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Mário Rocha não é apenas um artista. É um mestre da arte. É um humanista. Pintor, ceramista talentoso, escultor,…

Mário Rocha

Mário Rocha

Mário nasceu em Perre (Viana do castelo) em 1954. Dedica-se à pintura desde 1968 e inaugurou a sua primeira exposição aos 17 anos de idade. Além de já ter percorrido o nosso país de Norte a Sul, também expôs na Alemanha, Luxemburgo, Espanha, França e Bélgica.

Exposição colectiva Plural Out Project -  Mário Rocha - Cerâmica - Fórum Cultural de Cerveira

“Lutemos contra a fome” – Cerâmica – Exposição promovida pela Fundação Bienal de Cerveira, 2013

Pormenor

Pormenor de “Lutemos contra a Fome”, 2013

Em Arga de Baixo, no concelho de Caminha, todos os anos, nos meses de Julho e Agosto, a aldeia, mais concretamente a Casa do Marco, transforma-se numa galeria de arte contemporânea com características inéditas, que a tornam única. Artes como a pintura, escultura, cerâmica, desenho, design, joalharia, tecelagem e fotografia marcam presença, que fazem deste projecto, que já conta com 14 edições (aproximando-se já a 15ª!), uma referência nacional que ultrapassa fronteiras. Num ambiente rural, conjugado com a criatividade dos artistas, a arte sobe à Serra, deixando o cheiro das típicas galerias de arte na cidade. São cerca de 100 obras de arte, de artistas nacionais e internacionais.

À conversa, Mário Rocha falou-nos sobre este seu projecto – “Arte na Leira”:

 

Aqui fica ainda uma entrevista de Mário ao Porto Canal, aquando da edição de 2011:

 

Na exposição de pintura “Vidas Negras”, realizada na Oficina Cultural do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, entre Abril e Maio de 2011, um tema inspirou as telas expostas – os Sem-abrigo. Questionado por mim sobre o que o levou a idealizar essa exposição, Mário respondeu:

“Na altura, na política, falava-se muito e acertava-se pouco. Cada vez havia mais sem-abrigo e nessa altura vi coisas que me chocaram. Então, pensei que estava na hora de fazer uma reflexão sobre o assunto. Sem-abrigo há em todo o lado, e também o pobre com muitas dificuldades, a pobreza envergonhada, … há muito por aí, pessoas que até têm tecto, mas não têm mais nada. Acho que pelo menos, as pessoas que visitaram a exposição ficaram a pensar e esse também é o meu objectivo.”

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Telas da série “Vidas Negras”, 2011

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A este respeito, deixo-vos um vídeo de uma outra arte, a música, que Pedro Abrunhosa compôs sobre a mesma temática – “Quem me leva os meus fantasmas”.

 

Pesquisando sobre a sua obra e o que escrevem sobre Mário Rocha, constatei que as pessoas falam do Mário com um enorme carinho e admiração, tanto pelo artista, como pelo homem e cidadão. Uma vez finalizada e divulgada, a obra deixa de pertencer inteiramente ao artista que a criou para passar a fazer parte da realidade social, sendo neste contexto que irá ter repercussões, onde irá ser interpretada e gerar sentimentos e ideias, de modo imediato e directo ou apenas de forma subliminar e subtil. O autor Arnold Hauser (1) vai mais longe e chega mesmo a afirmar que “assim como o homem se torna homem, porque preenche os requisitos sociais, também o artista se torna artista, quando estabelece contactos interpessoais”.

Assim, não podia deixar de perguntar-lhe se o artista e a arte estão intimamente ligados à sociedade. Ao que Mário me respondeu:

“Estão sempre ligados, a sociedade evolui, o artista tem que acompanhar essa evolução, pelo que nos traz de novo e que até faz parte do nosso trabalho, pois a evolução da sociedade traz outras linguagens e outras formas de trabalhar. Há sempre uma ligação. Há um artista ou outro que se deixam ultrapassar pela evolução da sociedade, mas tem que se ser parceiro.”

Ainda neste domínio, Álvaro Cunhal afirmou, no seu livro “A arte, o artista e a sociedade” (2), que “um apelo à arte que intervém na vida social é intrinsecamente um apelo à liberdade, à imaginação, à fantasia, à descoberta e ao sonho”, afirmação que Mário concorda plenamente, dizendo que “a arte é sempre um rasgo de liberdade, Cunhal até preso conseguiu compor”. Adorno (3) afirma que “as lutas sociais, as relações de classe imprimem-se na estrutura das obras de arte”. O autor (3) reforça a ideia, na sua teoria estética, de que o sujeito artístico “em si é social, não é privado.”

Falemos de um outro projecto. “A vida de um vinho” é um projecto social. Uma parceria da Casa Ermelinda Freitas com o artista Mário Rocha e com o maestro Jorge Salgueiro. Foram engarrafadas 1500 garrafas Magnum numeradas, com um custo de 100€, acompanhadas com um CD do já referido maestro ou 175 € quando adquiridas com o CD e uma serigrafia especial de Mário Rocha. A totalidade da receita reverte para a Cáritas e para a União Social Crescente da Marateca, que é utilizada em projectos de apoio a idosos e a crianças carenciadas. Mais uma vez, Mário Rocha revela o seu lado humano e a sua forte ligação a projectos sociais.

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Rótulo da garrafa “A vida de um vinho”

 

Passemos para o lado internacional de Mário com a exposição “Aires da Serra…”, que esteve patente no Pazo de Cultura de Pontevedra (Espanha), de 13 de Janeiro a 12 de Fevereiro de 2012, evidenciando o seu fascínio pelo mundo rural.

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Telas da série “Aires da Serra…”, 2012

Pastor

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Sobre esta exposição e sobre o artista, o presidente da Fundación Camiño Portugués a Santiago, Ceslestino Lores Rosal disse ao Diário de Pontevedra:

“Si me pides que te describa a Mário Rocha en pocas palabras, solo puedo decirte que es uno de los artistas más completos que nunca he conocido. No solo es un genio ante el lienzo, sino que es escultor, ceramista y un gran propulsor del arte en todos los sentidos, pues dedica gran parte de su tiempo a organizar importantes eventos culturales”.

 Mário Rocha é, de facto, um génio criativo, um artista multifacetado. Sobre a mesma exposição, o crítico espanhol Ramon Rozas teceu as seguintes palavras:

“Temos, polo tanto, a oportunidade de ampliar aquel coñecemento breve, aquel contacto que agora se establece como unha forte relación coa pintura deste home e da súa terra, desas serras que o rodean e nas que se atopa a única verdade que nunca nos vai defraudar, na que sempre nos imos a sentir  reconfortados. Un berce no que recuperar as nosas vidas agora secuestradas por uns tempos que non son os mellores, pero que son os nosos. Que a arte nos sirva de alivio”.

Vou agora lançar um olhar atento sobre as telas de Mário, como admirador da sua obra.

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Telas da série “Vidas Negras”

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As cores utilizadas nas telas de Mário Rocha são as cores terras, tal como os ocres, os castanhos. Quando Mário usa cores mais vivas, como os vermelhos e laranjas, os apontamentos com essas cores são muito focalizados. Há uma forte expressividade ligada às cores mais terras. Podemos entender o uso destas cores como um elo de ligação à própria terra, como se o Outono campestre predominasse nas suas obras. Olhando para as telas de “Vidas Negras”, independentemente de encontrarmos formas figurativas, os quadros dão-nos a sensação de serem tapeçarias, como se tivessem sido bordados pelo artista. É um lado mais expressivo controlado, num encontro com a tapeçaria.

O domínio da mancha gráfica está bastante presente nas obras de Mário, chegando a ser uma espécie de abecedário do seu trabalho. Quase que o artista pinta com mancha, sendo as telas bordadas com manchas de cor. É como se o Mário dissesse: “a mancha aconteceu…eu assumo a mancha”.

Mário Rocha pinta para chegar a um fim. Nele habita uma explosão de sentimentos, e a partir desse contacto com a mancha de cor vai encontrando narrativas.

Olhando para estas telas, vemos algumas imagens desfocadas, aliadas à impressão de sentido figurativo. Como se o vento passasse e deixasse a sua marca. Há igualmente um confronto entre as formas orgânicas e algumas formas geométricas. Há ritmos que o artista estabelece que não deixam de ser mais geométricos e racionais. No fundo, há uma espécie de confronto, em que temos a sensação do ritmo de cores de forma expressiva e, ao mesmo tempo, depois de Mário conseguir aplicar na tela esse grupo de cores, depois de conseguir preencher o suporte com cor, há uma preocupação na construção do detalhe. Mário Rocha não é apenas expressivo, ao mesmo tempo que o é, chega a ser detalhado. É um mar de pormenores, de estilos, numa relação entre eles, demonstrando uma narrativa no final.

Voltando à mancha na obra de Mário, o facto de a trabalhar é o culminar de um interesse pela matéria. É a relação do Mário pelo campo, pela aldeia, a matéria que é a mancha e é a tinta.

Há um lado de sentimentos, de sentidos imprimidos na sua obra, quase como um sonho. Ficamos com a ideia que é o tempo que vai definir o detalhe, num jogo da mancha opaca com a mancha transparente.

Embora Mário Rocha seja um artista que pinta pelas emoções, dizendo que não se enquadra em nenhum estilo, em nenhuma escola, nos quadros de Mário podemos encontrar semelhanças com movimentos impressionistas e neorrealistas. Características impressionistas ligadas a este lado mais pessoal (da matéria) e ao mesmo tempo a ligação forte à Natureza, o campo, a luz, a particularidade da matéria. Neorrealistas porque, independentemente de apresentar formas e semelhanças, há um lado ligado à identidade do artista, ao campo, ao que acontece na aldeia.

Existe quase que uma visão distorcida da realidade, mas não deixa de ser uma visão realista. Falo de uma visão distorcida no que respeita apenas à aparência técnica, no sentido da técnica. No momento em que começamos a ler atentamente o seu trabalho, percebemos que Mário imprime nas suas obras a sua visão realista sobre a vida, particularmente a atmosfera da natureza campestre.

Como projecto futuro, Mário está a trabalhar numa homenagem aos pescadores de Vila Praia de Âncora que morreram no mar desde 1960. A comunidade local e o artista quiseram homenageá-los continuamente com uma escultura.

Todo o trabalho de Mário Rocha é bastante poético, é como se as suas obras cantassem, como se estivéssemos a atribuir som às suas obras. Uma espécie de som do silêncio. É este lado introspectivo de apreciar a Natureza, que faz de Mário um nome maior da pintura contemporânea portuguesa.

Como não tenho palavras para agradecer o facto de me ter aberto as portas de sua casa, mostrando-me assim o seu mundo de forma tão humana, reproduzo as palavras que Pedro Abrunhosa escreveu sobre a sua obra:

Pedro Abrunhosa

Deixo-vos o convite a visitar a “Arte na Leira”, de 20 de Julho (inauguração às 18h) a 18 de Agosto. Todos os dias de manhã até às 23h.

Muito obrigado pela tua obra Mário.

Arnaldo André Silva Santos Fidalgo Martins | pg23018 | mestrado em Comunicação, Arte e Cultura | Maia, 22 de Junho de 2013

Bibliografia:

(1) Hauser, Arnold, A arte e a sociedade, Lisboa, Editorial presença, 1984

(2) Cunhal, Álvaro, A arte, o artista e a sociedade, Lisboa, Caminho, 1996.

(3) Adorno, Theodor W., Teoria estética, Lisboa, Edições 70, 2008.

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