Teoria feminista e a hibridez presente na metáfora do ciborgue

Lizbeth Kossmann

“No final do século XX, neste nosso tempo, um tempo mítico, somos todos quimeras, híbridos – teóricos e fabrica- dos – de máquina e organismo; somos, em suma, ciborgues”. HARAWAY (2009; 37)

A cantora e compositora Björk lançou em 1999 o vídeo clipe da música intitulada: “All is full off love” com direção de Chris Cunningham. Além da relevância e qualidade estética do trabalho que ganhou entre outros prêmios o “MTV Music Video Award”, o vídeo clipe nos remete a uma profunda e intrigante discussão a cerca da própria condição humana, em específico, da nossa paradoxal e dependente relação com a tecnologia e as máquinas. No vídeo clipe os robôs simulam um ato sexual a partir de corpos mecânicos, e sugerem uma relação da ordem maquínica. Um conceito que está fortemente presente no pensamento da autora americana Donna Haraway à saber, a metáfora do sujeito híbrido entre tecnologia e a natureza denominado de ciborgue.

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No ensaio “Manifesto Ciborgue: “Ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX”, HARAWAY (2009) reposiciona ontologicamente a ideia do “humano” na intenção de contribuir com a teoria feminista. Ao negar as essências únicas que categorizam os géneros, em específico, o género feminino, a pensadora atribui uma nova condição para o humano que está distante das subdivisões entre etnia, classe social, género e cultura. Para HARAWAY (2009) nós seres humanos passamos a ser “entes” híbridos cada vez mais distantes dos dualismos ao incorporarmos progressivamente o inorgânico e o artificial.

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Se observamos com atenção o vídeo clipe da cantora Björk os corpos mecânicos dos robôs parecem estar representando a figura orgânica do corpo feminino, ambos possuem seios e traços do corpo das mulheres. Porém, são constituídos de metal, peças de ignição e válvulas substituindo um corpo já desaparecido. Apenas simulacro. Dessa forma esta imagem representa uma quebra de barreiras em termos dos padrões dos relacionamentos sexuais vigentes. O nome da música “All is full off love”, ou, “Tudo está cheio de amor” serve também, como uma forma de protesto artístico que nos alerta para o tema das sexualidades e do lesbianismo.

Não conheço nenhuma outra época na história na qual tenha havido uma maior necessidade de unidade política, a fim de enfrentar, de forma eficaz, as dominações de “raça”, de “gênero”, de “sexualidade” e de “classe”. (HARAWAY 2009; 52)

O fato é que a construção imagética proposta pelo vídeo clipe se encaixa perfeitamente na metáfora do ciborgue enunciada por HARAWAY (2009) exatamente pela defesa do abandono das categorias que dão margem a continuidade do processo histórico de opressão. Os ciborgues são híbridos da máquina e do organismo, trata-se de uma existência que agrega tanto a imaginação, o pensamento, os conceitos, quanto o mundo corpóreo e a experiência de vida. Isso gera a negação de um conceito absoluto de “mulher” que possibilita pensarmos o género enquanto relação social, assim como as etnias, as orientações sexuais e as divisões de poder. A contestação do feminino como essência abandona uma ideia única de mulher englobando outras categorias que se relacionam com a de género e que, da mesma maneira, partilharam de uma histórica sociologia de dominação.

HARAWAY (2009) proporcionou um novo rumo norteador para as teorias feministas ao elucidar que a divisão de género como conhecemos hoje, ainda possibilita a inclusão e a exclusão. Sendo assim, torna-se uma alternativa a homogeneização da ideia de “mulher”. É preciso perceber que relacionado a este conceito, existe uma perspetiva complexa e multifacetada, as antigas categorias passam por um processo de intersecção que torna possível pensar o ser humano de maneira integrada, o que leva, se formos otimistas, a gradativa diminuição da opressão advinda das divisões sociais criadas a partir da categorização biológica.

Referências Bibliográficas

CAMARÃO, Mário. Corpos em pixels. Da ruína à utopia do pós-humano. Tese de Mestrado em Ciências da Comunicação, Braga, Universidade do Minho, 2005.

HARAWAY, Donna, Antropologia do ciborgue : as vertigens do pós-humano / organização e tradução Tomaz Tadeu – 2. ed. – Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2009. – (Mimo)

OLIVEIRA, João Manuel de. Os feminismos habitam espaços hifenizados – A Localização e interseccionalidade dos saberes feministas. Ex aequo [online].

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