Um mergulho no ecrã: o Google Art Project e a nova forma de experimentar as obras de arte

Por Luísa Kanaan (PG21728)

Para quem gosta de arte (ou trabalha com ela) conhecer os museus e suas coleções é fundamental, o que seria melhor então do que poder visitar museus de diferentes lugares e ver suas obras sentado em frente ao computador? Foi essa a ideia do Google Art Project (GAP) ao reunir em um mesmo sítio na web obras e coleções de cerca de 230 museus em 40 países. O projeto promovido pelo Google Cultural Institute é uma plataforma relativamente nova, lançada em fevereiro de 2011, que ainda está em processo de busca de novas instituições parceiras. No total já são 40 mil obras em alta resolução sendo que parte delas está disponível em gigapixel (formato que permite grande zoom).

Esta é a página inicial do Google Art Project onde há sugestões de coleções a serem visitadas

Esta é a página inicial do Google Art Project onde há sugestões de coleções a serem visitadas

A ideia em si, de fazer um catálogo digital de obras, não é muito original, mas o GAP traz novidades. Além de reunir todas essas instituições em um mesmo site, também é possível pesquisar obras de arte de interesse a partir da coleção onde ela está, pelo nome do autor, da obra, da coleção e até do período em que se insere. O projeto ainda disponibiliza exposições de acervos cujas peças nem sempre estavam para apreciação pública, como as cartas de Nelson Mandela da prisão, uma exposição La Dolce Vita da Itália (que traz vídeos, imagens e textos sobre essa época), uma exposição sobre o Holocausto e também a digitalização de manuscritos bíblicos. Há ainda a possibilidade de compartilhar com outros usuários cadastrados no site, as exposições que o visitante mais gostou.

Exemplos de exposições históricas que podem ser visitadas

Exemplos de exposições históricas que podem ser visitadas

A grande mudança que o Art Project traz, porém, se refere à interação do visitante com a obra de arte: é possível aproximar-se da peça artística (tela, escultura, tapeçaria, etc) ao nível da pincelada, do ponto da costura. O GAP ainda tem em cada obra um texto relativo à sua época e motivação e um link para o site do museu onde ela está exposta. Em obras com mais visibilidade é possível aceder a um vídeo em que há explicações sobre a mesma. Isso modifica a experiência que o visitante tem com as obras de arte – uma interação através do site que não teria se estivesse fisicamente em um museu.

Exemplo de como é a página onde vemos a obra, suas informações e o zoom

Exemplo de como é a página onde vemos a obra, suas informações e o zoom

Arquivo Digital

A questão da publicação de manuscritos e outras peças que não estão abertas para a visitação pública em formato digital no Art Project levanta uma proposição apontada por John Driscoll (1994) sobre fotografia e arquivos digitais: que essa imagem não tem imperfeições e é uma reflexão do real que é capaz de enxergar até o que o olho nu não enxerga, sendo um exemplo da verdade apesar de não sê-la, de ser um simulacro. Desta maneira, o que o visitante do GAP vê é uma espécie de clone da obra real e por estar em formato digital, segundo Etienne Samain (1998), referenciado por Pimenta (2004), seu caráter e a significação estão associados ao meio em que ela está e definem como ela – a obra em formato digital – é apreendida. Em outras palavras, quando uma obra de arte é ou passa a ser um arquivo digital, sua forma de apreensão é modificada. Para Driscoll (1994), as imagens digitais fazem com que a obra circule mais e assim ganhe mais importância e valor, além de não sofrer perdas físicas inerentes à exposição.

Digital images are simulations. In their structure are imbedded the codes that allow them to be materialized in an infinite variety of ways. They can also be interpreted, known, and understood in as many ways. They have potentially unlimited value in this regard. Like the culture with no museum, they are illuminations of evidence that are common to the culture. (Driscoll, 1994: s/p)

Uma fruição diferente

De acordo com uma matéria publicada no site do jornal brasileiro Folha de São Paulo, no dia 15 de abril deste ano, a obra mais acessada do Google Art Project era O quadro “Noite Estrelada”, do pintor holandês Vincent van Gogh, segundo comunicado divulgado pelo site. O artigo ainda traz a informação de quanto tempo os visitantes dispensam para apreciar a obra e o resultado é que eles, de acordo com a Google, “passam em média um minuto vendo cada pintura, ao contrário dos 20 segundos que um visitante leva, em média, para apreciar cada quadro em um museu”. Esse resultado parece estar apontando para uma maior preocupação do público em apreciar a obra de forma digital diferente do que acontece nos museus físicos, onde, conforme Lipovetsky quando trata da memória em tempo de hiperconsumo:

As obras do passado já não são mais contempladas em recolhimento e silêncio, mas ‘deglutidas’ em alguns segundos, funcionando como objeto de animação de massas, espetáculos cativantes, maneira de diversificar o lazer e de ‘matar’ o tempo (Lipovetsky, 2011: 93)

O autor desse modo aponta que o que acontece com o passado hoje é um “consumismo experiencial”, a “transformação da memória em divertimento-espetáculo”.

O site do jornal português Público, também em 15 de abril, traz reportagem sobre o número de museus participantes do GAP e dentre eles há apenas um português – e ainda a lista das obras mais vistas no Art Project. Nas obras que estão no topo de views, é possível dar imenso zoom na peça, encontrar vídeos que explicam mais profundamente a obra, o trabalho do autor, além de possíveis interpretações do significado das peças. Esse formato de interação com a obra e informações relativas a ela trazem uma nova forma de fruição:

The collection-by-collection approach to creating digital museums will be an interesting literal interpretation of post-modern deconstructionist theory. The collections themselves will be fragmented and the viewer can actually take digital information apart and put it back together fragmenting it further, reconfiguring it to create new meaning. (Driscoll, 1994: s/p)

Essa nova forma de fruição é típica da contemporaneidade, com todo o excesso de informações, mas também com tecnologias que, conforme Driscoll (1994) ressalta, são capazes de tornar o ordinário extraordinário. Medeiros (2011) aponta que iniciativas como a do Google Cultural Institute são formadoras dessa nova fruição:

O Google Art Project, com seu olho que escaneia milimetricamente a epiderme da obra de arte, transforma o contato mediado numa experiência mais íntima que a relação direta olho/obra e isso sugere, dentre outros, a superação da experiência estética como algo da ordem do presencial e do sensível, da relação de contiguidade entre sujeito e objeto. Com o Google Art, nunca a obra esteve tão desnuda e apetitosa como agora e talvez pela primeira vez nós, fruidores, tenhamos a chance de abandonar o papel de meros espectadores dos prazeres alheios (Medeiros, 2011: 1920).

É possível se perguntar se o GAP poderia tirar visitantes dos museus, mas como afirma Driscoll (1994) é justamente o digital que faz se ter mais apreço pelo analógico, pelo feito a mão. Por fim conclui-se observando que uma visita a um museu físico proporciona um tipo de relação entre o visitante, a obra e o ambiente (sendo este sujeito ao que o curador pensou para a exposição) enquanto que em um museu digital, como o GAP, há outras possibilidades de interação: como ver as exposições de uma instituição que está em um país distante e conhecer seus corredores através de uma reprodução fotográfica do local e ainda a possibilidade de saber mais sobre a obra de arte sem a necessidade de um guia.

Fica ainda, a dúvida sobre qual é exatamente a experiência que o visitante tem ao ampliar as obras de arte de forma que ele não veria no museu físico, mas toda essa experiência diversa que o museu digital proporciona pode levar a pensar em uma ideia de hiperrealidade.

Referências bibliográficas

DRISCOLL, J., 1993 ‘Objects Within Objects’ Aperture Magazine, Fall, 1994 [online] Disponível em: http://www.mit.edu/~bhdavis/DigitalMus.html

Google Art Project – http://www.google.com/culturalinstitute/about/

LIPOVETSKY, G., e CHARLES, S., 2011. ‘Os Tempos Hipermodernos’ Lisboa: Edições 70

MEDEIROS, A., 2011. ‘Redes sócio-virtuais: (in) corporificações, (des) identidades, estilhaços e estéticas da transfiguração’. Anais do 20º Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas, Rio de Janeiro. [online] Disponível em: http://www.anpap.org.br/anais/2011/pdf/chtca/jose_afonso_medeiros_souza.pdf

PIMENTA, C. H. G., 2004 ‘Imagens, significação e arte: uma aproximação teórica e metodológica [online] Disponível em http://www.bocc.ubi.pt/pag/pimenta-carlos-texto-significacao-arte.pdf

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