Gil Vicente: “Rindo se castigam os costumes”

A personagem de Gil Vicente (1465-1536?) ainda permanece impregnada de algumas dúvidas, pois existe também um ourives, autor da Custódia de Belém, com o mesmo nome. Gil era um nome vulgar e S. Vicente era patrono de Lisboa, daí que surjam muitas figuras com este nome na época. Do homem de teatro, sabe-se que encenou a sua primeira peça em 1502 e foi colaborador do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. Em vida, publicou alguns dos seus autos, sendo alguns proibidos pela Inquisição e, séculos mais tarde, censurados pelo regime de Salazar. Gil Vicente no seu repertório teatral integrou elementos tradicionais, como o sermão burlesco, imitações jocosas de actos religiosos, como ladainhas, intervenções de parvos, com raízes no parvo do carnaval. Gil Vicente observou muito bem a realidade nacional de seu tempo, levando o espectador a sentir as suas preocupações, os seus desejos representados em palco. Revela várias influências, quer nos tipos sociais das moralidades, quer nos pormenores simbólicos, como nos Diálogos dos mortos, século II a. c., Revela ainda influência dos Livros de Horas. Erasmo de Roterdão (1466 -1536) também exerceu influência no autor. Erasmo no seu tratado “Da civilidade dos costumes das crianças”, publicado em 1530, fala do comportamento do homem em sociedade. Esta obra é dedicada a um jovem príncipe e fala da educação dos rapazes. Nela encontramos referências a comportamentos que muitos de nós chamaríamos de “bárbaros” ou “incivilizados”:

  • “cospe para o lado, para não atingires ninguém. Se for lançado para o chão… esmaga-o com o pé para que não provoque nojo a ninguém. Se tal não te é permitido, cospe para o lenço” ( Elias, 1989: 105).
  • “Não mergulhar os dedos no caldo, que é coisa própria de camponeses. Não te ponhas a escolher os melhores bocados” ( Elias, 1989: 106).
  • “Não reter os gazes, porque podes contrair uma doença. Vomitar é feio, mas deve fazer-se se for preciso” ( Elias, 1989: 106).

Erasmo opôs o “incivilizado” e o “civilizado”. Na Idade Média, o padrão de boa conduta era pertença dos grupos dominantes, eram eles que tinham consciência do que os distinguia, era a “cortesia” o padrão. Ter um comportamento nobre contrastava com os “costumes rústicos” dos camponeses. Gil Vicente faz uma grande crítica à sociedade do seu tempo. Na sua obra “Auto da Barca do inferno”, que tem como propósito a sátira social, onde as suas personagens são personificações alegóricas ou tipos reais caricaturados. No palco de Gil Vicente não desfilam personagens individuais, mas sim tipos sociais, que agem de acordo com a sua condição. Este autor retratou com refinado sentido cómico a sociedade portuguesa do século XVI, criticando severamente os costumes, de acordo com a máxima que seria ditada por Molière (“Ridendo castigat mores” – rindo se castigam os costumes).

Ilustração da edição original do Auto da Barca do Inferno, (1517)

Ilustração da edição original do Auto da Barca do Inferno, (1517)

Um outro autor que marca este período histórico-literário chamado Humanismo, ou segunda Época Medieval, é Rabelais (1494-1553). Trata-se de um período de transição do pensamento teocêntrico medieval para uma visão antropocêntrica renascentista. A obra aqui analisada, de Gil Vicente é formada pela trilogia das Barcas: o Auto da Barca do Inferno (1516), o auto da Barca do Purgatório (1518) e o Auto da Barca da Glória (1519), cujo principal tema é o julgamento das almas após a morte, com a representação alegórica de duas barcas que conduzem os mortos ao Paraíso ou ao Inferno, segundo os seus comportamentos em vida. Para Rabelais, segundo Mikhail Bakhtin “Nas diabruras dos mistérios da Idade Media, nas visões cómicas de além-túmulo (…) O diabo é o alegre porta-voz ambivalente de opiniões não oficiais, da santidade ao avesso, o representante do Inferior material, etc. (…) assegurava a todos que os diabos eram boa gente”. Ás vezes o diabo e o inferno são descritos como meros “espantalhos alegres” (Bakhtin, 1987: 36)

Liber Chronicum, de Hartmann Schedel (séc. XV).

Liber Chronicum, de Hartmann Schedel (séc. XV).

À barca, à barca, hu!!

Asinha, que se quer ir.

Ó tempo de partir!

Louvores a Belzebu.

 (Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno)

Neste auto, Gil Vicente faz chegar à margem as almas representativas das várias classes sociais e profissionais de seu tempo: a nobreza, representada pelo fidalgo; o clero, pelo frade amancebado; os mestres, pelo sapateiro; o poder judicial, pelo corregedor e pelo bacharel procurador; a dos agiotas e ladrões, pelo judeu, pelo onzeneiro e pelo enforcado; a dos mistificadores, pela alcoviteira. Para todas estas personagens o destino é o reino de Satanás. Todos argumentam com inúmeras razões o seu direito de embarcar no batel do Paraíso, mas apenas se salva um parvo (porque “Bem aventurados os pobres de espírito porque deles é o reino do Céu”) e quatro cavaleiros – que combateram pela fé de Cristo.

“É preciso notar que no grotesco da ldade Media e do Renascimento há elementos cómicos mesmo na imagem da morte (até no campo pictórico, como por exemplo nas “Danças macabras” de Holbein ou Durer). A figura do espantalho cómico reaparece com maior ou menor relevo. (Bakhtin, 1987: 44)

A obra de Gil Vicente permanece actual, sendo apropriada de diferentes formas por diversos grupos de teatro.

A Companhia de Teatro Braga (CTB) realizou uma apresentação onde é respeitado o texto original de Gil Vicente, mas o guarda-roupa, o cenário e a música transmitem uma mensagem mediante a qual associamos rapidamente uma obra do século XVI ao século XXI.

Imagens da representação do “Auto da Barca do Inferno” pela CTB, 2012

Imagens da representação do “Auto da Barca do Inferno” pela CTB, 2012

Imagens da representação do “Auto da Barca do Inferno” pela CTB, 2012

Imagens da representação do “Auto da Barca do Inferno” pela CTB, 2012

Imagens da representação do “Auto da Barca do Inferno” pela CTB, 2012

Imagens da representação do “Auto da Barca do Inferno” pela CTB, 2012

Será que a maledicência, o orgulho, a usura, a concupiscência, a venalidade, a petulância, o fundamentalismo, a inveja, a mesquinhez, o falso moralismo cristão…. têm entrada directa no paraíso? Ou terão de passar pelo Purgatório? Ou vão directamente ao Inferno? E a pé, de pulo ou voo? Aliás, onde fica e como designamos o Lugar onde estamos? E que paraíso buscamos?

Eis uma revisão da CTB em demanda da modernidade sobre o texto Vicentino e o prazer do jogo teatral.

“Um espectáculo sobre a nossa memória identitária” (Rui Madeira).

Podemos fazer de outra forma, inspirar-nos na mensagem de Gil Vicente e levar os alunos a (re)escrever esta peça de teatro, mas com personagens actuais. Foi o que fez o Teatro Amador de Briteiros Escolar (TABE).

Esta é uma fórmula: para quase acabar com o mundo perfeito, tenta-se que o mundo perfeito e acabado seja aniquilado pelo humor.

Num espaço onde as regras a respeitar são muitas, através de uma actividade como o teatro pretende-se desenvolver a criatividade, o rompimento das normas, o riso (proibido em muitos dos contextos escolares), que são aqui desenvolvidos e amplamente explorados.

“Segundo (…) Aristóteles: “0 homem é o único ser vivente que ri”. O riso era considerado como o privilégio espiritual supremo do homem, inacessível a outras criaturas. A décima que precede Gargantua, termina com estes dois versos:

Melhor é de risos que de lágrimas escrever

porque o riso é a marca do homem.”

(Bakhtin, 1987: 59)

São várias as personagens recriadas por estes alunos. Graças à criatividade, ao riso e à vivência de experiências diferentes vestem a pele das personagens que escolheram. Num primeiro momento os alunos compreendem a sociedade do século XVI, a crítica efectuada por Gil Vicente a esse mundo. Emergem os jogos de poder, a corrupção, grande valorização do material. Num segundo momento vestem a pele do Gil Vicente dos nossos dias e associam a crítica a personagens actuais, desfila então o FMI, a Troika, dirigentes de clubes de futebol, jogadores de futebol, bem como a chamada “elite social” portuguesa. Cada um carrega o peso dos seus “pecados” nos adereços que os irão conduzir ao paraíso dos perdidos.

Por exemplo, Brísida Vaz, alcoviteira, é condenada. Personagem interessante que informa o público acerca da qualidade moral de outros personagens que com ela se relacionaram.

TABE, “Auto das Barcas” 2012

TABE, “Auto das Barcas” 2012

O frade folião, acompanhado pela sua moça, em volta do qual já existia uma grande literatura medieval. Como todos os representantes do clero, o frade é alegre, cantante, bom dançarino. Acredita que por ter rezado e estar ao serviço da fé, deve ser perdoado de seus pecados mundanos, mas contra suas expectativas, é condenado ao fogo do inferno:

“Devoto padre marido,
haveis de ser cá pingado…”

 (Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno)

TABE, “Auto das Barcas” 2012

TABE, “Auto das Barcas” 2012

O parvo, que serve para exprimir os sentimentos mais reservados, é um dos poucos a não ser condenado ao Inferno. O parvo chega desprovido de tudo, é simples, sem malícia e consegue manipular o diabo, e até injuriá-lo. Quando passa pela barca do anjo, diz ser ninguém. Pela humildade apresentada e pelos valores que defende é conduzido ao paraíso.

TABE, “Auto das Barcas” 2012

TABE, “Auto das Barcas” 2012

O corregedor e o procurador são ambos representantes do poder judicial. Juiz e advogado deviam ser exemplos de bom comportamento e acabam condenados justamente por serem tão imorais quanto os mais imorais dos mortais, manipulando a justiça de acordo com as propinas recebidas. Aspiravam ao céu mas acabam no “paraíso dos danados”. Como nos diz o Padre António Vieira “Queremos ir ao Céu, mas não queremos ir por onde se vai para o Céu”.

TABE, “Auto das Barcas” 2012

TABE, “Auto das Barcas” 2012

Em Gil Vicente, tal como em Rabelais, “a bufonaria e a tolice, isto é, o riso, são qualificadas de “segunda natureza do homem” e opostas à seriedade sem falha do culto e da concepção cristã do Mundo (…). Foi justamente o carácter unilateral e exclusivo dessa seriedade que trouxe a necessidade de criar uma válvula de escape para a “segunda natureza humana”, isto é, a bufonaria e o riso. Essa é a missão da festa dos loucos “ao menos uma vez por ano”, data em que o riso e o princípio material e corporal a ele associado se expressavam livremente” (Bakhtin, 1987: 65).

Com o grupo de teatro não queremos ser o equivalente à “festa dos loucos” da Idade Média, mas numa sociedade cada vez mais higienizada, cheia de regras, com aulas de substituição, ocupação de alunos a tempo inteiro, diminuição da carga horária de áreas disciplinares artísticas, queremos criar um espaço livre, onde o riso e a criatividade são desenvolvidos, bem como a liberdade e o respeito. Os alunos sabem que em palco podem sempre “escrever de novo” a vida.

Sem defender o bem de um lado e o mal do outro, Gil Vicente faz-nos sentir como os dois lados são necessários à vida, como a luz necessita da sombra, as trevas emolduram a glória divina, sem a escuridão que seria da claridade?

Na obra de Rui Madeira, Diabo e Anjo saem de palco juntos, montados em cima de uma mota. No grupo de teatro escolar os alunos finalizam a peça dizendo ao público “Entre o bem e o mal assim vivemos todos os dias e todos temos um pouco de ambos”.

 

 

“À Barca, à barca segura ….

Porém na vida perdida

Se perde a barca da vida”

(Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno)

 

Bibliografia

BECKER, S. Howard (1988): Les mondes de l’art, Paris, Fammarion.

ELIAS, Norbert, (1989): O processo civilizacional, Investigações sociogenéticas e psicogenéticas, transformações do comportamento das camadas superiores seculares do ocidente, 1º e 2º vol., Publicações Dom Quixote, Lisboa.

MATTOSO, José, Direccção de (1994): História de Portugal, 7º volume, Circulo de Leitores.

BAKHTIN, Mikhail, (1987): A cultura popular na Idade Média e no Renascimento, o contexto de François Rabelais Editora Universidade de Brasilia, São Paulo.

STOER R. Stephen e ARAÚJO, Helena Costa (1992): Escola e aprendizagem para o trabalho: num país da (semi) periferia europeia, Lisboa, Escher.

HOGGART, Richard (1973): As utilizações da cultura, aspectos da vida cultural da classe trabalhadora, Editorial Presença, Lisboa.

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Maria da Conceição Rodrigues Ferreira Gonçalves, nº 3651

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