Joana Vasconcelos, uma manta de retalhos Neobarroca, Dadaísta e Popular

Joana Vasconcelos

Joana Vasconcelos

Joana Vasconcelos nasceu em Paris em 1971, onde os pais e família se refugiaram vindos de Moçambique. Após o 25 de Abril regressaram a Portugal, a Lisboa, onde ainda vive e trabalha.

Formou-se na Ar.Co-Centro de Arte e Comunicação Visual, em Lisboa, entre 1989 e 1996.

Foram muitos os prémios, trabalhos e exposições que constam da sua Biografia no seu site: http://www.joanavasconcelos.com/home.html .

Portugal tardou, ainda tarda a compreender Joana Vasconcelos: depois do seu sucesso no estrangeiro, a sua Arte peculiar começa finalmente a ser aceite entre nós. Este ano foi publicada a sua monografia e vai expor em Versailles.

Quanto a Versailles, trata-se da exposição anual de arte contemporânea do Palácio de Versailles, por onde já passaram, desde 2008, Jeff koons, Xavier Veilhan, Bernar Venet e Takashi Murakami. Joana Vasconcelos será a primeira mulher e mais jovem artista contemporânea a expor em Versailles.

Na sua monografia, de grandes dimensões, é abordada a obra da artista, nela consta também texto de Gilles Lipotvesky, estudioso da obra de Joana Vasconcelos.

Escolhi Joana Vasconcelos porque é portuguesa, contemporânea e consegue aliar o tradicional/popular ao erudito; a emoção, repetição, sinuosidade e excesso do barroco ao uso de objectos do quotidiano transformado em arte e irreverência artística do Dadaísmo. Fá-lo de uma forma única e muito pessoal, como numa manta de retalhos onde a parte e o todo se entrelaçam, como se nunca tivessem vivido uma sem a outra.

Segundo Lipovetsky, Joana Vasconcelos representa uma nova geração de artistas da hipermodernidade.

Gilles Lipovetsky “dentro” da obra War Games (2011) de Joana Vasconcelos

Gilles Lipovetsky “dentro” da obra War Games (2011) de Joana Vasconcelos

Joana Vasconcelos, na sua produção criativa, apropria-se, descontextualiza e subverte objectos banais do quotidiano, com humor e curiosamente sem prescindir do sentido de belo. As suas criações (esculturas / instalações) revelam um domínio extraordinário da escala, da relação com o espaço envolvente, da cor, das texturas, ao mesmo tempo recorre a fotos, vídeos…convoca o nosso imaginário e transforma tudo numa obra viva, táctil, mutante, com movimento, som e talvez cheiro, enfim, orgânica. Apela aos nossos sentidos, sentimentos e envolve-nos na cena: grande parte das suas obras são para ser tocadas.

Teatro Municipal de Portimão

 “ e dançaram para sempre” de Clara Andematt no Teatro Municipal de Portimão, Setembro de 2009.  Joana Vasconcelos assina a cenografia e os figurinos da peça.

 

Na imprensa, nos estudos literários sobre a sua obra artística, são lhe atribuídas muitas referências / influências…muitas apropriações: barroca, dadaísta, popular…Sendo todas estas referências tão diferentes e por vezes até contraditórias, que tipo de resultado seria expectável desta comunhão?

Joana Vasconcelos é uma mulher contemporânea. A contemporaneidade trouxe-nos a globalização, a identidade líquida, o sentimento de efemeridade, a sociedade de consumo, a velocidade dos meios de comunicação. Contrariando muitos artistas que fugiram, na sua vida e na sua obra, à sociedade em que viviam, Joana Vasconcelos cria com o que observa na sociedade global actual, de forma quase caricatural. Aproxima-se do “ready-made” do dadaísmo, na medida em que usa o objecto banal do quotidiano e trata-o como arte, mas também se afasta porque não rompe com esta sociedade, como de alguma forma preconizava o movimento Dada de Duchamp.

Numa entrevista publicada (Do Micro ao Macro e vice-versa – Uma conversa entre Augustín Pérez Rubio e Joana Vasconcelos) que li no site da artista já referido, Joana Vasconcelos refere-se a algumas destas relações:

Sobre o movimento Dada ou mais propriamente sobre uma possível influência de Duchamp:

“…A.P.R.: Não é a primeira vez que fazes algo relacionado com Duchamp, por exemplo, os teus urinóis revestidos a croché têm a ver com a Fontaine, A Noiva também tem a ver com isso…

J.V.: Pois, é claro, mas como dizia, a peça do secador de garrafas é muito feia, fria, etc. Mas é uma peça muito inteligente. Duchamp foi para mim um verdadeiro mestre, porque o que ele fez foi tirar tudo o que era supérfluo na obra: as considerações sobre o gosto, a estética, despojando a obra de

tudo isso. Mostrou o objecto puro, sem pudor. Ao fazer isto, trouxe imensas coisas novas ao mundo da arte: o vazio, a fealdade, a falta de escala. Suprimiu uma parte importante mas, ao mesmo tempo, levantou novas questões. Para mim, o vazio de Duchamp e o seu grau de conceptualização, hoje em dia, já não fazem sentido, porque nós vivemos numa multiplicidade de ideias, de modos de vida, de encontros, de consumo e de comunicação tão grande que temos de aproveitar o que ele fez, mas também temos que modificá-lo. …“

Fonte (1917) Marcel Duchamp - Candy, Candy (2006 ) Joana Vasconcelos

Fonte (1917) Marcel Duchamp                         Candy, Candy (2006 ) Joana Vasconcelos

Quanto ao barroco, este atravessa os tempos: “Numa definição estrita, o barroco confina-se a um estilo arquitetónico, artístico e literário historicamente datado. Mas o seu âmbito pode ser alargado passando a aludir a uma sensibilidade, a um espírito, a um modo de encarar a vida e de habitar o mundo…Para muitos autores, a pós-modernidade corresponde a um ponto alto do ciclo do barroco. Michel Maffessoli (1990), por exemplo, fala de uma “barroquização do mundo” e Omar Calabrese (1999) de uma “idade neobarroca”- (Gonçalves, Albertino (2009), Vertigens para uma sociologia da perversidade, Vertigens do presente-A dança do barroco na era do jazz- p 35).

Calabrese na sua obra “ a idade neobarroca” vai dissecando esta ideia de barroco contemporâneo contrapondo-a à ideia de Clássico: pictórico/linear, forma aberta/ forma fechada, multiplicidade/unidade, profundidade/superfície, clareza relativa/clareza absoluta. Invoca os elementos da forma e comunicação do barroco –a curva, a prega, a repetição nos seus diferentes modos, a serialidade, o excesso, a excentricidade ( fora do centro), o renascimento do “monstro”, a monumentalidade e o gigantismo entre outros…Reconhecem-se, todos eles, na obra de Joana Vasconcelos.

Joana Vasconcelos - Contaminação e Vitória – os monstros neobarrocos

Joana Vasconcelos – Contaminação e Vitória – os monstros neobarrocos

“Os novos monstros – contemporâneos- longe de se adaptarem a quaisquer homologações das categorias de valor, suspendem-nas, anulam-nas, neutralizam-nas…são forma que não têm propriamente uma forma, andam antes à procura de uma. “ (Calabrese, Omar (1987), a idade neobarroca, p 108)

Arte popular - Os Gigantones e figura de Rosa Ramalho

Arte popular – Os Gigantones e figura de Rosa Ramalho

Antes ainda de abordar a questão da Arte Popular, não posso deixar de aflorar a questão da relação do espaço com as obras desta artista:

A sua obra, dadas as dimensões e a sua escala, vive do espaço onde é exposta. Relaciona-se e depende tanto do espaço envolvente que este pode aniquilar a sua forma se não for adequado. A obra molda-se e adapta-se ao contexto arquitectónico, desde que este tenha a escala, forma, cor e textura capazes de formar um pano de fundo coeso com a obra.

A Noiva, Dorothy e Contaminação

A Noiva, Dorothy e Contaminação

Talvez o ”elemento-cola” da obra de Joana Vasconcelos seja a Arte Popular: o nosso imaginário está repleto dela, mesmo que o neguemos ou consideremos de mau gosto ou piroso, mesmo que possamos considerar arte popular como baixa cultura em detrimento da “outra” considerada alta cultura!

Na entrevista atrás referida (Do Micro ao Macro e vice-versa – Uma conversa entre Augustín Pérez Rubio e Joana Vasconcelos) Joana expõe a sua posição:

“ … A.P.R…. Em muitas das tuas obras o discurso está, a meu ver, tão no limite que já não sabes se realmente o que estás a fazer é subir a baixa cultura a uma peça de alta cultura ou o contrário, e isto pode criar uma abordagem irónica ou burlesca. Até que ponto consideras o croché da avó como um motivo de orgulho, essa ideia do que é português? Ou pelo contrário, ris-te através da ideia do design? Penso que em muitas das tuas peças existe uma ambiguidade, mas como é que se pode interpretar isso?

J.V.: Na verdade, a leitura depende da cultura de cada pessoa. As peças de croché são engraçadas por isso, porque, quando o espectador olha para elas, pode pensar: “Olha, é como o croché que tenho lá em casa, como o croché que fazem a minha avó ou a minha mãe!” E depois pensa: “Isto é de mau gosto Mas gosto da peça porque encontro uma identidade nela, algo que já conheço, que é parecido com o que tenho lá em casa, mas agora posso vê-lo inserido num contexto artístico. Por conseguinte, se está aqui é porque é bom. Então, porque é que eu penso que é mau?”

O nosso imaginário está repleto das cores, desenhos dos panos de croché das nossas avós, das cerâmicas (algumas de Rafael Bordalo Pinheiro…) que a nossa geração ou a geração dos nossos pais deitou fora ou arrumou no sótão porque era “parola” (este termo também é piroso (?),graças a Deus!).

Num artigo de Carole Boublés (Artpress, junho 2010), a autora refere-se assim à artista e à influência da Arte Popular: “Joana Vasconcelos é conhecida pelas suas apropriações de objectos em série e recurso ao trabalho manual. Parece ter um prazer malandro em contrapor as tradições e peculiaridades do seu país. Ela afronta os amadores de Arte pura com tampões higiénicos suspensos num gigantesco lustre (The Bride,2001-2008) ou com as colheres de plástico que desenham imensos corações (atingindo quase dois metros), no qual a força é tomada aos tradicionais Coração de Portugal…Mas põe também em prática numerosos trabalhos de croché, que confia a assistentes ou artesãs. Algumas obras podem cobrir parcialmente um edifício ou mesmo uma ponte. Eles vestem também, da cabeça às patas, cerâmicas de animais de dimensões mais modestas. Para estas peças, Joana fez “reviver” o estranho bestiário de Rafael Bordalo Pinheiro, ceramista português da segunda metade do sec. XIX.”

Joana Vasconcelos - Coração independente, valquíria-enxoval e cerâmica de Bordalo Pinheiro vestida com croché

Joana Vasconcelos – Coração independente, valquíria-enxoval e cerâmica de Bordalo Pinheiro vestida com croché

Arte Popular - Coração de filigrana,cerâmica de Bordalo Pinheiro e lenço dos namorados

Arte Popular – Coração de filigrana,cerâmica de Bordalo Pinheiro e lenço dos namorados

Num tempo em que nos sentimos perdidos, sem referências, “globalizados”, pertencendo a todo o lado e a lado nenhum, estas peças de Joana Vasconcelos reconciliam-nos com a nossa história, a nossa tradição, a nossa “identidade” porque conseguem conciliar o que aparentemente é inconciliável:

O popular e o erudito.

Nesta linha de pensamento, no presente ano lectivo, propus aos meus alunos do 9º ano de escolaridade – depois de deambularmos pela arte popular e por Joana Vasconcelos – que também eles reconciliassem o passado e o presente. Resultaram trabalhos originais, criativos e gratificantes para eles e para mim.

Fica aqui um breve testemunho.

...

Bibliografia

 Web site http://www.joanavasconcelos.com/home.html .

Do Micro ao Macro e vice-versa – Uma conversa entre Augustín Pérez Rubio e Joana Vasconcelos) in http://www.joanavasconcelos.com/home.html.

Calabrese, Omar (1987), A idade neobarroca, Edições 70 – Lisboa – Portugal

Gonçalves, Albertino (2009), Vertigens para uma sociologia da perversidade, Vertigens do presente-A dança do barroco na era do jazz- p 35. Grácio Editor – Coimbra – Portugal

Boublés, Carole – Artpress, junho 2010, n. 308, artigo: Joana Vasconcelos – Musée Berardo -1er mars- 18 Mai 2010

……………………………………………..

Maria Celeste da Costa Semanas – 20962

Trackbacks / Pingbacks

  1. Familiaridade estranha « Tendências do imaginário - Julho 29, 2012

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: