Eduardo Nery “Um artista que se movia no real”

Alina Carvalho (PG23757)

Arte Metafísica

285631_564796666864406_1520692371_n

 “Num país onde as desigualdades sociais são das maiores na Europa, o acesso generalizado e estável à atividade artística e cultural é uma força que pode aproximar os portugueses – não se trata de dar pão e circo para garantir a satisfação do povo, mas crédito ao valor de melhoria das condições educativas e culturais da população em geral como cimento entre gerações, classes sociais e diferentes perspetivas políticas, religiosas ou sociais. Afinal as artes e a cultura cuidam de um aspeto central da vida de pessoas e sociedades: a criação e desenvolvimento de uma atenção compreensiva, crítica e proactiva – um olhar sobre o mundo.”

E porque se estamos a estudar cultura em Portugal, nada melhor que analisar e deliciar o imaginário artístico de um artista português.

Eduardo Nery, artista plástico multifacetado, nascido em 1938, na Figueira da Foz, formou-se em Pintura, na Escola de Belas Artes de Lisboa, efetuou uma breve passagem pelo Curso de Arquitetura, na mesma escola.

É indissociável da modernidade, que enriqueceu e ampliou ao criar novas perpetivas estéticas e ao fazer do poder de síntese um elemento de estilo, cultivando e renovando desde o início da sua obra até ao final do seu trabalho. O contexto político cultural em que o artista começa por se afirmar é influenciado pelo Neo-realismo, é considerado um artista da terceira geração do modernismo português, entre outros artistas notáveis tais como Júlio Resende, Júlio Pomar, João Hogan, Nikias Skapinakis, etc. Numa abordagem histórica, o contexto geracional de Nery é o do pós-guerra. Nesta época, a questão da afirmação de uma identidade estética com capacidade para a inovação e alcance ético, passava pela capacidade em conciliar uma visão própria do ato criativo, com a organização de um feixe de questões que resultavam do estudo, lucidez analítica e de uma inteligente perceção visual. De tudo isto, se teceu o caminho que Eduardo Nery resolveu trilhar.

Percorreu uma grande diversidade de técnicas, da pintura ao azulejo, passando pela tapeçaria, vitral e fotografia. A face mais visível da sua obra é a arte pública.

Considerado um dos mais importantes operadores artísticos estéticos em Portugal, remeteu para disciplinas de intervenção artística em espaços públicos, e aí inscreveu muito do seu pensamento criador.

As suas obras, autênticas peças de um património artístico contemporâneo, autênticos documentos de uma história da recente arte portuguesa, através de expressões que são tidas por periféricas no estatuto convencional das artes, muitas delas confirmam a superior capacidade deste autor para intervir nos espaços públicos e privados, gerando mecanismos de usufruto artístico no quotidiano, e deste modo uma maior exigência de sensibilidade e de gosto dos públicos e das sociedades.

Eduardo Nery concebeu espaços de grande visibilidade pública, em arquitecturas tão diversificadas como as de uma fabrica, e em paisagens que tanto podemos ver do viaduto de uma grande avenida como a de um espaço ajardinado à beira do rio.

Untitled-2

 Painel na Fábrica da Sociedade Central de Cervejas e Bebidas, SA, Vialonga

Painel na Fábrica da Sociedade Central de Cervejas e Bebidas, SA, Vialonga

Estas artes ornamentais, foram tratadas por Eduardo Nery como artes de metamorfose dos espaços, o que, desde logo, constitui um programa estético e, indiviso o artista, muitas das suas pesquisas desenvolvidas em fotografia, desenho, pintura e colagem contaminaram as criações projectadas para integração arquitectónica e urbanística.

Daí que sem pretender estabelecer deterministas entre umas e outras artes, seja útil lançar um olhar, breve e deste modo inevitavelmente redutor, ao itinerário de Eduardo Nery como artista plástico.

Sólidos textos sobre a obra de Eduardo Nery, foram já publicados por Rocha Sousa e Fernando de Azevedo, Fernando Pernes e Eurico Gonçalves entre outros, análises incidindo, de modo quase exclusivo, na sua produção de artes plásticas, mas que nos dão a ver a coerência e continuidade de um itinerário, assim como afirmação e o evoluir do pensamento artístico.

Eduardo Nery por Rocha de Sousa, Colecção Arte e Artistas, Edição da Imprensa Nacional

Eduardo Nery ou o intrigante teatro do olhar por Fernando de Azevedo, in catálogo da retrospectiva “Eduardo Nery

Nas suas primeiras obras,  notam-se influências do abstracionismo lírico, de raiz francesa (pós guerra ainda, Bazaine, Vieira da Silva, Soulages, por exemplo) ou expressionismo abstracto  americano – entretanto visto em viagem, que lhe forneceram apoios seguros para um encontro e uma experimentação que entretanto já, haviam tido em Portugal, alguns começos e experimentadores, particularmente nalgumas fugas pós_surrealistas.

Eduardo Nery, na sua época, acrescenta a esta lição visual a sua curiosidade – que depois será não só fundamento como solidez interior – pela ciência dos espaços, pelos mecanismos celestes, pelas regras do universo, pelas origens. E naturalmente pelos fins e pelas finalidades.

A sua arte refletia esta consciência aberta, já a uma espacialidade que se procura no trancendental, um novo expressionismo gestualizado e humanista.

Nery mantém distintos os lugares da terra e do céu, os lugares do sagrado e do profano.

Conversa com o filósofo José Neto acerca dos temas centrais do fazer artístico

Tapeçaria Execução da Manufactura de tapeçarias de Portalegre, 1965

Tapeçaria
Execução da Manufactura de tapeçarias de Portalegre, 1965

“É a altura em que as constelações ferem pela primeira vez o negro o vazio, o opaco, tal um bailado de neve, de estrelas brancas, cintilantes, atravessando céleres o espaço “.

O espaço, elemento primeiro da linguagem visual, e tema central na sua obra, referência de imaginário para sua pintura, matéria prima a trabalhar nas suas intervenções artísticas, arquitectónicas e urbanísticas.

Constante ao longo de toda a sua obra, o espaço surge em desenhos gestuais, confrontos de energias e forças na vazio cósmico; evoluindo durante os anos para simulações de perpetivas e volumes no plano, seja o da tela, o da parede ou o da trama da tapeçaria- malhas de” ilusionismo op” que desenvolveu com grande originalidade e excelência.

Desenvolvimento em Círculos VIII  Acrílico sobre painel de platex Colecção Embaixada de Portugal em Brasília, Brasil

Desenvolvimento em Círculos VIII
Acrílico sobre painel de platex
Colecção Embaixada de Portugal em Brasília, Brasil

A abstracção, iniciada por uma vontade orgânica em gestualismo e serenada, depois pela ordem poética da geometria dá lugar à figuração com referências concretas, objectos reutilizados e pinturas cenográficas que, de outro modo, desenvolvem a pesquisa sobre as formas físicas e metafóricas do espaço.

“O artista seguiu a direcção da potenciação da polissemia dos signos visuais e a possibilidade de os actualizar pela construção de novas sintaxes.”

Através de peças / colagens, documentava estratégias de cruzamento de diferentes léxicos e tempos históricos, os da história da arte ocidental e os de uma cultura massificada, necessária à sociedade contemporânea de consumo rápido.

Mistério da expressão Colagem s/ cartolina s/ reprodução de uma pintura de David

Mistério da expressão
Colagem s/ cartolina s/ reprodução de uma pintura de David

A obra actual de Nery é bem testemunho do próprio passado do artista. Analogamente, para além do plano individual de quem as concebeu, estas obras falam-nos da urgência do reencontro entre a história e o nosso quotidiano, cuja dissociação se paga em mútua degradação, arrastando aflitiva exigência conciliatória, encontramos  uma reflexão sobre a necessidade e o poder da imagem.

Nas suas pinturas, o tema luz para além da sua função modeladora de superfícies e definidora de espaços, torna-se autónoma e transforma-se em máxima intensidade abstrata, veículo de destruição da visão porque cega do mesmo modo como o fogo, também forma de luz e calor, reduz os corpos a cinza.

S / Titulo Série " O outro lado do rosto"

S / Titulo Série ” O outro lado do rosto”

De Nery, podemos fixar duas direcções constantes, preferência por mecanismos analíticos e rigorosos na construção de imagens – a geometria, a perspectiva e a óptica – e a aplicação de técnicas expressivas frias – o traçado geométrico rigoroso, formas contornadas, planos de cores lisas, registos fotográficos, colagens e pintura a spray.

Nota-se sua a vontade de dar corpo a uma realidade cósmica, seja a paisagem da terra, a configuração dos astros ou ainda a figura do infinito; deteta-se também uma vontade táctil, pela sensibilização de superfícies através de mecanismos Op, criando sistemas de forma e cor que, mais do que uma evidência do conceito gráfico, mental, nos remete para o valor abstrato da cor, de poderosa vertente sensual; finalmente identifica-se a convocação de absurdos, em jogos de ilusão entre o que existe e o que é vazio, na presença simultânea de ícones de diferentes tempos e intencionalidade, colocando em evidência quer a estrutural descontinuidade da percepção do mundo, quer as incongruências da exigência contemporânea. Justifica-se aqui, no seu tratamento e forma de tratar as formas e a influência que viria a ter no design.

Seleção de Serviços de Café Vista Alegre  Nery design by Eduardo Nery

Seleção de Serviços de Café Vista Alegre
Nery design by Eduardo Nery

Os seus azulejos ilustram de modo singular a criação do design enquanto disciplina projetual, que deseja unir qualidade estética com inteligência na produção industrial, e ao mesmo tempo, responder a necessidades funcionais da existência quotidiana.

A linguagem de abstração óptica, desenvolvida por Nery, adequa-se de modo excepcional a esta intenção de transformar os revestimentos em azulejo como presença sensível nos espaços construídos, integrando-os e qualificando-os esteticamente, em absoluto respeito pelo lugar.

Nas suas obras, sejam elas azulejos, colagens pintura, o mecanismo Op e a lógica visual da colagem adequam-se ao sentido fragmentar da percepção contemporânea e não deixa de ser uma meditação sobre a obra de arte como veículo de infinitas poéticas na cultura portuguesa.

Nery combinou os conhecimentos Op Art, revelando um trabalho inovador, como se vê na sua intervenção da calçada portuguesa da Praça do Município em Lisboa.

Calçada portuguesa da Praça do Município em Lisboa.

Calçada portuguesa da Praça do Município em Lisboa.

As intervenções plásticas projetadas por Eduardo Nery para os espaços arquitectónicos urbanísticos, embora privilegiando o azulejo, integraram também outras disciplinas como a calçada e o mosaico, isoladas ou em articulação. A designação híbrida que Eduardo adoptou para as suas composições de revestimento de chão, calçada-mosaico, parece dar forma ao desejo de atualizar a relação entre uma tradição portuguesa da calçada de calcário e basalto para guarnição dos passeios e a tradição clássica do mosaico, oriunda da Antiguidade, grega e romana, atualizada em Bizâncio. De facto, bem definida a genealogia, é possível também encontrar parentesco nas lógicas construtivas do mosaico, da calçada e do azulejo, a de elementos avulsos, a tela, o paralelepípedo ou o azulejo, que associados entre si protegem e decoram superfícies, construindo formas e figurações.

A passagem de uma escala íntima a outra monumental constitui um definitivo gesto de memória e criação, notícia de um tempo histórico da Arte em Portugal, registada pelos seus criadores e os seus críticos, e de afirmação pública de uma poética geométrica e rigor que sempre tendeu, pela sensualidade táctil das superfícies e das cores, para um discurso de grande carga lírica.

É este paradoxo que parece constituir a estrutura do pensamento artístico de Eduardo Nery que, bem assente no chão, deseja incessantemente encontrar o indizível, ou seja ao infinito.

A tapeçaria e o vitral, como parte de uma obra multidisciplinar.

Sintetização e impressões cósmicas, desenhos de uma iniciação gestual, astros que giram sobre si próprios, filhos do infinito, recolhe o artista  para uma realidade parietal das suas esplendorosas tapeçarias.

O artista, torna-se assim fingidor de aparências que não passam de fascinantes armadilhas para o olhar – tudo numa criação, por vezes também metafórica, na pintura e na fotografia, sobretudo, pelas vias complexas da técnicas  de representação, ou activando longas superfícies inicialmente marotas, linhas, ângulos, formações rectilíneas e seriais, os módulos de conexão múltipla gerando, além do ornamento integrado, a ideia de movimento e de ritmo, a determinação de um espaço que se vai significado pelo tempo.

Quer nesta perceptiva de investigação, quer nos mundos dos imaginários da fotografia, Nery especializado em vários procedimentos da natureza artística, alcançou a posição de valor internacional. É um artista à medida do tempo novo, um criador plural que assume, em rigor, soluções de grande originalidade.

Senhor de várias aprendizagens no domínio do visual, este artista sempre ligou as experiências correspondentes a cada exploração técnico-expressiva: São inúmeros os pontos que dão corpo às peças de tapeçaria de Nery.

“Sobre a larga folha de papel branca, de súbito, cai um pouco de tinta preta, pingo que logo se expande em pequenas lágrimas salpicadas – são estrelas e planetas que povoam varias tapeçarias de Eduardo Nery. As tapeçarias riquíssimas em elementos formais e gama cromática  ordenam-se em em linhas verticais e horizontais, implícitas e explicitas com contrastes e círculos coloridos.”

 

Vitrais - Igreja de S. Miguel de Queijas

Vitrais – Igreja de S. Miguel de Queijas

Preconizou obras em vitrais, num mundo variado e que o pintor processava numa fascinação de outra ordem, ultrapassando, desde muito cedo, o campo da pintura de cavalete,  projectou-se na arquitectura, como se no azulejo, e vitral tivesse encontrado resposta ambiente à estética que criara.

A qualidade vitralistica de Nery residiu na procura de esquemas operatórios de autónoma ambição, na medida em que neles se colocaram, muito agudamente, problemas de consciência profissional, exclusiva garantia de sucesso estético, quer na tão desejada interacção com a arquitectura quer a tão perigosa aproximação entre pintura feita sobre suportes opacos e pintura feita em vidro.

Antiga Capela da Misericórdia de Barcelos

Antiga Capela da Misericórdia de Barcelos

Olhando para vasta obra de Nery, nas duas vertentes em que se desdobrou, fácil foi reconhecer como determinante na evolução da sua personalidade artística aquilo que Rocha de Sousa apelidou por “sistemas de vasos comunicantes” de onde retirou uma linha espacial, que teve uma enorme importância no seguimento da sua actividade plástica. Este encontro isolou a originalidade do seu pensamento muito para além da popularização epidérmica das experiências ópticas e aqui sobretudo tem importância porque foi modo de dar voz renovada e contemporânea a conceitos de arte oficiosa e sacra. Num uso acertado, desde logo a articulação do vitral com o betão, numa ligação ideal que desmentia a antinomia da sua natureza, ocupou um lugar paradigmático no que mais se realizou no domínio do vitral em Portugal. Levando a sua inefável geometricidade ao vitral, o artista sujeitou a arte da igreja a uma via de representação simbólica e metafísica do homem e de Deus.

Tinha uma gosto apurado pelas mascaras africanas,  elaborou várias obras com inspiração nestas de onde resultaram magnificas obras contemporâneas.

Série "Lugares" / "Places" Series

Série “Lugares” / “Places” Series

Metamorfoes / O outro lado do Mundo

Metamorfoes / O outro lado do Mundo

Preconizando uma obra vastíssima que lhe valeu uma condecoração Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, dedicando-se nos últimos tempos da sua vida à intervenção na arquitetura e espaço público, Eduardo Nery, falecido no passado mês de Março, deixa no nosso país uma profunda marca de originalidade. A cultura portuguesa deve a este mestre algumas das marcas mais significativas das últimas décadas.

Não podia deixar de escolher uma artista português, aproveitando aqui  para fazer uma pequena homenagem com esta pequena análise sobre a essência da sua vastíssima obra. No meu ver, só podia ser Eduardo Nery, um contemporâneo por excelência, que partiu este ano para junto das estrelas e astros que tanto gostava de pintar…Quem sabe obras mais belas não estarão a ser perpetuadas junto do transcendente… Um artista soberbo, que influenciará certamente artistas futuros, no panorama cultural e artístico português.

Conheça mais um pouco da obra deste artista

Referências Bibliográficas

http://www.eduardonery.pt/

https://www.facebook.com/pages/Eduardo-Nery/143050789038998

http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/comunicados-de-imprensa/casa-museu-medeiros-e-almeida-homenageia-eduardo-nery

http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=632409&tm=4&layout=121&visual=49

EDUARDO NERY : METAMORFOSES :  FOTOGRAFIA / [ORG.] FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN (2005), 1ª Edição, Lisboa

EDUARDO NERY : EXPOSIÇÃO RETROSPECTIVA :  TAPEÇARIA, AZULEJO, MOSAICO, VITRAL : 1961-2003 ; COORD. PAULO HENRIQUES, 1 ª Edição, Lisboa

SAPORITI, TERESA , AZULEJARIA DE EDUARDO NERY, Lisboa, 2000

REVISITAR OBRAS DOS ANOS 60-70-80-90 : ÁLVARO LAPA, ANTÓNIO SENA, CARGALEIRO, CESARINY, COSTA PINHEIRO, CRUZEIRO SEIXAS, EDUARDO NERY, GIL TEIXEIRA LOPES, JORGE MARTINS, JOSÉ DE GUIMARÃES, NIKIAS SKAPINAKIS, VÍTOR POMAR / [ORG.] GALERIA NEUPERGAMA, Torres Novas : G.N., 2004

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: