Mitos e arte: como o mito de Penélope transparece na obra On The Road, de Jack Kerouac

Por Flávia Pessoa Serafim

Vários estudiosos acreditam que os mitos são alguns dos símbolos e imagens que formam o inconsciente coletivo e, assim, sendo, estão muitas vezes presentes em representações da realidade. Vários artistas, por conseguinte, colocam em suas obras referências mitológicas. O mito de Penélope, que será por nós analisado, também surge em várias representações da realidade, ou seja, em várias obras de arte. Temos, abaixo, alguns exemplos de pinturas que estabelecem uma relação dialógica com o mito da rainha espartana.

Francesco Primaticcio - Ulysses and Penelope

Francesco Primaticcio –
Ulysses and Penelope

John William Waterhouse - Penelope and the Suitors

John William Waterhouse –
Penelope and the Suitors

Leandro Bassano - Penelope

Leandro Bassano –
Penelope

Pintoricchio -  Penelope with the Suitors

Pintoricchio –
Penelope with the Suitors

Além da pintura, outras formas de arte também contém referências ao mito da esposa de Odisseu. Na música, podemos citar a canção Penelope’s Song, de Loreena McKennitt. Já no cinema, podemos encontrar a rainha espartana no filme Ulysses, de 1954.

É na literatura, no entanto, que iremos ver o maior número de referências a Penélope. Podemos citar alguns exemplos, como Janela do sonho, de Patricia Bins, Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, de Clarice Linspector, A doce canção de Caetana, de Nélida Piñon e The Penelopiad, de Margaret Atwood. A relação dialógica entre literatura e mito, embora existente e numerosa, nem sempre é explícita. Pensando nisso, resolvemos tentar vislumbrar a maneira como esta narrativa mitológica se fez presente em uma obra literária da contemporaneidade, e, para tanto, decidimos fazer uma breve análise mitocrítica do livro On The Road. 

On The Road foi publicado pela primeira vez em 1957 e é uma obra-chave da chamada geração Beat. A história baseou-se nas viagens que o autor realizou, juntamente com seus amigos, por todo os Estados Unidos e tais viagens, protagonizadas por Sal Paradise e Dean Moriarty, podem ser vistas como experiências de errância embaladas ao som de jazz, regadas a drogas e  apimentadas com sexo.

O enredo, por tratar de uma série de viagens, pode ser identificado com a Odisséia, obra que se constitui como a primeira narrativa sobre viagens da literatura ocidental. A existência desse paralelo nos permitiu perceber que o mito de Penélope, a esposa de Ulisses, pode ser encontrado também nos escritos de Kerouac e, portanto, decidimos fazer uso das teorias de Durand (apud Borba & Jardim, 2012) sobre mitocrítica para tentar identificar as relações existentes entre a esposa de Odisseu e Camille, a mulher de Dean Moriarty e, assim, vislumbrar como um mito pode estar presente numa obra literária contemporânea. Dessa forma, iremos, a partir de agora, enumerar os mitemas que constituem a narrativa mitológica em questão e estabelecer relações entre estas partículas míticas e a história de Kerouac.

Segundo a clássica história registrada por Homero, Pénelope foi a esposa de Ulisses, separada do marido convocado para a guerra de Tróia. O herói passou vinte anos longe de sua terra natal e sua esposa, diligentemente, tomou conta de seu reino e filho, fazendo uso de algumas artimanhas (como tecer e destecer uma mortalha) para retardar a aparentemente inexorável escolha de um segundo marido, vez que se julgava estar Odisseu morto.

Barbosa (s/d) é um dos estudioso que se debruçou sobre o mito de Penélope. Tal autor dividiu a narrativa mitológica que ora analisamos em pares mitêmicos, ou seja, estabeleceu uma comparação entre os mitemas do mito de Penélope e aqueles que caracterizam o mito de Ulisses. Os pares trabalhados foram: viagem/espera, ilha-referência/ilha-prisão, fidelidade carnal/fidelidade espiritual, eloquência/silenciamento e criador/criatura. O primeiro par trata da espera de Penélope e Camille e das viagens de Ulisses e Dean. Chegamos à conclusão de que, embora ambas as personagens femininas exerçam a espera e as masculinas viagem, há uma interrupção na espera de Camille e no desejo de retorno de Dean; ambos, apesar de tudo, voltam a reunir-se no final, ou seja, a correspondência entre o mito grego e a narrativa de Kerouac ainda se preserva.

O segundo par estabelece a ilha de Ítaca como prisão para Penélope e referência para Ulisses. Podemos afirmar que São Francisco, cidade em que Camille mora durante a maior parte do tempo, tem um papel análogo na história do casal Moriarty, uma vez que Camille não pode partir, graças às suas filhas, e que Dean almeja, em dado momento, retornar para o lar que tem com Camille, e é para onde, ao fim das contas, retorna.

O terceiro conjunto de mitemas trata da fidelidade carnal e espiritual e, de acordo com ele, Ulisses, embora não tenha sido fiel à sua companheira carnalmente, o foi espiritualmente. Temos, aqui, uma relação de antítese, pois Dean não foi fiel espiritualmente; o rapaz se apaixonou por outras mulheres e chegou a desposar uma delas e se divorciar de Camille. No que se refere à fidelidade de Camille, notamos que ela não é abordada. Levando em conta, no entanto, que os casos amorosos de Marylou são expostos e que Camille é caracterizada como uma jovem bem-criada e educada, ou seja, seguidora dos bons costumes, e tendo ela gerado filhos somente de Dean, temos a tendência a acreditar que a personagem foi sempre fiel a seu amado, como o foi Penélope.

Trataremos dos últimos dois pares – eloquência/silenciamento e criador/criatura – concomitantemente. De acordo com o primeiro par, à esposa de Ulisses cabe a obediência, a extrema passividade e o mutismo, enquanto seu esposo é eloquente e vence seus inimigos através do verbo. Em conformidade com o outro par mitêmico, todavia, Penélope passa de um papel passivo para um ativo, o de criadora, através da tecedura da mortalha do sogro, enquanto seu esposo, o criador do Cavalo de Tróia, passa a ser uma marionete (ou criatura) dos deuses, ou seja, assume uma atitude de passividade.

Se traçarmos um paralelo entre esses mitemas e a narrativa de On the Road, percebemos que à Camille também cabe o mutismo e a passividade, pois Dean constantemente sai de viagem e tem casos mal disfarçados com outras mulheres, contra os quais a jovem não pode se coloca abertamente. Contudo, Camille rebela-se e cria uma situação de separação e Dean assume um comportamento passivo ao retornar à casa devido ao chamado de sua mulher, a qual o recebe de volta, por iniciativa própria, no seio do lar.

Através do trabalho de Barbosa e da breve análise aqui realizada, pudemos perceber que os mitos podem aparecer de forma discreta em obras literárias que, aparentemente, não têm nada de mitológico. É possível, inclusive, haver a existência de uma relação antagônica entre o mito e alguns aspectos dessas obras. Essa relação intertextual nem sempre é facilmente estabelecida, no entanto, este é um rico campo do saber. Assim sendo, vários estudiosos da mitocrítica dedicam-se à descoberta das relações entre mitos e literatura, o que demonstra a relevância que os mitos ainda têm na contemporaneidade.

Referências

Barbosa, Gilliard Ávila (s/d). Subversões míticas na lírica pitiana: a Odisseia de uma Penélope em movimentohttp://ebooks.pucrs.br/edipucrs/Ebooks/Web/978-85-397-0198-8/Trabalhos/37.pdf [consultado em 13 de maio de 2013];

Borba, Camile Fernandes, e Jéssica Cristina dos Santos Jardim (2012). “Tradução do ensaio “Passo a passo mitocrítico” de Gilbert Durand”, Revista Ao Pé da Letra, vol.14, n. 2, pp. 129 – 147 – http://www.revistaaopedaletra.net/volumes/Volume%2014.2/Volume14-2_Camile-Fernandes-Borba_Jessica-Jardim.pdf [consultado em 13 de maio de 2013];

Kerouac, Jack (1955). On The Road. Nova York, Viking Press – http://staff.oswego.org/ephaneuf/web/Beat%20Miscellany/Kerouac,%20Jack%20-%20On%20The%20Road%20.pdf [consultado em 13 de maio de 2013];

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