ARTESANATO: um encontro entre tradição e modernidade.

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O artesanato enquanto “arte menor” – uma primeira definição
O artesanato surge em primeiro plano como uma expressão de tradições populares, uma arte popular perspetivada como “arte menor” (Antunes, 1999), sendo igualmente um ofício, na medida em que se apresenta como um “modo de aprendizagem e de vida que se entretece, alimentando uma cultura incorporada de reprodução e preservação” (Santos cit. por Antunes, 1999, p.1). De facto, o artesanato funciona como artefacto transmissor de uma História cultural e, por inerência, constitui-se igualmente como transmissor de um conjunto de tradições, de costumes, habitualmente associados às várias regiões de um país.

Enquanto expressão de cultura e história e, sobretudo, enquanto ofício o artesanato tem vindo a alterar-se, não só na forma como se processa, mas também na maneira como tem vindo a definir-se, já que se tem assistido progressivamente à propagação de um novo conceito de artesanato, com vista a ultrapassar visões redutoras e que lhe foram atribuindo um papel marginal (Antunes, 1999). Enquanto setor de atividade, o artesanato mantém formas de produção e expressão com raízes predominantemente populares, de interesse considerável em termos sociais e culturais (Antunes, 1999). Isto significa que os processos produtivos e de organização assumem características singulares em cada região e estão em interdependência com as necessidades e valores do quotidiano moderno.

Máquina de fiar o linho e respetivos produtos, na Feira de Artesanato do Sr. de Matosinhos

Máquina de fiar o linho e respetivos produtos, na Feira de Artesanato do Sr. de Matosinhos

Socas com bordados. Feira de Artesanato do Sr. de Matosinhos

Socas com bordados. Feira de Artesanato do Sr. de Matosinhos

O artesanato à luz da legislação portuguesa – novas perspetivas
Do texto legal português pode depreender-se uma perspetiva cultural face ao artesanato e às artes e ofícios tradicionais, na medida em que estes são definidos como “formas de produção e de expressão lidimamente populares e diferenciadas de região para região” (Antunes, 1999, p.2). A primeira legislação sobre o setor, datada da década de 80, viria ainda a engrandecer a atividade enquanto “forma de resolução de problemas de emprego, pela absorção e fixação de parte dos excedentes de mão-de-obra, em particular no que se refere aos jovens, pela integração de deficientes, bem como pela minoração dos problemas de subemprego, nomeadamente na agricultura”. Posteriormente, a entrada na então Comunidade Económica Europeia (CEE) viria a exigir uma concretização das artes e ofícios tradicionais que compunham este setor de atividade, dando-se um alargamento das atividades que antes não eram vistas como “artesanato” e a conceção de direitos às empresas das artes tradicionais semelhantes aos das restantes pequenas empresas. Além disso, o artesão passa a ser identificado em relação àquilo que produz e ao modo como produz, privilegiando-se a pequena dimensão da sua empresa, o tipo de atividade, o domínios das técnicas manuais, ainda que não seja excluída a possibilidade do uso de máquinas, e a relação do trabalhador com as peças produzidas.

Assim, no sentido de se adaptar à sociedade globalizada, também esta arte popular procura a articulação entre diferentes tipos de saber, através da utilização de novos materiais e modelos modernos de elaboração das peças, dando-se assim um maior aproveitamento das novas tecnologias. Dá-se então a introdução de novos processos de produção, distribuição e formas de gestão da produtividade e a renovação e alargamento da variedade de produtos, bem como uma expansão dos mercados que lhe estão associados. Procura-se, desta forma, uma conjugação de elementos conhecidos e de novas funcionalidades, que se aplica à criatividade na conceção dos objetos, no seu design, etc (Antunes, 1999).

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Adaptação do padrão dos lenços minhotos a outros objetos, como carteiras e cintos. Feira de Artesanato do Sr. de Matosinhos

No que diz respeito às estruturas estatais, são várias as que se responsabilizam pela preservação e dignificação do artesanato português, o que se torna uma vantagem na medida em que se assiste a uma intervenção no setor, a nível de recursos humanos, científicos e financeiros. Contudo, esta mesma flexibilidade tende a originar tomadas de posição contraditórias e desadequadas, que pouco contribuem para a plena intervenção nesta área. Neste sentido, a Resolução do Conselho de Ministros nº 137/97 denota uma mudança de perspetiva face a decisões anteriormente tomadas, ao considerar que a expansão, renovação e valorização dos ofícios e microempresas tradicionais deve basear-se em novos princípios onde tradição e modernidade se interrelacionam e onde se combinem saberes tradicionais com novos saberes, concretamente nos novos domínios do design, das novas tecnologias de informação, do marketing e da capacidade empresarial em geral.

Tendo por base esta nova definição da atividade artesanal, são criados programas e iniciativas de desenvolvimento local que integram um conjunto de várias atividades desenvolvidas “utilizando mão-de-obra de qualidade e respeitando os processos e características tradicionais de produção” (Esteves, 2008). Graças à criação, em 1997, da iniciativa interministerial do PPART – Programa para a Promoção dos Ofícios e da Microempresas Artesanais – o enquadramento do sector do artesanato alterou-se profundamente.

Este Programa iniciou a criação das bases para o ordenamento jurídico e normativo do sector, de onde se destacam: A Carta de Artesão, que reconhece o domínio de saberes e técnicas inerentes à atividade do artesão e a sua dedicação, a título profissional; A Carta de Unidade Produtiva Artesanal, atribuída com apoio em critérios que se relacionam essencialmente com o reconhecimento do artesão enquanto responsável da produção, e com a dimensão da empresa (Esteves, 2008). Este reconhecimento da unidade produtiva artesanal é condição essencial para a aquisição de quaisquer apoios ou benefícios por parte do Estado. Paralelamente, existe ainda o Registo Nacional do Artesanato, destinado à inscrição dos artesãos e das unidades produtivas artesanais e que, por outro lado, possibilitará a produção de dados estatísticos que permitam obter informação rigorosa e atualizada sobre o sector.

Artesanato tradicional vs. Artesanato urbano
A globalização da produção cultural atribuiu um novo significado aos objetos e às ideias que resultam da construção de um sentido de lugar ou singularidade cultural (Arantes cit. Esteves, 2008). Desta forma, as fronteiras simbólicas, flexíveis e permeáveis são produzidas através da articulação entre símbolos originais e de natureza híbrida, sendo a multiculturalidade uma das características essenciais das culturas contemporâneas (Esteves, 2008).

Compreender as culturas populares e a sua relação com a modernidade, numa perspetiva de configurar as transformações no mercado simbólico, deve ter em consideração, não apenas o desenvolvimento do popular e do culto, mas também uma análise das suas convergências. Sendo o artesanato uma das representações da cultura popular que tem lugar na atualidade permite a representação das formas passadas e expressa a reformulação dessas mesmas formas, valores e identidades, através da produção de novas formas (Esteves, 2008). Assim, parece existir uma transformação contínua enquanto reflexo do modo como as culturas populares são pensadas e valorizadas estética e culturalmente e concretizadas através de políticas culturais.

Paralelamente, a alteração dos valores de uso e das representações dos bens de consumo reconstrói e torna funcional uma identidade do produto, ao mesmo tempo que requalifica o artesão, agora sujeito às leis do mercado turístico, levando à mercantilização cultural do artesanato tradicional, sobretudo no que diz respeito à sua produção, difusão e consumo. Tal como explica Esteves (2008): “Esta evolução coloca grandes desafios à qualificação dos artesãos, quer aos que estão em exercício quer aos que irão entrar no mercado de trabalho, exigindo conhecimentos artísticos, tecnológicos e de gestão.” Neste sentido, se se pretende a preservação e conservação da cultura e dos seus artefactos, estes deverão sobreviver através da revisão, transformação e adaptação das suas competências e dos ofícios tradicionais às novas circunstâncias de mudança, de modo a que práticas antigas possam ter novos significados e novos usos. (Esteves, 2008).

Adaptação do padrão dos Lenços de Namorados a uma caixa de óculos.

Adaptação do padrão do Lenços de Namorados a uma caixa de óculos.

Conclusão
O artesanato urbano permite, então, intervir para que o produto chame ainda mais a atenção do mercado, fazendo uso da novas matérias-primas, do design, de novas estratégias de produção, venda e difusão, etc (Silveira; Cunha, 2011). Assim, o artesanato urbano, também definido como artesanato contemporâneo ou de criação, surge como uma fusão entre urbanidade, criatividade, tradição e modernidade. A utilização do design na produção artesanal associa um maior valor comercial aos produtos agora inseridos na atualidade, sem que estes percam a sua identidade cultural tradicional.

Perante esta conceptualização, os artesãos por seu lado constroem a sua base de identidade profissional, tornando-se cada vez mais criadores das suas obras: “Diante de uma sociedade onde as oportunidades de trabalho são poucas, o artesanato urbano traz a possibilidade e motivação financeira para exercer sua profissão e ter um rendimento através da venda de suas criações” (Silveira; Cunha, 2011) Além disso, o fator da introdução do design nestes produtos propicia uma maior competitividade no mercado. Num contexto de globalização e de hegemonia das novas tecnologias, a busca por novos conceitos torna-se premente e é neste contexto que o artesanato urbano vem colmatar a necessidade constante de mudança e atualização, onde o criador possui competências mais amplas e assume o papel de futuro empresário, dono do seu negócio (Silveira; Cunha, 2011).

 Bibliografia

ANTUNES, Lina (1999). “Das artes e ofícios tradicionais: contributos para um enquadramento normativo legal”, Observatório das Actividades Culturais, OBS, nº 6, p. 17-22. [Em linha] Disponível em: http://www.oac.pt/pdfs/OBS_6_Das%20Artes%20e%20Of%C3%ADcios%20Tradicionais.pd

ESTEVES, Denise Gayou Lima Reis. “As Artes e Ofícios Tradicionais na Contemporaneidade – Práticas (in) Populares?”. Em Congresso Português de Sociologia, VI, 2008. [Em linha] Disponível em: http://www.aps.pt/vicongresso/pdfs/443.pdf

SILVEIRA, Elaine; CUNHA, Joana. “O Artesanato urbano e a sua relação com o artesanato tradicional e o design”. Em Congresso Internacional de Pesquisa em Design, VI, 2011. [Em linha] Disponível em: http://hdl.handle.net/1822/14949

 Trabalho de Ana Veiga Ferreira (PG21721)

One response to “ARTESANATO: um encontro entre tradição e modernidade.”

  1. Isabel Félix says :

    Gostei, fiquei ilucidada sobre o significado de artesanato, a sua importância e os conceitos e novas abordagens. Foi dos poucos que eu li que apresentou uma explicação muito boa

    Parabéns

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