KUBRICK: os gostos não se discutem

Stanley Kubrick

Stanley Kubrick

Though this be madness, yet there is method in’t.

Hamlet – Shakespeare

Há quem recorra à expressão de inspiração Shakespeariana “there’s a method in the madness” para o defender, e há quem prefira dar a volta à questão, afirmando que o seu método era absolutamente insano. Qualquer que seja o adjectivo escolhido para o caracterizar, e qualquer que seja o sentido em que este é usado, o nome Stanley Kubrick é um dos mais pronunciados no mundo da 7ª arte.

Desprezado e adorado pelas críticas, honrado com prémios e nomeações, banido em vários países… como conseguem estas várias dicotomias subsistir no mesmo sistema sem que se dê o colapso deste? Falemos de gostos.

Falar de gostos não é tarefa fácil.

Aliás, é por esta razão que a famosa expressão gostos não se discutem ocupa um lugar tão elevado no pódio do nosso dicionário popular, sendo muito comummente usada. Quando relacionada com a arte, esta questão ganha um pouco mais de complexidade.

Gordon Graham traz este problema à mesa de discussão na sua obra “Filosofia das Artes” (1997), principalmente no espaço que dedica ao estudo da relação entre o conceito de arte e o de prazer. É neste mesmo espaço que o autor faz referência a David Hume e aos seus padrões de gosto.

Mona Lisa || 2001: Odisseia no Espaço

Mona Lisa || 2001: Odisseia no Espaço

PLAYBOY: Without laying out a philosophical road map for the viewer, can you tell us your own interpretation of the meaning of the film?

KUBRICK: No, for the reasons I’ve already given. How much would we appreciate LA GIOCONDA today if Leonardo had written at the bottom of the canvas: “This lady is smiling slightly because she has rotten teeth” — or “because she’s hiding a secret from her lover.” It would shut off the viewer’s appreciation and shackle him to a “reality” other than his own. I don’t want that to happen to 2001.

Stanley Kubrick in Plumbing Stanley Kubrick for Playboy – © 2000, Ian Watson

Como Hume (cit in Graham, 1997) explica, as opiniões que desenvolvemos acerca de um dado objecto não lhe são intrínsecas, já que tudo depende do modo como nos expomos à obra e o que expomos, ou seja, quem realmente somos, resultado de mil e uma experiências por que passámos e que nos tornaram únicos. Não fosse já a questão suficientemente complexa, Hume introduz ainda os seus padrões de gosto, podendo estes à primeira vista parecer um pouco contraditórios. Como podemos nós falar de padrões de gosto quando acabámos de afirmar que cada um de nós vê no mesmo objecto coisas diferentes, derivando daí o nosso apreço ou indiferença em relação ao objecto?

Segundo Hume, a existência de tais padrões pode ser justificada recorrendo ao conceito de partilha. O nosso desenvolvimento intelectual dá-se num determinado meio, sendo que, partindo do princípio que o processo de socialização não se pode dar se não existirem outros seres humanos — esqueçamos por momentos o caso das crianças selvagens —, parte dos nossos alicerces vão ser comuns ao nosso grupo, à nossa sociedade. Estamos então predispostos a reagir de um determinado modo a certos acontecimentos e modos de expressão, sendo que estas predisposições podem ser reforçadas ou não, consoante as situações com que somos confrontados no futuro.

Será que o conceito de padrões de gosto ajuda a melhor entender a polémica que se desenvolveu em torno de Stanley Kubrick?

Como os jovens que escolhem fugir pela janela quando proibidos de sair à noite, será Kubrick essa janela de escape para aqueles que não se sentem confortáveis dentro de um determinado meio? Será que a apaixonada discussão entre aqueles que o adoram e aqueles que o odeiam se pode resumir à luta pela diferença?

Poderá então tudo ser resumido a uma questão de valores sociais? Ou, pelo contrário, pesando prémios e criticas, será em Kubrick uma questão de status social?

Lolita || The Shining

Lolita || The Shining

I’ve never achieved spectacular success with a film. My reputation has grown slowly. I suppose you could say that I’m a successful filmmaker-in that a number of people speak well of me. But none of my films have received unanimously positive reviews, and none have done blockbuster business.

Stanley Kubrick

O valor económico de uma jóia depende de vários factores: nome de quem a assina, seu percurso artístico, estilo em voga, crítica corrente ao autor, e interesse manifestado pela dita, entre outros. O referido valor económico encontra-se por sua vez intimamente ligado ao factor social, pois quanto maior o valor atribuído à jóia, maior o status social do seu proprietário.

Alexandre Melo discute este assunto na sua obra intitulada “O que é a Arte?” (1994) no espaço que dedica ao estudo da pertinência da abordagem sociológica dos fenómenos artísticos. O autor identifica três dimensões no sistema de funcionamento da arte contemporânea: a dimensão económica, a dimensão simbólica e a dimensão política, sendo que estas se encontram intimamente ligadas, funcionando em conjunto para o equilíbrio do sistema.

            Uma das questões que se pode colocar no que concerne à dimensão económica, que por sua vez pode subdividir-se em outras três dimensões (a produção, o consumo e a distribuição), é a seguinte: sendo o binómio mercado sustentado por duas equações, oferta e procura, o que leva um actor social à procura de uma obra de arte?

It should be understood that the power which Stanley Kubrick has acquired within the film industry (he not only has the right to the final cut — that goes without saying; but he also, in the case of Barry Lyndon and The Shining, received millions of dollars from Warners, the distributors, without being obliged to screen either film to the studio heads more than ten days in advance of their release date) he means to exploit solely in furtherance of his work.

Ciment, 1982

Gosto é a resposta, se bem que parcial. Acresce o valor simbólico e a resposta está completa — o quero porque gosto e o quero porque muita gente quer e eu posso ter.

Sendo o cinema de Kubrick considerado de elite, de culto, quantas serão as pessoas que dizem que dele gostam porque é moda dele gostar?

Não podemos esquecer que a arte, tendo uma forte vertente social, é tanto um factor distintivo, como um factor integrante. A necessidade de integração é imanente ao humano. Será descabido falar no oscilar de audiências em prol da integração social?

O que há em Kubrick capaz de promover o oscilar de audiências?

Eyes Wide Shut || Laranja Mecânica

Eyes Wide Shut || Laranja Mecânica

I don’t think that writers or painters or film makers function because they have something they particularly want to say. They have something that they feel. And they like the art form: they like words, or the smell of paint, or celluloid and photographic images and working with actors. I don’t think that any genuine artist has ever been orientated by some didactic point of view, even if he thought he was.

Stanley Kubrick

A arte não cai do céu. A realidade é outra. De facto, arte envolve trabalho, arte é trabalhosa.

Stanley Kubrick é um bom exemplo da arte trabalhosa. Stanley Kubrick’s Boxes de Jon Ronson prova-o. Sendo um grande admirador do trabalho de Kubrick, foi-lhe permitido aceder aos arquivos do realizador que consistiam em cerca de mil caixas recheadas de documentos sobre todos os filmes em que este trabalhou, e mesmo aqueles que acabou por não trazer para o grande ecrã. Conhecido pela sua paixão pelo detalhe e pela fotografia, não é de estranhar que destes arquivos façam parte milhões de fotografias de portões para uma cena de breves segundos, no seu último filme, Eyes Wide Shut.

Esta sua preocupação com a perfeição em cada frame, essencial à 7ª arte, é um dos tópicos acerca dos quais se discute: método ou obsessão?

Factores que contribuem para o polémico em Kubrick são a temática dos seus filmes e o modo como esta é abordada. Muitos são aqueles que usam estes factores como base para o acusar de insanidade mental, afirmando que ninguém no seu estado dito normal abordaria as questões daquela maneira. O que as pessoas muitas vezes esquecem é que uma obra de arte não é um simples reflexo de uma memória ou de um estilo de vida, uma obra de arte pressupõe a criação de algo novo, pressupõe o uso da imaginação.

Um outro factor gerador de polémica em Kubrick reside na postura obscura de muitas sociedades que, fechando os olhos, ignoram temas considerados tabus. Kubrick faz luz sobre tabus, atitude considerada provocadora, geradora de reacções sob a forma de comentários agressivos, depreciativos, em suma, pouco positivos.

Rolling Stone: Initial reviews of most of your films are sometimes inexplicably hostile. Then there’s a reevaluation. Critics seem to like you better in retrospect.

Stanley Kubrick: That’s true. The first reviews of 2001 were insulting, let alone bad. An important Los Angeles critic faulted Paths of Glory because the actors didn’t speak with French accents. When Dr. Strangelove came out, a New York paper ran a review under the head MOSCOW COULD NOT BUY MORE HARM TO AMERICA. Something like that. But critical opinion on my films has always been salvaged by what I would call subsequent critical opinion. Which is why I think audiences are more reliable than critics, at least initially. Audiences tend not to bring all that critical baggage with them to each film.

Stanley Kubrick for Rolling Stone, 1987

Como podemos atestar pela troca de palavras acima relatada, às vezes dar uma segunda oportunidade é tudo o necessário para se verem as coisas de um modo mais claro.

Stanley Kubrick

Stanley Kubrick

It [2001] isn’t a “good” movie, it’s an extraordinary movie. If ordinary dramatic standards cannot encompass its novelty, then this is one of the occasions in which ordinary dramatic standards have to be stretched. The flaws of 2001 are to be regretted and probably disregarded, for it is a movie not quite like any other and gives you what very few of even the greatest films have ever given: a major sensory experience; a triumph of the aesthetic, if not of the dramatic, imagination; a film which makes you feel as you watch it that you are about to learn something that you did not know before, that you are about to participate in some kind of unprecedented discovery.

Alan Spiegel (1977)

O ser humano é um ser complexo, e a arte, como produto da sua actividade, também o é. Não há respostas certas, há mil e uma questões e o mesmo número de teorias apresentadas como possíveis soluções para a imensidão de dúvidas que nos atormentam dia após dia. Por mais que tentemos explicar o porquê da polémica em torno de Kubrick, o mistério que é a mente humana continua a ser um entrave ao conhecimento omnisciente.

Durante a sua vida, foi adorado por uns e odiado por outros.

Mais de 10 anos após a sua morte, a pintura continua a ser feita no mesmo enquadramento.

Mergulhar no mundo de Kubrick é uma experiência.

Teresa Barreto || PG 21723

Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura

Bibliografia:

Ciment, M. (1982), Kubrick, New York : Holt, Rinehart, and Winston.

Cocks, G. (2004), The Wolf at the Door: Stanley Kubrick, History, and the Holocaust, New York: Peter Lang.

Coyle, W. (1980), Stanley Kubrick, a Guide to References and Resources, Boston: G. K. Hall.

Deleuze, G. (1985), Cinema 2: The Time-Image, Althone Press.

Graham, G. (1997), Filosofia das Artes. Introdução à Estética, Lisboa: Ed. 70.

Huisman, D. (1997), A Estética, Lisboa: Ed. 70

Melo, A. (1994), O que é Arte?, Lisboa: Difusão Cultural.

Spiegel, A. (1977), The Kubrick Case, NY: Skidmore College.

Venturi, L. (1998), História da Crítica da Arte, Lisboa: Ed. 70.

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