Uma interpretação da cultura portuguesa dos séculos XV e XVI a partir da leitura do Naufrágio de Sepúlveda

A grande epopeia dos Descobrimentos

Hoje como antes, não parece subsistir grande dúvida em relação à grandeza dos Descobrimentos e à sua pesada herança para nós portugueses, tendo em conta a reduzida dimensão de Portugal como nação.  Durante pelo menos cem anos, Portugal foi o «contaminador do Mundo»[1], fazendo com que a civilização cristã se impusesse às civilizações islâmicas e judaicas – na época as que reuniam grande parte do saber –, o que lhe permitiu destacar-se  como país no mundo ocidental.

O enquadramento deste acontecimento – o mais marcante de sempre para o povo português -, através de uma leitura retrospectiva da nossa História, levar-nos-á a encontrar remotas razões que adquirem agora uma renovada dimensão. Reforçam-se assim as condições para o desenvolvimento de uma consciência identitária que faz de Portugal e dos portugueses um povo com uma missão espiritual, quer através do renascer do mito de Ourique, quer através de toda a importância conferida à Ínclita Geração[2]. Fernão Lopes, na Crónica de D. João I, fala de um “evangelho português” e de uma “sétima idade do mundo”, comparando a acção do Mestre de Avis e de Nun’Álvares com a de Cristo, o messias, e de S. Pedro, ainda que «com ousança de falar, como quem jogueta»[3]. Essa missão de carácter espiritual terá sido a razão oficialmente tida pelos cronistas ao serviço do rei – e de resto a mais convincente para a mentalidade do tempo – para propagar um plano de desenvolvimento da história, no qual o Cristianismo representaria a perspectiva de valores mais realizadores para a humanidade. Portugal assumia-se como «o paladino da fé católica , e a expansão mundial da Fé era a sua vocação própria , a razão de ser da sua história.»[4]. Este discurso oficial vai-se impondo aos cronistas, que se apoiam em episódios notáveis do reinado de D. João I, como é exemplo a tomada de Ceuta, no norte de África, em 1415 [5].

Falar das verdadeiras causas da nossa epopeia e ignorar outras encapsuladas razões, seria amputar uma das faces da história, aquela que, pela voz do Velho do Restelo, vem lembrar: se desejas combater pela religião de Cristo não tens aí Mouros com quem combater? Se desejas conquistar territórios e obter riquezas não têm eles terras e riqueza mais que suficientes? Se queres alcançar glória pelos feitos de guerra, não são eles valorosos no combate?[6] À causa cristã juntam-se as causas militares e político-económicas, com a corte portuguesa a colher frutos de um mercantilismo para o qual, segundo os seus críticos, não estaria vocacionada. Terá sido este último aspecto, juntamente com o absolutismo da monarquia e a Inquisição, que levou Alexandre Herculano a afirmar que «(…) a parte positiva, criativa e de certa maneira orgânica da história de Portugal acabou no século XV.»[7].  Mais tarde, Antero de Quental apoiar-se-ia na teoria para concluir serem esses factores as «causas da decadência dos povos peninsulares»[8].

Revestindo-se esta expansão de extrema importância para o Ocidente, foi, incontornavelmente, o acontecimento que mais modelou o carácter nacional e, seguramente, o primeiro passo da hoje tão falada globalização. É ao abrigo da nossa Santa Missão que os Descobrimentos se cumprem, não sem que um incómodo e trágico preço seja pago.

A Literatura de Viagens

A constituição do vasto império português será tema fértil para uma literatura que se dedicará a construir a História destas conquistas. Os investigadores apelidam-na de Literatura de Viagens ou Literatura dos Descobrimentos. Segundo José Manuel Garcia, pela multiplicidade de realidades patenteadas em tais escritas, «parece mais adequado falar numa Literatura Portuguesa da Expansão»[9]. São textos com um elevado valor histórico e humano que reproduzem, de uma forma mais directa, o comportamento dos seus intervenientes e a vivência de uma época. Nestas narrativas não existem filtros de origem política ou literária, o que faz deles excelentes documentos de investigação[10]. Desde logo, o interesse manifestado pelo português médio neste tipo de literatura encontra equivalente, na sociedade de hoje, na curiosidade manifestada pelos assuntos que dizem respeito a factos da vida social e política, sobretudo no que diz respeito a acontecimentos nefastos para os seus intervenientes. Nesta classe de literatura encontra-se a História Trágico-Marítima.

A História Trágico-Marítima e o Naufrágio de Sepúlveda

A História Trágico-Marítima (Lisboa, 1735-36), organizada por Bernardo Gomes de Brito, é uma antologia de doze relatos de naufrágios ocorridos durante a epopeia dos Descobrimentos. São estes os relatos do reverso da medalha e dos quais faz parte o Naufrágio de Sepúlveda. A narrativa – de autoria anónima[11] – conta o naufrágio do galeão São João que, comandado por D. Manoel de Sousa Sepúlveda, parte de Cochim rumo a Lisboa, vindo a naufragar nas costas da Terra do Natal.

A partir do texto, retiram-se episódios que constituem sinais claros da cultura portuguesa dos séculos XV e XVI e que, em alguns casos, encontram expressão na contemporaneidade.

No prólogo, aparecem já referências que testemunham o carácter religioso da cultura portuguesa:

“COUSA é esta, que se conta neste naufrágio, para os homens muito temerem os castigos do Senhor e serem bons cristãos, trazendo o temor de Deus diante dos olhos, para não quebrar seus mandamentos”.

A componente religiosa e didascálica encontrar-se-á ao longo de toda a narrativa em expressões como “pôr tudo nas mãos de Deus”, “seja o que Deus quiser” ou “a Nossa Senhora que rogue por todos”. Esta maneira muito sui generis de ser português é uma marca imbuída de uma perenidade que se revela nos dias de hoje e uma das características incontornáveis da nossa certeza de que os males só acontecem aos outros. Uma certeza de que a nossa nau, por milagre de Deus, se sustentará sobre o mar. E se, por acaso, algum mal nos acontece, é um “estado a que por nossos pecados somos chegados”.

Uma missão tão religiosa e providencial parece encontrar oposição na desmesurada ambição dos portugueses. Esta ambição consubstanciar-se-á em quantidades de carga largamente superiores ao aconselhável, pelo que “se havia de ter muito cuidado pelo grande risco que correm as naus muito carregadas”. Em cada viagem, o propósito era o de trazer a maior quantidade (im)possível de bens para o reino, o que era feito, segundo António Sérgio, «atulhando o galeão de fardaria em barda, que subia no convés até altura dos castelos»[12]. A falta de manutenção e envelhecimento sucessivo da frota, a má preparação dos pilotos, faz com que as naus já saíam do Tejo a «meter água em jacto»[13].

Para este comportamento e modo de ser português existe uma explicação desculpabilizadora: o fatalismo. As responsabilidades do naufrágio são atribuídas ao destino e à fortuna adversa, o que se verifica em expressões como “visto não haver outro remédio” ou “como já estava de cima”[14], servindo como forma de desviar as responsabilidades de putativos destinatários[15].

Mas há qualidades do povo português que uma tão grande tragédia põe a descoberto. Refiro-me ao espírito de entreajuda e solidariedade entre as várias ordens sociais que navegam a bordo do S. João. É como se, em momentos de crise, desaparecessem barreiras, fazendo com que todos remem no mesmo sentido. Não encontraria melhor exemplo do que o proferido pelo piloto durante a intempérie: «Irmãos, antes que a nau abra e se nos vá ao fundo, quem quiser embarcar comigo naquele batel o poderá fazer». Poderá daqui erradamente decorrer que não eram respeitadas hierarquias. De facto, todas as acções ocupam o espaço que lhes é determinado pela condição social, sendo a morte a única fatalidade que não escolhe cor de pele.

Apesar de toda a fatalidade que se abate sobre a tripulação, uma certa dose de ingenuidade contribui para o acelerar de um destino trágico. Talvez fruto do desespero, D. Manuel de Sousa é induzido, pelo Rei cafre, a dispersar o grupo sobrevivente e a entregar armas. Terá sido o princípio de seu fim, de sua esposa D. Leonor e de seus filhos, constituindo-se num drama que é elucidativo do outro lado dos factos. Contrastando com a triste sorte da maioria da tripulação, o episódio de Pantaleão de Sá que, fazendo-se passar por médico, cura a chaga do Rei cafre, vem-nos lembrar quantas vezes, na nossa cultura, a atitude charlatã colhe os seus indevidos frutos.

Reflexão Final

A Literatura de Viagens veio colocar a nu o elevado preço a pagar pela nossa expansão quinhentista, funcionando como regulação de uma euforia desmedida e repondo os níveis de realidade histórica do nosso povo. É esta função primordial, em dissonância com a pena oficial dos cronistas do reino, que possibilita o revelar de uma outra verdade. Enterrarmo-nos até à cintura numa cova na areia, é ignorar a oblação humana que nos possibilitou a consciência do que somos por havermos sido os primeiros a descobrir novos mundos. Continuando a lucrar com os feitos do passado, resta-nos, como nação, esperar pela volta do círculo que nos levará «do pó que fomos ao pó que havemos de ser»[16].


[1] Cf. Luís Filipe Barreto, A Herança dos Descobrimentos in Biblioteca Digital Camões, Revista ICALP [em linha], 2009, p. 1. http://cvc.instituto-camoes.pt/bdc/revistas/revistaicalp/heranca.pdf [consultado em 2009-04-11].

[2] A Ínclita Geração é o nome dado por historiadores portugueses aos filhos do rei João I de Portugal e de Filipa de Lencastre. O epíteto refere-se ao valor individual destes príncipes que, de várias formas, marcaram a História de Portugal e da Europa. “Ínclita Geração”, in Wikipédia, A Enciclopédia Livre [em linha], 2009, http://pt.wikipedia.org/wiki/Ínclita_geração [consultado em 2009-04-14].

[3] Cf. Fernão Lopes, Crónica de D.João I, Caps. 157-158.

[4] Cf. António José Saraiva, A cultura em Portugal, Teoria e História, Livro I. Lisboa:Gradiva, 2007, pp. 112-113.

[5] A Conquista de Ceuta, cidade islâmica no Norte d’África, por tropas portuguesas sob o comando de João I de Portugal, deu-se a 22 de Agosto de 1415. “Tomada de Ceuta”, in Wikipédia, A Enciclopédia Livre [em linha], 2009, http://pt.wikipedia.org/wiki/Tomada_de_ceuta [consultado em 2009-04-14].

[6] Cf. Os Lusíadas (IV,100-101).

[7] Cf. António José Saraiva, A cultura em Portugal, Teoria e História, Livro I, Lisboa: Gradiva, 2007, p. 115.

[8] Ibidem, p.116.

[9] Cf. José Manuel Garcia, Algumas observações sobre a Literatura Portuguesa da Expansão in Biblioteca Digital Camões, Revista ICALP [em linha], 2009, p. 1. http://cvc.instituto-camoes.pt/bdc/revistas/revistaicalp/observacoes.pdf [consultado em 2009-04-11].

[10] Deve ter-se em conta alguns problemas relacionados com “uma segura identificação das edições existentes, de uma discriminação correcta e cientificamente justificada entre as edições autênticas e as falsas lançadas no mercado”. (Cf. Giulia Lanciani, Os relatos de naufrágios na literatura portuguesa dos séculos XVI e XVII, Biblioteca Breve, Vol.41.  Amadora: Instituto de Cultura Portuguesa, 1979, pp. 8-9).

[11] O autor do relato terá, provavelmente, recebido informações de Álvaro Fernandes, guardião do galeão. Foi pela primeira vez impresso entre 1555 e 1556 (Cf. Giulia Lanciani, Os relatos de naufrágios na literatura portuguesa dos séculos XVI e XVII, Biblioteca Breve, Vol.41.  Amadora: Instituto de Cultura Portuguesa, 1979, p. 11).

[12] Cf. António Sérgio, Ensaios, Tomo VIII. Lisboa: Sá da Costa, 1974, p. 155.

[13] Ibidem, p. 153.

[14] Como Deus tinha determinado.

[15] O que, em linguagem bem popular, se poderá designar por “sacudir a água do capote”.

[16] Cf. Padre António Vieira, Sermões.

BIBLIOGRAFIA

BARRETO, Luís Filipe – A Herança dos Descobrimentos in Revista ICALP.

GARCIA, José Manuel – Algumas observações sobre a Literatura Portuguesa da Expansão in Revista ICALP.
História trágico-marítima / Bernardo Gomes de Brito. – Barcelos : Companhia Editora do Minho, 1942. – 3 v. ; 20 cm. – (Nova edição / publ. sob a direcção de Damião Peres) http://purl.pt/191

 

LANCIANI, Giulia – Os relatos de naufrágios na literatura portuguesa dos séculos XVI e XVII, Biblioteca Breve, Vol.41. Amadora: Instituto de Cultura Portuguesa, 1979.

SARAIVA, António José – A cultura em Portugal, Teoria e História, Livro I. Lisboa: Gradiva, 2007.

SÉRGIO, António – Ensaios, Tomo VIII. Lisboa: Sá da Costa, 1974.

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