Kids: A juventude sob o olhar de Larry Clark

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Por: Adriano Padilha – PG21726

Nascido em 1943, Lawrence Donald “Larry” Clark é um realizador, fotografo e escritor americano que ganhou notoriedade no campo das artes contemporânea após dirigir a sua primeira longa-metragem: Kids, em 1995, estabelecendo a sua reputação como um dos cineastas mais polêmicos e influentes do nosso tempo.

Larry Clark, no entanto, iniciou seu trabalho e definiu sua linguagem verbal como fotografo, um dos mais influentes na renovação do realismo americano. Em 1971 lança Tulsa, seu primeiro livro, com fotografias feitas em sua cidade natal (que leva o nome do livro) e mostra o cotidiano de viciados em drogas, criando um ensaio autobiográfico que nos remete às suas próprias experiências nos anos 60.

O retrato, a oposição entre a pose a o instantâneo e a complexa relação fotógrafo-fotografado é algumas das questões mais importantes que podemos identificar nas imagens feitas por Clark.

Sobre seu trabalho, Clark diz:

“Eu não tento ser controverso, eu apenas tento ser honesto e dizer a verdade sobre a vida. Vindo do mundo da arte, eu nunca penso que há coisas que você não pode fazer ou mostrar. Eu acho que os filmes de Hollywood são realmente subestimar seu público. Eu fui um artista por muitos e muitos anos. Eu não estou interessado em fazer filmes para ganhar dinheiro. Estou interessado em fazer o trabalho que eu estou satisfeito, mostrando a vida das pessoas que não são mostrados. Se eu pudesse ver isso em qualquer outro lugar, eu não teria que fazer esses filmes” (Larry Clark)

 

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Sobre o cinema contemporâneo

Sob o sentido da impressão da realidade, o cinema tornou-se uma ferramenta linguística que possui diferentes possibilidades de representações sobre opiniões e realidades distintas, estas, inteiramente ligadas aos contextos socioculturais aos quais são inseridos ou pertencem. Nos filmes podemos encontrar características que identificam épocas, ideologias, políticas, movimentos, culturas, estereótipos, etc., estabelecendo sintonia com os indivíduos.

Dessa forma, o cinema não “escapou” de ser um instrumento ou umas das artes que foram (e são) determinantes na estruturação de produções artísticas representantes da atualidade, em conjunto com a pintura, a literatura ou a arquitetura, “a teoria contemporânea do cinema deve necessariamente confrontar os fenômenos abarcados pelo escorregadio e polissêmico termo ‘pós-modernismo, um termo que implica a ubiquidade global da cultura de mercado.” (STAM, 2009).

Kids: Retrato da juventude no cinema contemporâneo

Lançado em 1995, o filme Kids teve sua história baseada nas ideias de Larry Clark em conjunto com Leo Fitzpatrick e Jim Lewis, e o roteiro escrito por Harmony Korine. Com a produção do renomado cineasta Gus Van Sant, Larry pode servir-se de uma apresentação no circuito cinematográfico internacional, porém o filme trouxe mais aversões do que uma “boa” fama mundial. A polêmica surge ao redor do filme, pois, este, retrata, sem “filtros”, a realidade de um grupo de adolescentes que passam a maior parte do dia preocupados em se divertir, consumir drogas, fazer sexo ou orgias sem qualquer tipo de proteção, em desrespeitar regras ou leis, num enredo onde as questões morais são colocadas em discussão e sem “final feliz”.

De maneira agressiva, Larry Clark buscou instigar os espectadores com a realização desta película, mostrando situações pouco conhecidas, não visando somente o comercial, como também em provocar uma reflexão sobre o comportamento dos jovens numa sociedade contemporânea. Em lugar de responder perguntas, o cineasta levanta questionamentos morais e sociais com imagens fortes, envolvendo na vida dos personagens: sexo, drogas, intolerância, mentiras e violência.

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O contemporâneo em Kids

Assim como o Cinema Moderno trouxe importantes questionamentos sobre a sociedade, o Cinema Pós-Moderno também traz, porém numa forma diferenciada. O mundo contemporâneo tornou-se fragmentado, onde as lutas sociais e ideológicas se dilaceram em interesses individuais, onde as utopias políticas ou culturais se encontram perdidas ou divididas. As opiniões e ideias se dividem em expressões artísticas que se encontram efêmeras diante da sociedade e das mídias.

Sendo assim, em Kids, Larry Clark apresenta os jovens de maneira “violenta” e faz um recorte sobre o que são esses jovens e como estes se comportam perante a sociedade em que vivem. O filme nos proporciona uma visão particular e fragmentada dos adolescentes como característica do cinema pós-moderno e essa visão de Clark é clara sobre um fragmento da sociedade que se difere de um todo, mas que não deixa de ser real. 

“De modo geral, o pós-modernismo traz o primeiro plano a natureza fragmentada e heterogênea da identidade socialmente construída no mundo contemporâneo, onde a subjetividade se torna ‘nômade’ (Deleuze) e ‘esquizofrênica’ (Jameson)” (STAM, 2003).

Se acompanharmos Kids desde o começo até seu fim, observamos essa visão centralizada mencionada antes, há uma “concentração” nos jovens personagens e não há paralelos nos acontecimentos durante o filme. A narrativa conta a história em sequências “cortadas” ou fragmentadas que dão continuidade sempre para situações em que os adolescentes estão envolvidos. Ou seja, em sumo, sempre temos imagens dos personagens tendo relações sexuais, conversando com os amigos sobre os mesmos assuntos, consumindo drogas, andando pelas ruas, divertindo-se, sempre juntos e apenas isso, não há algo além. 

Em Kids, Clark realiza um recorte de geração em que prevalece o enclausuramento.

Ao supostamente buscar uma interferência constante do meio ambiente dentro do filme, ou, mais até do que isso, ao querer simplesmente atualizar o mundo dos jovens no seu filme, um mundo que já existia independentemente dele, Clark acabou trancando a adolescência nova-iorquina numa câmara de aniquilamento onde a ordem de tiro vem simultaneamente de dentro e de fora. (OLIVEIRA, 2004).

Como já foi dito, a narrativa mostra os jovens de forma realista. São apresentados de maneira suja, em algumas sequências, os personagens aparecem cuspindo, nas cenas dos beijos e das relações sexuais, há uma estética contrária ao padrão cinematográfico, os atores estão suados e os sons enfatizam a realidade dos atos. Toda a narrativa dá continuidade a essa estética grotesca, agressiva e naturalista. Porém é uma representação cinematográfica propositalmente pensada e pré-fabricada, para caracterizar uma originalidade na obra. O roteiro, os estilos linguísticos nas falas das personagens, ou seja, as gírias e as roupas, os gestos, as atitudes, fazem parte de um trabalho de pré-produção, que foram utilizados para se criar uma expressão visual preocupada em representar um grupo ou uma geração de jovens, como também em expressar as ideias e opiniões relevantes do diretor.

A determinação de uma estética diferenciada não é característica do acaso, do imprevisto, mas claramente nota-se que foi uma preocupação do cineasta em caracterizar sua identidade no cenário cinematográfico. Como em seus trabalhos fotográficos, Clark já possuía a fama de utilizar expressões artísticas com conceitos realistas que retratavam realidades que poucos podiam suportar. 

“Em 1979, um amigo de Larry Clark pegou Tulsa, seu primeiro livro de fotografias, publicado em 1971, e o levou para mostrar a Andy Warhol, que olhou e falou: “Ah, real demais”. Além de perfeitamente compreensível dentro de sua proposta artística, o fato de Warhol ter rejeitado o trabalho de Clark (ao menos como passível de ser publicado em sua revista) por este ser demasiadamente “real,” ainda martela numa das grandes questões levantadas por Kids – ou seja, a do filme lidar com formas de representação naturalista e ser resultado de toda uma pesquisa comportamental e iconográfica desenvolvida por Clark”. (OLIVEIRA, 2004). 

Complementando esse pensamento, observamos que o diretor relacionou a narrativa com a linguagem de documentário, que de acordo com sua pesquisa comportamental e iconográfica, o fez para certamente afetar os espectadores. A escolha de atores não profissionais e a estética realista como já mencionamos, em exemplo, nos personagens sem maquiagens ou nos movimentos de câmeras rápidos e solos, às vezes sem um ângulo determinado, mostram a proposta de Kids em ser diferente, em comparação aos filmes comuns deste gênero.

É uma mudança forte em relação à visão mais comum do adolescente no cinema. A começar pelos atores não serem profissionais e possuírem a mesma idade de seus personagens, o filme desconstrói a visão romântica do adolescente mostrado por Hollywood ou pelos seriados de TV, e que geralmente é interpretado por atores de vinte e poucos anos e sempre vivem dilemas típicos de fase de transformação. Na verdade, o trabalho com rostos desconhecidos é crucial para a proposta do filme de Clark: “mostrar uma adolescência que não está sendo vista, que é negligenciada pelos adultos, uma geração-fantasma” (OLIVEIRA, 2004).

A globalização e o declínio das esperanças utópicas revolucionárias ao longo das últimas décadas levaram a um remapeamento das possibilidades culturais e políticas, uma diminuição das esperanças no campo do político. Desde a década de 1980, é possível constatar uma distância irônica e auto reflexiva da retórica revolucionária e nacionalista. (STAM, 2009). 

Outra característica presente está na abertura da película, com as principais fichas técnicas, os nomes dos atores, dos produtores e diretor, possui outra característica dos filmes pós-modernos. A linguagem de vídeo clipe, que se popularizou com o surgimento do canal norte-americano, o MTV (Music Television), é utilizada na abertura e em outras sequências do filme para dar significações e ritmos às imagens. Com uma música do gênero punk-rock, Kids é apresentado ao público com uma montagem audiovisual que representa os sentimentos presentes na narrativa, tendo em diversas cenas a aceleração na montagem, no uso predominante dos fundos musicais e assim como nas atuações dos atores, a linguagem de vídeo clipe.

Na contemporaneidade há pouco tempo para “respirar” e entender a linguagem por trás da narrativa, os enquadramentos de câmera não estão ali para explicar alguma coisa, estão para transmitir sensações, o que posiciona esta narrativa como sendo pós-moderna. As sequências seguem um ritmo rápido, para uma história de fácil compreensão, causando um prazer instantâneo e um show de velocidade.

Outros filmes que se seguiram como Bully (2001) e Ken Park (2002) levaram a MPAA (Motion Picture Association of America) Placa de censura para reagir, aconselhando os pais a “esconder seus filhos”. O novo filme de Larry Clark, Marfa Girl (2012), escrito e dirigido por Mr. Clark, continua a refinar a sua visão única da arte.

Referências Bibliográficas

Stam, R. (2009). Introdução á teoria do cinema. 3.ed. São Paulo: Papirus.

Jameson, F. (2007). Pós-modernidade: a lógica cultural do capitalismo tardio. 2.ed. São
Paulo: Ática

OLIVEIRA, L. C. (2004) KIDS. ContraCampo, n.59. Disponível em:
<http://www.contracampo.com.br/59/kids.htm&gt;. Acesso em: 20/06/2013

Larry Clark galerie – http://www.inhotim.org.br/index.php/arte/obra/view/217

Larry Clark site – http://press.larryclark.com/

 

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