Annie Leibovitz: a fotografia vagueia no reino da fantasia

Na vida de Annie Leibovitz tudo parece resumir-se a fotografia, porém, não é só. Criatividade é a palavra-chave, que define todo o percurso artístico desta fotógrafa americana. Nasceu em 1949, na cidade de Waterbury, que se localiza no Estado de Connecticut, (124km a nordeste da Big Apple). Estudou pintura no San Francisco Art Institute, enquanto dedicava as suas noites à aprendizagem da técnica fotográfica.

No entanto, 1970 foi o ano que mudou, radicalmente e, arrisco-me a dizer, eternamente, a sua vida. Foi a década que deu início à sua entrada para a lendária Rolling Stone, que a acolheu durante dez anos. A sua vida mudou, como, também, ela mudou a vida da revista. Da música à moda, passando pela arte e pela cultura, os contributos desta conceituada fotógrafa têm sido imensos, preciosos e inesgotáveis. Com várias obras publicadas e muitas exposições exibidas por todo o mundo, Annie Leibovitz foi, também, diversas vezes agraciada com títulos de honra, por diversas instituições.

Muitos do seus trabalhos são popularmente e mundialmente conhecidos. A capa do álbum “Born in the U.S.A., de Bruce Springsteen, as capas dos álbuns “True Collors” e “She’s so Unusual” de Cyndi Lauper ou a mítica fotografia de John Lennon e Yoko Ono, capa da Rolling Stone, feita horas antes do brutal assassinato do músico.

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Um dos trabalhos mais simpáticos da fotógrafa chama-se “Disney Dream Portrait Series”, uma série de fotografias, destinadas à promoção dos Parks e Resorts da Walt Disney. Nesta série, que nasceu em 2007, Leibovitz convida distintas celebridades para retratarem e encarnarem personagens dos contos de fada da Disney. Beyonce Knowles, David Beckham, Jennifer Lopez, Roger Federer, Gisele Bundchen, Penélope Cruz são apenas alguns dos muitos nomes presentes neste projeto. “I’m really delighted to be part of the ‘Where Dreams Come True’ campaign”, confessou Leibovitz e acrescentou “We live in difficult times and I feel, especially as a parent, that keeping dreams alive is one of the most important things we can do.” O resultado desta encantadora campanha, até agora, foi este:

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Na minha opinião, foi um resultado deslumbrante. Mas porquê? Será por causa dos cenários? Do guarda-roupa? Da beleza e elegância dos elementos intervenientes? “Uma determinada foto acontece-me, uma outra não” (Barthes, 1980: 37). Porque nos interessamos por umas fotografias e não por outras? Porque é que elas despertam diferentes emoções em nós? Segundo Roland Barthes, a atração por determinadas fotografias acontece devido ao que ele designa por “princípio de aventura”. De acordo com a sua linha de pensamento, “não há foto sem aventura” (Barthes, 1908: 37). A fotografia, afirma Barthes, encontra-se relacionada com a animação, uma vez que ela anima o espetador. E animação é o que a aventura proporciona (Barthes, 1908).

Seguindo esta ideia, tentei selecionar uma fotografia da “Disney Dream Portrait Series”, que mais me animasse e despertasse em mim sentimentos de aventura, curiosidade, encanto e interesse. Depois, decidi analisá-la de acordo com a abordagem socio semiótica de Kress & van Leeuwen.

“As imagens são atos comunicativos que descrevem, explicam e interpretam diferentes tipos de interações” (Feixa & Porzio, 2008:110). Assim, para compreender verdadeiramente o significado de uma fotografia, não basta olhá-la distraidamente e ver, apenas, aquilo que nela se destaca. É necessário percorrer um caminho que vai muito mais além de um primeiro olhar pouco atento. Segundo Kress & van Leeuwen, toda a imagem possui três distintas dimensões: representacional, interacional e composicional. “Any image, they say, not only represents the world (…), but also plays a part in some interaction and, with or without accompanying text, constitutes a recognizable kind of text (…)” (Jewitt & Oyama, ano:140).

A foto que escolhi é de 2007 e faz alusão à história da Cinderela. A celebridade presente, tal como podemos observar, é a atriz Scarlett Johansson no papel de Cinderela. As fotografias desta série têm, habitualmente, um título inscrito. Neste caso, o título é “Where every Cinderella story comes true”.

Relativamente à dimensão representacional da fotografia, observamos um participante, do sexo feminino, que se encontra a desempenhar o papel de uma personagem dos contos de fada da Disney, mas não só. A personagem está, também, a representar-se a si própria como figura pública conhecida e reconhecida do mundo do cinema. Inevitavelmente, acaba por representar o papel de uma mulher, bela e elegante, cuja beleza e sucesso são, certamente, cobiçados por muitos. Aparentemente, vemos uma figura do sexo feminino, com idade a rondar os 25 anos (na realidade, a atriz tinha 22 anos). É possível observar que a personagem tem a pele branca, é loira e veste um sublime e esvoaçante vestido azul, tal como na história. Curiosamente, é possível vermos, apenas, um pé e é de notar que ela não usa jóias ou quaisquer outros adereços, a não ser o arco, que lhe segura os cabelos. De uma forma geral, a participante espelha uma juventude efémera, característica comum em todas as princesas da Disney. Na fotografia, podemos perceber que a participante encarna uma atitude de preocupação, confusão e inquietação e parece procurar o rumo a seguir com o seu olhar. Esta atitude vai ao encontro do conto de fadas, no qual a pobre Cinderela abandona rapidamente o palácio real ao toque da meia-noite, para evitar que o feitiço se desfaça à vista de todos os presentes na festa. O cenário é, provavelmente, recriado digitalmente. No entanto, mostra uma enorme escadaria aparentemente antiga, pintada com alguma vegetação florida. É possível observar um pavão no corrimão de pedra, no lado esquerdo da foto. No cimo da escadaria, encontra-se um palácio com vida, que direciona a sua luz para o sapato deixado pela Cinderela no meio da escadaria. É de notar, que o céu transmite a ideia de madrugada ou amanhecer. O tipo de representação presente na foto é uma estrutura conceptual simbólica, uma vez que a fotografia não contém um vetor e se destina a identificar ou definir o significado da participante. Neste caso específico, o sapatinho deixado na escadaria, o palácio real, a própria escadaria e a roupa da personagem funcionam como atributos simbólicos, que permitem identificar a figura feminina como Cinderela.

No que toca à dimensão interacional, pode-se dizer que o ato de imagem é de oferta, ou seja, o olhar da personagem não é dirigido ao espetador, o que significa que ela se encontram numa situação passiva ou de exposição. Neste caso, a personagem encontra-se a expor a sua vulnerabilidade e fragilidade, uma vez que o feitiço está quase a terminar e ela precisa de se esconder, para que não vejam o seu “eu” real e inverso. Esta fotografia constitui um plano geral e a perspetiva do elemento é de frente, o que significa para o observador a ideia de uma certa distância, como aquela que temos para com as pessoas que nos são estranhas. Portanto, observamos a personagem de forma impessoal, como não pertencente ao mesmo grupo social que o observador. Relativamente à modalidade da fotografia pode concluir-se que esta é baixa, uma vez que esta imagem não reflete o mundo real, mas um mundo imaginário e manipulado digitalmente. As cores presentes na foto são, essencialmente, duas: o azul, nomeadamente no sapatinho, no céu e no vestido e uma tonalidade acastanhada, visível no palácio e na escadaria. No entanto, verifica-se muita saturação nos últimos degraus e na vegetação que rodeia a escadaria. Portanto, o cenário é um pouco esfumado, o que nos impossibilita observar todos os pormenores presentes na fotografia. Vê-se que existe profundidade e verifica-se uma presente potencialização dos jogos de luz e sombra.

Finalmente, na dimensão composicional, verifica-se que, quanto ao valor informativo, a participante se posiciona no lado inferior direito da foto. Por outras palavras, a personagem surge como um elemento pouco central, novo, não conhecido pelo observador e  ao qual deve ser prestada uma atenção especial, uma vez que transmite informações específicas. Nesta fotografia, a Cinderela surge como um elemento inesperado para o observador, que não espera ver retratada em fotografia a protagonista de um conto de fadas. No entanto, não deve descurar a sua importância, na medida em que, ela e o seu olhar espelham e contam a própria história da fotografia. Por fim, pode visualizar-se um contraste entre a participante e o resto do cenário, quer pelo jogo de luz e sombras, quer pelos apontamentos e rimas de cor, quer pelo posicionamento de todos os elementos.

Em suma, a capacidade icónica é transversal a todo o ser humano e não permite que este consiga alhear-se à cultura visual, que o rodeia. Neste sentido, “o analfabeto do futuro (…) será aquele que não sabe ler as fotografias, e não o iletrado” (Baudelaire, cit, em Benjamin, 2006:261). Contudo, para procedermos à compreensão das imagens é necessário observá-las a partir de um ângulo social, de modo a perceber as suas verdadeiras estruturas, objetivos e intenções. Para que tal seja possível, a semiótica social é relevante, uma vez que nos ajuda a analisar as representações sociais presentes nas imagens. “(…) visual culture is simply “the history of images” handled with a semiotic notion of representation” (Bryson et al, cit. em Mirzoeff, 2003:4).

A “Disney Dream Portrait Series” vai mais além do que um simples conjunto de fotografias com pessoas bonitas, bem vestidas e conhecidas. São adoráveis obras de arte, que transbordam de energia criativa e comunicativa. E nos conduzem a uma pequena viagem ao mundo da fantasia, que está dentro de todos nós. Termino com um vídeo dos bastidores da sessão fotográfica deste ano, com a cantora Taylor Swift no papel de Rapunzel.

Referências Bibliográficas

Barthes, R. (1981) A Câmara Clara, Lisboa: Edições 70.

Benjamin, W. (2006) A Modernidade, Lisboa: ASSÍRIO & ALVIM.

Feixa, C. & Porzio, L. (2008) ‘Um percurso visual pelas tribos urbanas em Bacelona’ in Pais, J. M. et al (2008) O visual e o Quotidiano, Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, pp. 87-111.

Leeuwen, T. V. & Jewitt, C. (2001) The Handbook of Visual Analysis, Londres: Sage.

Mirzoeff, N. (2003) An Introduction to Visual Culture, Londres: Rutledge.

Fontes eletrónicas

http://www.vanityfair.com/contributors/annie-leibovitz

http://disney.wikia.com/wiki/Disney_Dream_Portrait_Series

http://freakshowbusiness.com/2009/02/21/portfolio-annie-leibovitz/

http://pictify.com/225948/annie-leibovitz-johnny-depp

http://gilcaldas.blogspot.pt/2010/08/o-imortal-keith-richards.html

http://www.ppow.com.br/portal/2013/02/28/annie-leibovitz/

http://artecomfabiofernandes.blogspot.pt/2012/05/annie-leibovitz-ela-e-os-famosos.html

http://www.ropeofsilicon.com/annie-leibovitzs-vanity-fair-celebrity-photo-spread-is-worth-a-look/

http://sarajevo-karlton.blogspot.pt/2012/03/annie-leibovitz.html

http://pleasurephotoroom.wordpress.com/category/annie-leibovitz/

http://fcpunitfour.blogspot.pt/2011/03/annie-leibovitz.html

http://www.nydailynews.com/michelle-obama-lady-style-gallery-1.1242934

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