanência da nossa vida à Vida que provoca um nevoeiro no espírito”(16). A nossa cultura militante que, segundo Eduardo Lourenço, é fruto da influência e omnipresença do Cristianismo(17), moldou-nos a nossa originalidade, até na atitude perante a perda do nosso império além-mar. Este “isolamento surrealista” terá sido, durante anos, o responsável por uma cultura autista em Portugal. O completo desaproveitamento de fundos comunitários a que assistimos nas décadas de 80 e 90 do século passado, poderá ser visto como um paradigma do nosso completo alheamento e do excesso de confiança que depositamos na “consanguinidade cultural” que nos define.

O sentido mais profundo da vivência cultural na sociedade de hoje

Os cerca de trinta anos passados após o estabelecimento da democracia não trouxeram mudanças significativas ao nosso sentir como povo, nem transformou a nossa vocação lírica, o nosso delírio manso e a nossa Saudade. Uma nação que não aproveita os aspectos positivos da integração europeia e que continua a urdir a sua história com o fio da melancolia, numa espécie de irrealidade do “realismo”, é uma nação que continua a acreditar no superdesígnio da Providência. As mudanças operadas em Portugal, alteraram a forma e deixaram intacto o conteúdo. O espaço público de que necessitávamos deu lugar a uma cultura dos media que aproximou Portugal dos traços característicos das sociedades pós-materialistas. Assistimos a uma vivência cultural redutora e, face à oferta de que dispomos, paradoxal. Mergulhamos, como diz José Gil, num lugar de “transformação anónima dos objectos individuais de expressão”(18). As novas fontes de cultura são suportadas por um carácter de produção claramente independente, como é exemplo a proliferação da blogosfera. É através das novas tecnologias que hoje se comunica e se ganha notoriedade social e política. Os espaços públicos existentes carecem de massa crítica e de abertura. O sentido mais profundo da nossa vivência cultural “esconde-se” na superficialidade das relações e na passagem de uma hiperidentidade secular para uma hiperidentidade da informação e do conhecimento, sem que tal tenha significado uma mudança no nosso estatuto ontológico inabalável e eterno.

NOTAS

[1] Segundo uma compilação do antropólogo americano Alfred Kroeber, elaborada na década de 1950, existiriam cerca de 250 variações de definição de cultura. (Cf. Mércio Pereira Gomes, Antropologia, São Paulo: Contexto, 2008,  p.33. )

2 B.Bernardi, italiano, é especialista em Antropologia, Etnologia, Arqueologia e Estudos Africanos.

3 Depois do aparecimento da teoria da evolução das espécies, o termo primitivo passou a aglutinar os termos bárbaros e selvagens.

4 Com as investigações dos antropólogos, conclui-se que os chamados primitivos já não se encontravam na primeira fase da evolução e que não estavam privados de cultura (Cf. Bernardo Bernardi, Conceitos e problemas da antropologia cultural, in Antropologia, Lisboa: Teorema, 1989, p.18)

5 O conceito de “Humanidades” renascentista privilegia o desenvolvimento através da redescoberta dos “clássicos”.

6 Cf. Mércio Pereira Gomes, Antropologia, São Paulo:Contexto, 2008, p.34.

7 Também designadas, por Edward B. Tylor, por ciências do espírito.

8 Cf. Clifford Geertz, A interpretação das culturas, Rio de Janeiro:Zahar, 1989, p.15.

9 Cf. António Sérgio, Sobre a cultura portuguesa in Ensaios – VII, Lisboa:Sá da Costa, 1977, p.112.

10 Não é despicienda a carga política de base cultural contida neste inquérito, patente na discussão da questão defendida por Álvaro Ribeiro sobre uma “filosofia portuguesa” que fornecesse uma orientação geral de carácter unitário e identitário à maneira de ser portuguesa. (CF. Maria Manuel Baptista, Eduardo Lourenço – a paixão de compreender, Porto:Asa, 2003, pp.40-41.

11 António Sérgio, Sobre a cultura portuguesa in Ensaios – VII, Lisboa:Sá da Costa, 1977, pp.111-112.

12 Cf. Eduardo Lourenço, Portugal como cultura in Arquivos do Centro Cultural Português, Lisboa, vol.31, 1992, p.17.

13 Cf. Eduardo Lourenço, Identidade e memória in Nós e a Europa ou as Duas Razões, Lisboa:INCM, 1988, p.10.

14 Cf. António José Saraiva, A cultura em Portugal, Teoria e História, Livro I, Lisboa:Gradiva, 2007, p.82.

15 Ibidem, pp.81-82.

16 Cf. José Gil, Portugal, Hoje O Medo de Existir, Lisboa:Relógio D’Água, 2005, p.8.

17 Cf. Eduardo Lourenço, Portugal como cultura in Arquivos do Centro Cultural Português, Lisboa, vol.31, 1992, p.19.

18 Cf. José Gil, Portugal, Hoje O Medo de Existir, Lisboa:Relógio D’Água, 2005, p.28.


BILBIOGRAFIA

BAPTISTA, Maria Manuel – Eduardo Lourenço a paixão de compreender. Porto:Asa, 2003.

BERNARDI, Bernardo – Conceitos e problemas da antropologia cultural in Antropologia. Lisboa: Teorema, 1989.

GEERTZ, Clifford – A interpretação das culturas. Rio de Janeiro:Zahar, 1989.

GIL, José – Portugal, Hoje O Medo de Existir. Lisboa:Relógio D’Água, 2005.

GOMES, Mércio Pereira – Antropologia. São Paulo: Contexto, 2008.

LOURENÇO, Eduardo – Identidade e memória in Nós e a Europa ou as Duas Razões. Lisboa:INCM, 1988.

LOURENÇO, Eduardo – Portugal como cultura in Arquivos do Centro Cultural Português. Lisboa, vol.31, 1992.

SARAIVA, António José – A cultura em Portugal, Teoria e História, Livro I. Lisboa:Gradiva, 2007.

SÉRGIO, António – Sobre a cultura portuguesa in Ensaios – VII. Lisboa:Sá da Costa, 1977.

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