AGOSTINHO SANTOS – SONHOS DA REALIDADE por César Nóbrega

Agostinho Santos e a sua obra

Agostinho Santos e a sua obra

“Quando começo um desenho ou uma pintura, não sei onde acaba um e começa o outro. As fronteiras acabam por desaparecer ( …) o que interessa é que seja a expressão do meu pensamento (…) o grande fascínio da arte é proporcionar a liberdade ao artista. Não pinto com preconceitos (…) o que me interessa é a ideia, ser capaz de interpretar a ideia que tenho (…) nunca quis abdicar da liberdade, não vai ser agora.”

Agostinho Santos, in “Territórios da Inquietação ou a Liberdade do Gesto”, filme-documentário de David Marreiros, Hugo Flores, Pedro Reis e Raquel Koch, parceria FBAUP/Fantasporto

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Mulheres com olhares enigmáticos e cinco mamas, diabos azuis a beijar a seta que trespassou Jesus, gatos que parecem homens e homens que parecem gatos, figuras feias, tristes e máscaras de Carnaval, tinta a escorrer como se de sangue se tratasse. Pode parecer cliché, mas não é, a obra de Agostinho Santos não deixa ninguém indiferente. Ou se gosta… ou se não quer ver, porque mostra um sonho distorcido que retrata a realidade. É dificil saber o que vai na cabeça do artista quando nos pinta cheios de cores (ou a preto e branco) e de defeitos. Mas quem dera que fossemos assim tão disformes!

Sem grandes dificuldades, o escritor Nobel da Literatura, José Saramago, define a arte de Agostinho Santos, no prólogo do livro “José Saramago segundo Agostinho Santos”: “Há algo de frondoso e vegetal na arte de Agostinho Santos, algo também de primitivo e fetal, formas que se vão preparando para nascer ou que no nascimento parecem haver renunciado, um mundo em suspensão, à beira de uma definição, como aguardando a palavra ordenadora, sem cessar anunciada, e constantemente adiada”.

Livro "José Saramago segundo Agostinho Santos"

Livro “José Saramago segundo Agostinho Santos”

O, também, jornalista profissional do Jornal de Notícias não faz arte de ânimo leve. Para ele, “a arte não tem que ser só decorativa”. O artista nascido em Gaia, em 1960, confessa que o “que tenta fazer é, sobretudo, uma mensagem”.

mulher com 5 maminhas

No filme-documentário “Territórios da Inquietação ou a Liberdade do Gesto” , Agostinho Santos diz que “é fundamental existir uma força interior (…) o meu trabalho vive da inquietação (…) vive da desigualdade, da violência que existe e que toda gente vê nas televisões. A  guerra, a fome,  injustiças sociais”. A missão do artista parece definida, até porque ele “não pode ficar indiferente a isto tudo, tem que denunciar, alertar, interrrogar inquietar as pessoas”. Agostinho Santos quer que as pessoas vejam um trabalho seu “e que se incomodem,  não que fiquem horrorizadas, mas que as ajude a despertar para as causas (…) a arte não pode ser cúmplice com a situação em que vivemos, tem que ser alertante, viva, agitada (…) Chego ao meu atelier e tento reproduzir o que me vai na alma, e que no fundo é um espelho da sociedade em que vivemos.”

Agostinho Santos demarca-se de correntes artísticas porque diz interessar-lhe fundamentalmente a criatividade, contudo, em entrevista realizada por email diz que o seu estilo “se enquadra no Expressionismo, coloca-se entre o Expressionismo figurativo e o Expressionismo abstracto”. Não é dificil perceber porquê! O professor britânico especialista em arte, Guy Hubbard, explica: “uma série de movimentos artísticos, que começaram no início do século XX. Apareceram porque os artistas rejeitaram as ideias fixas da arte clássica (herança da Grécia e Roma), que já não pareciam encaixar no tipo de mundo que se vivia. As raízes do Expressionismo pertencem à outra grande tradição artística, o Romantismo, com sua ênfase nas emoções fortes. Os artistas expressionistas não tentavam reproduzir o que eles podiam ver, mas sim fazer os seus sentimentos visíveis.”  Este é o principal objectivo de Agostinho Santos e da sua arte: “que o meu pensamento seja simultanamente transmitido no segundo imediato ao pensamento  (…) retratado no suporte, numa tela, numa janela (…) que conseguisse de facto transmitir o que me aborrece, o que me faz pensar. Eu quero pensar e desenhar. É importante dar-mos a conhecer aos outros o que estamos a pensar, mas estou convencido que ainda não é para já, porque há sempre segundos de diferença,  contudo vou continuar a trabalhar“.

Para o crítico de arte Paul Fletcher, o Expressionismo trata da “experiência emocional na sua formulação mais intensa e concentrada” . O espírito do movimento nasce de duas personalidades – o holandês Vincent Van Gogh e o norueguês Edvard Munch. Na altura, as belezas naturais de paisagens dominavam o espírito dos pintores – eram os Impressionistas. Van Gogh e Munch cortaram radicalmente as ligações e olharam a realidade por uma outra perspectiva. Escolheram olhar a alma e deram uma visão pessoal ao mundo. Pinturas como “Os Girassóis” (1888) de Vincent Van Gogh ajudam-nos a ver a cor de outra maneira. Como o próprio pintor explica em carta para o irmão Theo: “em vez de tentar reproduzir exactamente o que vêm os meus olhos, uso a cor de uma forma arbitrária para me exprimir”.

VINCENT VAN GOGH (1853-1890) “Os Girassóis”, 1888

VINCENT VAN GOGH (1853-1890)
“Os Girassóis”, 1888

E, depois, há “O Grito” de Edvard Munch (1893). Formas distorcidas e cores exageradas amplificam o sentimento de ansiedade e alienação. A 22 de janeiro de 1892 Munch explicou em Nice o que pintaria: “Caminhava na rua com dois amigos. O pôr do sol. Senti uma pontinha de melancolia. De repente, o céu ficou vermelho sangue. Parei, debrucei-me sobre o parapeito, morto de cansaço. Olhei para as nuvens flamejantes que pendiam como sangue e uma espada sobre o fiorde preto azulado e a cidade. Os meus amigos seguiram em frente. Eu fiquei lá, a tremer de medo: Senti um enorme, interminável grito lancinante da natureza”.

EDVARD MUNCH (1863-1944) “O Grito”, 1893

EDVARD MUNCH (1863-1944)
“O Grito”, 1893

O movimento veio a nascer na Alemanha e espalhou-se da pintura para todos os outros campos artísticos. Da arquitectura, à literatura, passando pela música, cinema, teatro, dança e fotografia.

Carl Zigrosser, contemporâneo do movimento e curador do Museu de Filadélfia durante vários anos, acrescenta que a nota principal do Expressionismo “é a exploração da vida interior do homem. É claro que esta exploração foi um fenómeno do século XX, que seguiu em muitas direcções, nomeadamente a descoberta da psicanálise e do subsconciente”.

Existiram dois grupos distintos de artistas. O “Die Brucke” (“A Ponte”) e “Der Blaue Reiter” (“O Cavaleiro Azul”). “A Ponte” foi formado em 1905 pelos arquitectos alemães Ernst Luwig Kirchner, Erich Heckel, Karl Schimidt-Rottliff e Fritz Bleyl.  Não tinham teorias, nem intenções estilísticas, queriam apenas inovar de forma irreverente. Em 1912 surgiu “O Cavaleiro Azul” por Wassily Kandinsky e Franz Marc. Este era mais um encontro de artistas que um grupo, que se sentia atraído pelos aspectos misticos do estilo, particularmente na sua relação com o sobrenatural.

WASSILY KANDINSKY (1866-1944) “Composition IV”, 1911

WASSILY KANDINSKY (1866-1944)
“Composition IV”, 1911

Wassily Kandinsky aproxima-se do Expressionismo abstracto. A sua pintura afasta-se das formas realistas e aproxima-se da abstracção. A obra de Agostinho Santos movimenta-se entre estes mundos mas há outras inspirações: “as minhas referências de pintura são o Picasso, o Basquiat, entre outros, sem ter a obsessão de ser como eles vou beber a grande nomes da história da arte, tento evoluir, que o meu caminho não fique estagnado, tento construir novas linguagens”.

A inspiração não é, contudo, um caminho linear para o pintor: “não sou daqueles que acredita muito na inspiração, acredito sim, na disciplina. No meu caso particular, julgo que não se pode chamar inspiração, mas sim preocupação e envolvimento. O  trabalho que venho desenvolvendo em matéria de artes plásticas relaciona-se com o quotidiano, com o mundo real, que às vezes, infelizmente se assemelha muito com um mundo irreal. Ao longo de quase trinta anos de actividade tenho centrado o meu trabalho especificamente em três grandes temas: a mulher, a literatura e a intervenção social. Todos estes temas têm sido interpretados através da pintura, do desenho, da escultura e da instalação (…) O meu acto de pintar, o meu acto de criar envolve necessariamente uma grande liberdade do gesto e grande espontaneidade. Procuro interpretar, registando uma nova forma de captar as ‘coisas’”.

As mulheres são, de facto, um tema importante na obra de Agostinho Santos “e que já ocupou (e continua a ocupar) muitas das minhas exposições individuais ou colectivas. Mas, em boa verdade, a mulher em si, desperta-me artisticamente, sobretudo, a sua beleza interior e este é, alias, um desafio que enfrento constantemente, que é captar a interioridade, a intimidade do modelo, neste caso, da mulher.”

agostinho santos___mulher

A literatura é, igualmente, de referir. “Escritores como o José Saramago e Fernando Pessoa foram sempre homens que me obrigaram a reflectir (…) os textos do Saramago têm o dom de me dar asas e abrir outros caminhos (…) o que eu tento fazer é uma interpretação das obras”. O escritor, José Saramago, disse de Agostinho Santos e, entre outras coisas, já referidas: “Em geral, pinta-se com cores e com linhas (…) Há, porém, pintores que desenham com os pincéis. Presumo que já não estão interessados em distinguir entre a arte do desenho e a arte da pintura. Confiam na firmeza do pulso e na vontade que move a pincelada (…) São gladiadores, os seus pincéis, são lança e espada (…) Agostinho Santos será talvez o artista que melhor encarna esta relação pouco comum com a operação de pintar.” O pintor confirma que tem muitas armas no seu atelier: “pinceis, lápis, barro, tintas, telas, papéis, arames, tudo. Considero que um criador, um artista tem o dever e a obrigação de não fechar os olhos ao que o rodeia, sobretudo das injustiças, das desigualdades, da fome, da guerra e de todos esses dramas que afectam a nossa sociedade. O artista não pode nem deve alherar-se da sua função denunciante, de pelo menos, poder alertar e denunciar o que está mal. Nesse sentido o pincel, como outro tipo de utensílios artísticos, poderão ser considerados como um arma, uma espingarda, uma metralhadora ou, simplesmente, uma pomba, uma flor (…) A arte como intervençao social é, ou pode ser, um meio de atingir alguns fins, nomedamente de alertar e denunciar o que está mal. E nesse sentido a arte é um dispositivo que pretende pôr fim a esses dramas que afectam o nosso Mundo”. A consciência social é notória em todos os trabalhos de Agostinho Santos. Talvez por ser jornalista está mais alerta para o que se passa à sua volta. Talvez porque seja apenas atento. Tudo o que faz reflecte o que tem dentro de si, sobretudo, uma dor pelas injustiças sociais que presencia todos os dias.

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Agostinho Santos tem numerosos prémios, tanto na área das artes – Concurso Europeu de Cartoon de Lisboa (2007), Exposição Nacional de Arte Erótica de Gondomar (2003), I Bienal da Máscara de Bragança (2004), Bienal de Cerveira (2001), entre outros – como do jornalismo, nomeadamente o Prémio Nacional de Reportagem do Clube de Jornalistas (1990).

agostinho santos feras

Ao longo de 30 anos de trabalho teve obras em inúmeros locais, em museus (Museu de Serralves, Casa-Museu Teixeira Lopes , Museu de Imprensa, Futebol Clube do Porto, sao alguns deles), galerias, instituições, autarquias e muitas colecções particulares. E também, claro está, no seu atelier. “É, alias, no meu atelier que estão alguns dos meus mais significativos trabalhos, confesso que tenho alguma dificuldade em separar-me de alguns deles e por isso, integram a minha colecção particular.”

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Até  ao momento, Agostinho Santos realizou cerca de 70 mostras individuais, incluindo desenho, pintura, escultura, instalação, livros de artista e ilustração. Expôs em inúmeras cidades portuguesas e também em Espanha, Brasil e Índia. Participou em centenas de mostras coletivas em Portugal e vários paises do mundo.

Agostinho Santos

Agostinho Santos

Agostinho Santos tem o Mestrado em Pintura pela Faculdade de Belas Artes do Porto. A tese chama-se: “Palavra/Imagem, desenvolvimentos pictóricos a partir das palavras de José Saramago”.  Entretanto, está a concluir o Doutoramento em Museologia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. A tese chama-se “Paleta Contemporânea“.

Se precisarem de mais Agostinho Santos peçam-lhe amizade no Facebook, porque, acima de tudo, ele é amigo da arte… e amigo de meu amigo… meu amigo é!

https://www.facebook.com/agostinho.santos.735

Bibliografia

Hubbard, Guy, artigo da revista  Arts & Activities, Vol. 130, No. 3

Yarborough, Y., Public Confrontation and Shifting Allegiances: Edvard Munch and the Art of Exhibition. In: McShine K (ed). Edvard Munch: The Modern Life of the Soul. New York: Museum of Modern Art, 2006: 65.

Zigrosser, Carl, “The Expressionists: A Survey of Their Graphic Art”

Outras fontes

Entrevista realizada por email a Agostinho Santos no dia 18 de Junho de 2013

Filme “Agostinho Santos – Territórios da Inquietação ou a Liberdade do Gesto”, filme-documentário sobre a obra do artista Agostinho Santos, um filme de David Marreiros, Hugo Flores, Pedro Reis e Raquel Koch, parceria FBAUP/Fantasporto

http://www.artyfactory.com/art_appreciation/art_movements/expressionism.htm

Trabalho sobre Agostinho Santos para “Sociologia e Semiótica da Cultura”, da autoria de Belarmino César Nóbrega Amaral Pereira (pg23478) Universidade do Minho, mestrado em “Comunicação, Arte e Cultura”

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One response to “AGOSTINHO SANTOS – SONHOS DA REALIDADE por César Nóbrega”

  1. aninhaaas says :

    Gosto muito do trabalho deste autor César, tem muitos gatinhos😛

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