Espetáculo “Labirinto de Amor e Morte” – símbolos de uma transformação de identidade

O espetáculo “Labirinto de Amor e Morte”, com texto e direção de Moncho Rodriguez, interpretado por Marta Carvalho, apresenta-nos uma mulher em transformação, em luta constante com a mudança da sua própria identidade, num ciclo de vida – morte – vida.

Estas transformações são possíveis de verificar não só através daquilo que a personagem vai dizendo sobre si mesma e das suas ações, mas através de vários símbolos e signos que associamos aos ciclos de vida e morte. A natureza está presente neste espetáculo através de pequenas coisas, tais como a cinza, água, flores, ar. As luzes e os elementos cenográficos manta e cortinas ajudam também a revelar-nos o universo interior da personagem.

As cortinas prolongam as vestes, paramentos da cerimónia, que se rasgam para descortinar um abismo. A mulher desnuda a sua alma, o seu universo. Expõe o seu ser mais profundo, naquele tapete/manta, como que repisando o interior de si mesma.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sempre que a aura da personagem altera o seu fulgor, as cores acompanham essa variação, dando ao espectador impulsos sensoriais que lhe permitem seguir a acção que se desenrola na cena:

Sem nenhum pudor entrego-me aos raios do sol mais dourado e como uma fortaleza sem vigia deixo-me invadir, sem nenhuma resistência pela luz clara deste dia.

Imagem: Rui Pitães O ar é o movimento libertador e opressor, respiração e suspiração do amor: “Libertei-me do seu ar, daquela respiração que parecia querer afogar-me”. É no ar que ainda vagueia o cheiro do amor defunto: “Vagueia no ar o seu cheiro pestilento, evitem respirar, não se deixem contaminar, são seus últimos momentos, depois desaparecerá.”.  Mas é também no ar onde se encontra o etéreo, o sonho: “Como ébrios nos entregamos ao sabor do desconhecido, do ar, do vento…E nos deixamos agasalhar, naufragamos para afogar o desejo … intenso…”

 

 

 

 

 

As cinzas, e principalmente a ação de comer as cinzas, são um ato de destruição, de morte. Mas também de transformação, embora numa transformação através da destruição. Ao alimentarmo-nos de algo, tornamo-nos também um pouco desse algo. Para as tribos canibais, alimentar-se do inimigo era apropriar-se da sua força. Ao devorar as cinzas do seu amor, ela transforma-se também nele próprio. Dentro dela os dois passam a habitar e tornam-se um só:

DCS_3392

Já não o quero, Já não me quero

Já não o tenho, Já não me tenho

Já não o sinto, Já não me sinto

Já não o amo, Já não me amo

Já o odeio, Já me odeio…

DCS_3405Morrendo dentro dela um pouco dela mesma:

  Agora morto de mim, morto em mim, também me sinto morrer, seca de ti  (…) Dorme em mim, deixa-me dormir em ti…

Mas é essa “morte” de aspetos dela própria que permite a transformação que ocorre na água, que surge como um ritual de purificação atemporal, transformação da identidade, sua renovação e revitalização.

imagem: Manuel MeiraO recomeço é o mito fundador da modernidade reflexiva, como diz Ribeiro (2010: 196) “o indivíduo pós moderno vai deixando as suas peles sucessivas e vai fazendo crescer novas à medida que sente que habita um espaço-tempo desregulado e vacilante”. A personagem feminina de “Labirinto de Amor e Morte” vai assim despindo as suas personas, para poder vestir outras – o lavar, a água, a purificação. As identidades são para se vestir e mostrar, não para guardar e reservar (Bauman, 2004). Nesta personagem, a sua identidade vais se transformando, mostrando que nada na condição humana é um dado adquirido e permanente, podendo ser mudado – o ponto fulcral do modo de ser e existir moderno (idem).

Os conflitos da relação com o parceiro estão patentes no texto, o que é particularmente interessante do ponto de vista identitário, porque exacerba as contradições a gerir (Kaufmann, 2005). As tomadas de consciência, sob formas de visões de identidades diferentes vão surgindo em certos momentos de arbitragem, e a unificação identitária só tem lugar à superfície e o que trabalha mas profundezas da memória está longe de ser refreado. Como diz Bauman (2004) a identidade é também uma espada de dois gumes. Isto é patente nestas falas da mulher de “Labirinto de Amor e Morte”:

Mesmo sendo desconhecido, mesmo que me repugnasse a ideia de premeditar o desfecho, o inevitável dentro de mim acontecia e há muito caminhava, com passos largos crescia, costurando no silêncio, no segredo o destino final com fios desconhecido, Tecia e emaranhava retorcendo linhas, e em cada pontada um nó, e em cada nó uma agonia

E esta personagem também explode:

Cumpriu-se em mim o oculto. Desprendida de pudor executei, num só golpe o desfecho inesperado. Matei sem vacilar a réstia daquilo que parecia ser o meu amor

Mas esta personagem logo recusa a identificação com outros grandes arquétipos femininos de revolta ( “Qual Medeia, qual Antígona, incomparável fui sem igual”) numa busca por uma identidade única e própria (“nenhuma mulher se atreveu a libertar do seu cerne veneno tão poderoso, arma mortífera…”. Esta mulher, sendo uma personagem de ficção mas contendo no entanto aspetos verdadeiros da psique feminina, pode concretizar-se e realizar-se (“nesse espelho mágico vejo-me e cego-me, ofusco-me, encontro-me e navego-me, sem rumo em mim mesma, e sem dor – liberto-me do amor cadáver”, “sou isso, sou de mim mesma, minha!”).  Ela não se deixa reduzir a definir-se por papéis e outros conceitos pré-definidos socialmente. Renega a escolha de um dos pólos virgem/pecadora: “não sou a maçã do inferno nem a víbora que rasteja em pecado (…) nem o verso que floresce a poesia”. Define-se numa identidade múltipla e multifacetada, por vezes até dicotomicamente opostas, mas com um ponto comum – a capacidade interna de se poder transformar, de encontrar a sua identidade, de ser Ela mesma:

FOTO RUI PITÃES“Sou Mulher

Sou ama, mucama, donzela, moça, menina,

mãe, esposa, amante, deusa, rainha, divina

Sou livre!

Sou isso:

Sou de mim mesma, Minha!”

 Marta Carvalho (PG 21714)

Link para o blog do espetáculo: http://labirintodeamoremorte.wordpress.com

Bibliografia:

BAUMAN, Z. (2004) Identity. Cornwall: Polity Press.

KAUFMANN, J.-C. (2005) A Invenção de Si. Uma teoria da identidade. Lisboa: Instituto Piaget.

RIBEIRO, R. (2010) “Pensar a identidade atonal da modernidade: breve fantasia a quatro mãos. Comunicação e Sociedade, Vol. 18: 193-200.

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