Subculturas: O vestuário como forma de diferenciação e identificação

Por Beatriz Lobo (PG21729)

Para se entender bem a relação dos grupos na cultura de rua é interessante que anteriormente se entenda como o individuo se ordena a fim de formar grupos de individualização.

O individuo por si só busca o processo de individualização como processo de diferenciação dentro de um grupo, porem vários indivíduos buscas as mesmas relações com símbolos. Tal dinâmica gera o que pode ser chamado de laços sociais:

As figuras idealizadas suscitam um mecanismo de atração, uma estética, tendo uma função ética, a fascinação que elas exercem, como uma fonte luminosa, suscita o que se chama laço social. ( MAFFESOLLI, 1996 )

Assim se formam grupos, as imagens sendo quaisquer delas, integram um grupo de indivíduos fazendo que estes estejam inter-relacionados. Cada grupo, então, tem um ideal, um líder ou qualquer outro elo central, que deve ser seguido, porém, embora sejam importantes, tais elementos centrais não são imutáveis, uma vez que transformam-se ou desaparecem com o decorrer do tempo. Sua necessidade, todavia, é patente, pois através destes elos centrais ocorre a união.

Esta capacidade de mudança pode ser exemplificada claramente no universo da moda. Neste, tendências se desfazem em meses e voltam a ser novidade depois de décadas, seguindo o velho ditado que reza que “nada se cria tudo se copia”, o qual podemos até complementar com o seguinte dizer: “tudo se transforma”.

Maffesoli (1996),encara a moda como uma forma de máscara que só pode ser utilizada em grupo, nos quais há necessidade de imitação. O sociólogo continua afirmando que a moda, não só necessariamente do vestuário, mas também a linguística e culinária, marca todo o movimento de uma época. Assim, essa época fica caracterizada por hábitos destas tribos, as quais retratam o todo e concedem atenção ao homem comum. Podemos, então, compreender a importância da cultura de rua dentro do campo de estudo da moda, pois percebemos que a primeira exerce influência na segunda e ambas ficam presente no imaginário que caracteriza uma época, como ocorre, por exemplo, com os hippies da década de 60.

Segundo Arce Cortes (2008), a subcultura é um esforço integrado de pessoas antes rejeitadas pela sociedade devido aos seus ideais, para formar uma sociedade, uma comunidade na qual possam ser aceitos, em que os indivíduos ainda se articulam com a cultura- mãe, porém fazendo parte de novas tribos em que são aceitos. O autor continua dizendo que os indivíduos utilizam-se de diversas maneiras para se afirmar como parte da tribo, tais como gestos, movimentos, poses, vestuário e palavras, que os diferenciem de um todo. É interessante salientarmos que os jovens são muito representativos no que se refere ao fenômeno das tribos, pois, geralmente, são eles que as formam.

Arce (2008) salienta que atualmente a contracultura é definida como algo que tenta romper com o já existente. Dessa forma, seria também uma maneira dos jovens de ressaltar suas novas ideias.

Pode- se citar um movimento que recentemente foi reconhecido com manifestação cultural na cidade do Rio de Janeiro, o Funk. Este teve inicio no fim década de 70, culminando nos anos 2000. O movimento se iniciou com o ideal de luta contra as diferenças raciais, enaltecendo os grandes nomes da raça negra, formando discussões, e principalmente manifestações musicais, que também tinham como intenção ocupar uma classe que não tinha acesso ao lazer “branco”, criaram uma diversão para eles.

 

Totoma!, Dani Dacorso que fotógrafa, que  tem feito trabalhos sobre o  funk nos últimos dez anos.

Totoma!, Dani Dacorso que fotógrafa, que tem feito trabalhos sobre o funk nos últimos dez anos.

Porém, com o passar do tempo, perdeu- se o caráter revolucionário do Funk, o qual passou a ser somente um estilo musical, mas ainda continuando com o caráter de ser uma manifestação voltada para o lazer. Estes indivíduos continuam sendo vistos como funkeiros, mesmo não tendo o ideal inicial. A música também não preservou o mesmo ritmo sincopado dos primeiros tempos, porém, a indumentária sensual e apelativa se manteve, fazendo que essa indumentária se torne bem característica, fazendo com que assim os indivíduos pertencentes ao movimento do Funk sejam facilmente reconhecidos através de seus trajes.

 

Vestimentas, tribos e identidade 

A ideia que o individuo tem de si próprio e como ele se relaciona com as outras pessoas vem mudando muito nos últimos anos, devido à globalização. Antes, as pessoas tinham mais pudores e as relações eram mais conservadoras; hoje, vive-se mais livremente, os códigos sociais estabelecidos mudaram, fazendo com que as pessoas possam se expressar melhor, principalmente no que se refere ao vestuário. Estamos constantemente adaptando-nos as novas mudanças no ambiente em que vivemos segundo Naharro (2012).

Maffesoli (2004), fala sobre a relação entre as tribos, a moda e a modernidade, e afirma que tudo isso se relaciona. Vemos manifestações mais evidentes de tribos em grande cidades, e que uma pessoa pode pertencer a uma ou mais tribos, podendo de manhã se vestir de uma forma e pertencer a um grupo e de noite em sua área de lazer passar a pertencer a outro. O autor sustenta, ainda, que os jovens usam desse artifício conscientemente, como maneira de autoafirmação, porém essas identidades são instáveis, tais como os símbolos da moda. Quando de fala de moda, o individuo que faz parte de determinado grupo pode querer se enquadrar, porém, também pode ter desejos de se destacar dentro dele.

Naharro (2012) salienta que, em cada tribo certamente vê-se um forma de caracterização especifica, porém, vemos como ponto em comum em todas as diversas tribos o fato delas se utilizarem do vestuário como forma de diferenciação dos demais e identificação dentro desse grupo. Contudo, não é possível caracterizar inteiramente um indivíduo, ou mesmo um grupo, somente pela forma da indumentária, pois até mesmo dentro de um grupo podem existir subgrupos, os quais podem atribuir significados diferentes à vestimenta usada por seus membros.

Contudo vê se que não é possível caracterizar um individuo somente pela tribo em que anda ou pelo modo de se vestir, vemos que muitos autores falam que as pessoas podem pertencer a mais de uma tribo da mesma forma que podem ter mais de um estilo ao mesmo tempo.

Por fim deixo um vídeo “Vestir Contemporâneo, a Moda da Contracultura” que esteve em exposição no SESC pompéia no ano de 2008.

 

 

Referências Bibliográficas

Arce Cortes, Tania. Subcultura, contracultura, tribus urbanas y culturas juveniles: ¿homogenización o diferenciación?. Rev. argent. sociol. [online]. 2008, vol.6, n.11, pp. 257-271. ISSN 1669-3248.

Barreiro, Ana Maria Martinez (2006) ‘La difusión de la moda en la era de la globalización’ Documentos: Journal of Sociology, ISSN 0210-2862, N º 81, p. 187-204

Maffesoli, Michael.(1996) No fundo das aparências. Tradução: Nizia Villaça. Rio de Janeiro, Editora Vozes Ltda (pagina).

Maffesoli, Michel.(2004) ‘O tempo das tribos. O declínio do individualismo nas sociedades de massa’. Rio de Janeiro, Editora Forense Universitária.

Naharro, García Fernando (2012) (Universidad Complutense de Madrid), “Cultura, subcultura, contracultura: „Movida‟ y cambio social (1975-1985)”. pg.301-310.

Torre, Sofia Raquel Dourado da. ‘Cultura de Rua e Espaços Plurais na Formação Artística: Investigação-Acção no 1º ciclo.’ Universidade do Minho – Braga, novembro de 2007.

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