Visões d’Arte

Fundada em maio de 2008 (inicialmente sob o nome de “Cor Espontânea”) a Baganha Galeria trata-se de uma iniciativa do empresário português Fernando Baganha que pretendia promover um projeto de exposição e comércio de obras de arte que se aproximasse o mais possível das necessidades dos colecionadores.

Fernando Baganha havia assumido em 1992 a direção da Galeria Magellan, em Paris, e é neste contexto, no âmbito da exposição “Les Illes do Cap-Vert”, que conhece Júlio Resende. Neste espaço da cidade luz realizaria, ainda, exposições de artistas que figuram na coleção da Baganha Galeria, tais como Artur Bual, Branquinho Pequeno, Ferreira Rocha, Francisco Simões, Jacinto Luís, João Cutileiro, José Rodrigues, Lili Melo, Luis Darocha, Paulo Ossião ou Rodrigo Ferreira.

Em 2009 a Baganha Galeria tem a exclusividade do Mestre Júlio Resende, um privilégio que motivou a mudança do espaço na Avenida da Boavista para a Rua do Bom Sucesso (Porto), onde se mantém até hoje. Dispõe, assim, de uma área expositiva de cerca de 600 m2 distribuídos por seis salas de exposição.

Em maio de 2013, cinco anos volvidos sobre o arranque deste projeto, propomo-nos lançar um catálogo que seja representativo do acervo da Baganha Galeria. Selecionamos obras de 78 artistas provenientes de países dos quatro continentes (Portugal, Espanha, França, E.U.A., Cuba, Equador, Chile, China, Japão, Índia, Angola e Moçambique) cujas estéticas se inserem em vários movimentos artísticos contemporâneos. Orgulhamo-nos contudo de afirmar que, no espólio da Baganha Galeria, a arte portuguesa está em destaque, sobretudo a que marca a segunda metade do século XX e o século XXI.

A abordagem curatorial do Catálogo Coleção Baganha Galeria (2008 – 2013) não pretende ser histórica, estruturalista, muito menos por movimentos. Na linha de pensamento do sociólogo polaco Zygmunt Bauman, a pós-modernidade ou modernidade líquida (1), na sua expressão, veio por em causa as distinções absolutas e estanques no que às práticas culturais e artísticas diz respeito. No momento que atravessamos, as referências são movediças e as identificações e pertenças efémeras. Neste sentido, restringir a obra de um autor a um só “ismo” é castrá-la de possibilidades, de (re)leituras e de entendimentos.

A atividade artística é uma constante da história da humanidade, permanente em todas as épocas e sociedades e, apesar de não ser uma necessidade biológica, é necessária, espontânea, traduzindo-se numa “emergência espiritual da produção do ser humano no mundo”(2). A produção artística é o trabalho com matérias e materiais, através de técnicas e instrumentos, com o intuito de (des)construir formas, figuras, espaços, cores. É um trabalho que fascina, independentemente de conhecermos, ou não, o contexto de criação. E ainda que cada obra tenha vertida a visão, pessoal ou da realidade social, do seu autor, adquire vida própria e novos sentidos no olhar de cada observador.

A obra de arte é, em certa medida, uma libertação da personalidade; normalmente os nossos sentimentos es­tão sujeitos a toda a espécie de inibições e repressões; contemplamos uma obra de arte e dá-se imediatamente uma libertação (…) mas também uma intensificação, uma sublimação. (…) Arte é libertação, mas ao mesmo tempo um estimulante de emoções. Arte é economia de sentimentos; é emoção que cultiva a boa forma.”(3)

O presente catálogo tem, então, uma organização temática a partir de visões d’arte que têm como ponto de partida a recriação estética: pela desmontagem dos aspetos denotativos das obras (dizível) e pela reflexão sobre os seus aspetos conotativos (in­dizível), recorrendo à definição de Umberto Eco (4). Todavia, deve o observador descobrir outros sentidos explícitos das obras, especulando e criando novas interpretações.

O primeiro capítulo é dedicado a Júlio Resende, artista exclusivo da Baganha Galeria desde 2009. Optamos por uma seleção de obras de vários períodos e técnicas, com predomínio para os óleos sobre tela da fase final. A pintura de Júlio Resende revela que assimilou o cubismo, caracterizando-se pela plasticidade e dinâmica, de malhas triangulares ou quadrangulares, que se aproximam de forma progressiva da não figuração. Do geometrismo ao não figurativismo, do gestualismo ao neofigurativo, a sua arte desenvolve-se numa encruzilhada de pesquisas, cuja tónica será sempre expressionista e lírica. Pintor de transição entre o figurativo e o abstrato trouxe à Escola do Porto um novo espírito, que marcou os alunos que a frequentaram a partir da década 1960. O Porto, as suas gentes e quotidianos ficarão, para sempre, imortalizados nas suas obras.

Seguimos com Francisco Laranjo, artista exclusivo da Baganha Galeria desde abril de 2013. A viagem começa com uma das últi­mas obras que realizou enquanto discente da Escola Superior de Belas-Artes do Porto até trabalhos mais recentes. Negando-se a abstração, a intelectualidade da pesquisa artística que Francisco Laranjo propõe é um infinito de cor que poderia mesmo ter inspirado um poema de Rimbaud.

E desde logo fui banhado dentro deste Poema

De Mar infuso em estrelas, e tão latescente,

Devorador de imensa lazulita verde; onde, suprema

Flutua uma afogada forma, às vezes descendente.

Onde, a tingir azuis de súbito, delírios

E ritmos lentos à rutilação de alvores,

Mais fortes do que o álcool, do que as nossas liras,

Fermenta o ruivo amargo de todos os amores!(5)

O gesto é uma das primeiras expressões que a Natureza deu ao Homem, é a sua primeira função, vem com o seu código genéti­co e está carregada de cultura. O corpo fala sobre o Homem animal e sobre o ser social. Através do gesto o corpo socializa-se e, ao mesmo tempo, individualiza-se. Pelo gesto o Homem marca a sua identidade. O gesto e a linguagem são cadeias simbólicas com raízes na mesma cultura. Comunicar, através da linguagem corporal, diz-nos muito sobre o ser humano porque o corpo é um eixo de perceção existencial, sendo o agente do sujeito na perceção do mundo que o envolve.

A relação da linguagem com o repertório gestual, com a expressão corporal e as suas ambiguidades é a essência das obras que integramos no capítulo o corpo, o gesto e o movimento. Em todas elas há uma ideia de corpo como um templo de recordações eternas e ações memoráveis. Para alguns destes artistas, o corpo aparece-nos como um lugar misterioso e respeitável; noutros casos, há apenas o gesto, o movimento da mão que cria o(s) corpo(s).

Com grandes nomes do surrealismo, tais como Salvador Dali, Alexander Calder, Joan Miró, Charles Lapicque, Nadir Afonso, Vespeira ou José de Guimarães, colocamos em diálogo obras de artistas amplamente representados na coleção da Baganha Galeria. Luis Darocha, Orlando Pompeu, Paulo Neves, entre outros, são olhados do surreal, numa perspetiva de questionamento às suas obras, onde se exclui a classificação fechada, mas se propõe uma análise das suas linguagens e influências artísticas.

Pulsão, do ponto de vista analítico, deve ser entendido como um “processo dinâmico consistindo numa carga energética que faz tender o organismo, através de um trabalho, para um fim, a descarga”. Pelos caminhos da abstração, da (des)construção ge­ométrica (que teve em Ângelo de Sousa o seu maior investigador), em pulsões em cor compilamos registos de artistas de várias gerações, com empatias e simpatias, ruturas e harmonias próprias. Um destaque para o japonês Tadao Nakabayashi pelo bom número de obras suas que integram o acervo da Baganha Galeria.

O sexto capítulo, natureza(s) começa com a paisagem alentejana de Dórdio Gomes, percorrendo cenários naturais com e sem marcada presença do Homem. São paisagens naturais, urbanas, elementos do edificado, naturezas mortas (na pintura e fotogra­fia) e formas de influência naturalista (na escultura).

Concluímos com um conjunto de obras entre vanguardas onde se acentuam propostas que, tanto em contexto nacional como internacional, procuraram renovar os processos criativos e os seus pressupostos estéticos. A “máquina” e a pop são denomina­dores comuns, bem como a linguagem agressiva e de rutura.

“Todos aqueles que participaram na criação de obras de arte e, de um modo geral a sociedade no seu conjunto, estão convencidos de que a arte exige talentos, dons ou aptidões que poucas pessoas possuem. Algumas pes­soas são mais dotadas do que outras e são raras as que merecem o título honorífico de «artista».”(6)

Estes são os artistas representados na coleção da Baganha Galeria. Contudo, não deve o leitor coibir-se de discordar da proposta de organização das obras. Pelo contrário, a Baganha Galeria é um espaço de divulgação e reflexão sobre as práticas culturais e artísticas contemporâneas e este catálogo é, acima de tudo, um convite à visita e um desafio ao debate.

Porto, maio de 2013

Helena AM Pereira

(diretora artística da Baganha Galeria)

BIBLIOGRAFIA

(1) BAUMAN, Zygmunt – Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 2012.

(2) KANDINSKY, Wassily – O Futuro da Pintura. Lisboa: Edições 70, 1999. Página 96.

(3) READ, Herbert – O Significado da Arte. Lisboa: Editora Ulisseia, 1968. Página 26.

(4) ECO, Umberto – A Definição da Arte. Lisboa: Edições 70, 2006.

(5) RIMBAUD, Jean-Arthur – O Barco Bêbado. Lisboa: Hena Editora, 1985. Páginas 9 e 11.5 

(6) BECKER, Howard S. – Mundos da Arte. Lisboa: Livros Horizonte, 2008. Página 38.

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