De Mondrian a Rietveld

Desde sempre a arte reinventa-se, inspira-se, transforma-se e materializa-se em algo, às vezes semelhante à obra de referência e outra vezes tão diferente que a referência parece mero acaso.
Aqui pretende-se expor a influência que a pintura de Mondrian teve na arquitectura de Rietveld.

Piet Mondrian, pintor holandês (1872-1944) começou a sua actividade artística representando pessoas e paisagens, mas, no início do século XX, o suave colorido naturalista das suas obras anteriores é substituído por uma paleta de cores puras, cores primárias aplicadas de forma arbitrária, pelas quais é reconhecido actualmente.
Durante a segunda metade da década de 20 do século XX, vários movimentos propõem uma arte não figurativa, regida por normas próprias e não espartilhada nos objectos de natureza física.
Mondrian, que chegou à abstracção por via do cubismo, recebe duas influências fundamentais na evolução da sua obra. Uma surge no âmbito pictórico por Bart Van der Leck, cujas estilizações à base de planos de cores primárias definirão o novo estilo de Mondrian. A outra procede do místico Schoenmakers (progressivamente Mondrian tinha-se afastado do calvinismo em que nascera e aproximara-se de crenças esotéricas, especialmente a teosofia) que, num dos seus ensaios escrevia: “Os dois extremos absolutos fundamentais que conformam o nosso planeta são: a linha de força horizontal, isto é, a trajectória da Terra ao redor do Sol, e o movimento vertical e profundamente espacial dos raios que tem a sua origem no centro do Sol (…). As três cores principais são o amarelo, o azul e o vermelho. Não existem mais cores do que estas.”
Estava, assim, definida a estética de Mondrian, que concebe a obra de arte como um veículo para exprimir a força e a harmonia do universo, por meio de recursos exclusivamente plásticos.

Quadro 1, 1921 (“A trama ganhou simplicidade e cada uma das três cores primárias aparece uma só vez, tudo isso para não velar o núcleo central da sua estética: a arte como criação de relações elementares-entre linha e plano entre cor e não-cor.”)

Em 1917, na Holanda, formou-se o grupo De Stijl, com a finalidade de criar um estilo válido para a “nova consciência da época”, que substituiria o “individual” pelo “universal”. Na pintura isso significou o repúdio de todas as referências representativas. A natureza era demasiado material e individual. Só a arte “universal” permitia a composição abstracta, como um “equilíbrio da posição e peso da cor”. Os quadros de Mondrian (o pintor mais importante do grupo) reduziram-se a linhas pretas em combinações rectangulares, juntamente com as cores primárias vermelho, azul e amarelo, suportadas por muito branco e um pouco de cinzento.
Neste período a arquitectura moderna aperfeiçoou-se num processo de reduções a proporções positivas, comparáveis à da pintura moderna.
Um dos poucos edifícios representativos destes princípios é a Casa Schröder (Património Mundial da Unesco), construída em Utrecht por Gerrit Rietveld (1888-1964), que se juntou ao movimento em 1918. A forma básica é cubóide mas é “decomposta” por projecções horizontais e bocados de paredes verticais, parapeitos e suportes. O ângulo recto, que Mondrian elevava ao nível de dogma, governa mesmo os detalhes: janelas que abrem para fora só podem segurar-se numa posição, exactamente num ângulo de 90 graus em relação à fachada. O esquema de cores é o de Mondrian: todos os elementos lineares são vermelhos, azuis ou amarelos, enquanto as superfícies são brancas ou cinzentas.

Casa Schröder, 1924 (fachada). A casa constitui uma aplicação a três dimensões dos princípios estabelecidos pelos neoplasticistas (De Stijl).

Casa Schröder, 1924 (interior). No andar superior da casa, libertados da carga estrutural, os tabiques podem ser móveis, permitindo diversas combinações com base numa única superfície.

Sendo praticamente contemporâneos, é quase impossível determinar onde começa a influência de um e termina a do outro, sendo que a arte se interpenetra, se reinventa e se reescreve sucessivamente.

Clara Margarida dos Reis Morais (PG20786)

Gössel, Peter; Leuthaüser, Gabriele; “Arquitectura no Século XX”, Editora Taschen, ISBN 3-8228-9004-9 P;
Khan, Hasan-Uddin; “Estilo Internacional – Arquitectura Moderna de 1925 a 1965”; Editora Taschen, 2001, ISBN 3-8228-1269-2;
Zabalbeascoa, Anatxu; “As Casas do Século”, Editorial Blau, 1998, ISBN 972-8311-20-6;
Vários, “Grandes Pintores do Século XX-Mondrian”, Editora Globus Comunicación, 1995, ISBN 84-8223-073-5.

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