Mafalda, heroína até aos nossos dias

Quem não conhece a Mafalda?

Apesar de ter nascido na Argentina há quase 50 anos, esta menina pequenina de laçarote ingénuo e vestido gracioso, não deixa ninguém indiferente ao seu inusitado espírito revolucionário. O mundo infantil da Mafalda não a impede de estar atenta a tudo o que se passa no mundo adulto, o qual expõe e critíca com uma genialidade paradoxal irresistível.

mafaldaA Mafalda é a heroína de uma banda desenhada humorística cuja singularidade reside precisamente no constante jogo de contrastes, visível desde logo, na capacidade crítica e reflexiva da sua personagem principal, que é uma criança, cujo alcance supera, não raras as vezes, a dos adultos (representados pelos seus pais).

Apesar da sua pouca idade, a Mafalda interessa-se por política e pela situação socioeconómica mundial, reivindica a emancipação da mulher e revolta-se contra as injustiças sociais. Ela repudia os males do mundo com a mesma relutância com que repudia sopa. Venera os Beatles com a mesma paixão com que exige um mundo  melhor.

Estão reunidos os ingredientes para a criação de uma obra de sucesso universal e atemporal. Tal sucesso deve-se ao talento do seu criador – Quino – que para além de ter tido a ideia, fez com que estes elementos aparentemente incompatíveis resultassem. Em vez de uma amálgama de componentes sem sentido, a banda desenhada da Mafalda, revela um mundo que, apesar de fictício, se alimenta do um diálogo permanente que mantem com o mundo real. Eis o segredo do sucesso. De que modo é que esse sucesso se mantem até os dias de hoje, é o que iremos desvendar, não sem antes perceber como tudo começou…

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Antes de existir a Mafalda, existiu o seu criador. Joaquin Salvador Lavado Téjon, filho de imigrantes espanhóis, nasce em 1932, na Argentina. É do seu seio familiar que emana não só o seu pseudónimo, como também o seu talento: chamam-no Quino para se distinguir o deu tio pintor e desenhista, Joaquin Tejón, com quem descobriu e desenvolveu desde os 3 anos a sua vocação.  Quino perde os pais muito jovem e abandona a escola de Belas Artes precocemente para dar início a uma luta de persistência pela concretização do seu sonho: ser desenhista humorístico. Para tal, muda-se para Buenos Aires, e é em 1953, que consegue a sua primeira publicação num semanário. A partir daí, multiplicam-se os trabalhos em diversos meios gráficos, o que o torna conhecido nacionalmente, e origina, em 1963, o seu primeiro livro – Mundo Quino – em forma de coletânea. É nesse mesmo ano que nasce a personagem que lhe garantiria fama e sucesso internacional: a Mafalda.

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A criação gráfica da Mafalda resulta de uma encomenda feita a Quino para a publicidade a uma marca de electrodomésticos – Mansfield – a qual acaba por não ser concretizada.

 Assim, Mafalda só é tornada pública um ano depois, em 1964, na revista Primeira Plana, com tiras semanais. No ano seguinte a Mafalda muda-se para o jornal El Mundo, com tiras diárias e acaba a sua exposição ao mundo na revista Siete Dias Ilustrados, 9 anos passados desde a sua estreia. Quer as revistas, quer o jornal que a deram a conhecer, tratavam de actualidades nacionais e internacionais, o que permitiu a Quino, reflectir sobre as inquietudes da época.

Não só a Argentina, mas toda a América Latina, vivia um período de grande instabilidade, sob a ameaça constante de golpes militares. A Mafalda cresce, assim, num país de grandes contrastes sociais e num mundo marcado por grande instabilidade. Assiste à invasão do Vietname pelas tropas americanas e à ruptura entre a URSS e a China. Perante tais acontecimentos, ela reage mostrando, sem pudor, todo o seu descontentamento. Sob a alça da franqueza e espontaneidade de uma criança, a Mafalda não se inibe de chocar o mundo com a sua simplicidade lógica e honestidade, abalando verdades tidas como garantidas.

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 Nos cerca de 9 anos de existência, os quadradinhos da Mafalda tiveram um enorme sucesso além fronteiras, sobretudo na Europa e na América Latina. Isso é tão evidente que até hoje são vendidos livros com antologias das histórias da Mafalda, que foram inclusivamente traduzidas em diversas línguas.

Para além disso, a crescente popularidade da banda desenhada, enquanto género artístico literário específico, acabou por despertar a curiosidade do meio académico que gradualmente passou a submete-la à análise científica.

 Actualmente há diversos estudos, sobretudo no campo da linguística e da semiótica, que vêm sendo enriquecidos sempre com novas vertentes e com novas visões.

Umberto Eco, filósofo e semiólogo, admirador de Mafalda (dedica-lhe um texto intitulado Mafalda ou a Recusa, datado de 1969 e publicado anónimamente no prefácio do volume Mafalda, a Contestatária), no seu livro Apocalípticos e Integrados, e a propósito da análise da produção cultural difundida massivamente, lança as bases para uma análise semiótica da banda desenhada.

Segundo ele, os elementos de linguagem da banda desenhada “compõem-se numa trama de convenções mais ampla, que passa a constituir um verdadeiro repertório simbólico” (Eco, 1979, pág. 144-145). Por força da sua constante utilização, estes elementos, convertem-se em códigos entendidos universalmente. Eles são essenciais quer para a integração dos signos gráficos, como a imagem e a linguagem escrita, quer para o desenvolvimento da própria narrativa. São eles: a moldura, o balão, as onomatopeias, as metáforas visuais e as linhas cénicas.

A banda desenhada, enquanto história narrada por meio de elementos verbais e visuais representativos de momentos significativos, constitui-se enquanto forma específica de arte sequencial. A este respeito, Umberto Eco estabelece uma interessante analogia com a edição cinematográfica:

“A montagem da história em quadradinhos não tende a resolver uma série de enquadramentos imóveis num fluxo contínuo, como no filme, mas realiza uma espécie de continuidade ideal através e uma factual descontinuidade. A história em quadradinhos, quebra o continuum em poucos elementos essenciais. O leitor, a seguir, solda esses momentos na imaginação e os vê como continuum.” (Eco, 1979, pág. 147)

Até à pouco tempo, a banda desenhada era considerada uma subarte, subliteratura, representando uma linguagem menor e assumindo um carácter de entretenimento apenas. É à medida que vai atraindo um interesse crescente dos leitores (públicos não exclusivamente infantis), que a banda desenhada ganha uma presença cada vez maior nos espaços culturais da sociedade e se vai consolidando enquanto objecto de estudo.

Enquanto veículo de comunicação, é inegável o seu alcance massivo. Por outro lado, aliado ao seu carácter de entretenimento, é evidente também a sua função informativa. Na verdade, as histórias de banda desenhada, revelam não só especificidades do contexto sócio-histórico sobre o qual incidem, como também ao retratar situações do quotidiano, expõem os costumes e ideologias da sociedade que representam.

No caso específico da Mafalda, por exemplo, a introdução de mais personagens na história (cujas características específicas podem ser encontradas aqui), para além de contribuir para um enriquecimento da temática, dos diálogos e do próprio humor, oferece ainda a garantia de uma maior representatividade social e humana, nas suas mais variadas vertentes ideológicas.

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Para além disso, (e no caso específico da Mafalda, é aí que reside a sua maior riqueza) a banda desenhada humorística, quando adquire um determinado nível de qualidade, convida não só ao riso, mas também à reflexão sobre questões basilares da sociedade. Quino define o humor presente na Mafalda, como humor humanista, nas palavras do próprio “os desenhos não produzem gargalhada imediata, mas devem ser observados com muita atenção, inclusive pensados.” (retirado do seu site)

Apesar da sua decisão de não desenhar mais tiras da Mafalda, reconhecendo que a sua missão tinha sido cumprida e não querendo cair na armadilha da redundância e repetitividade, em 1973 (data em que as personagens se despedem formalmente do público), Quino acaba por retomá-las, em favor desse seu carácter humanista. A sua missão é, desta vez, prolongada em favor de campanhas no âmbito dos Direitos Humanos e, sobretudo, dos Direitos das Crianças, colaborando com a UNICEF.

Para além desta participação Quino vê as suas tiras compiladas em diferentes volumes e edições especiais constantes,  publicadas um pouco por todo o mundo.

A Mafalda vê o seu mundo ser colorido e publicado a cores e chega a ser realizada, em 1992, por Juan Padrón, em Cuba, uma curta-metragem. Entusiasmado pela experiência, no ano seguinte, o realizador, associado a uma empresa espanhola, acaba por produzir episódios de um minuto de desenhos animados criados a partir das tiras da Mafalda.

Paralelamente, vão sendo atribuídos a Quino, prémios e diferentes distinções que consolidam o reconhecimento e prestígio mundiais, e que, ao mesmo tempo, mantêm vivo o inconformismo singular da Mafalda.

Inevitavelmente, por outro lado, o mundo da Mafalda também se deixou invadir pelas novas lógicas de mercado e desenvolvimento tecnológico em rede, resultando não só na proliferação de diferentes tipos de produtos de merchandising por um lado, e na sua presença oficiosa e oficial, nas mais diversas redes sociais, por outro. A Mafalda não só se mantém viva, com também está on-line.

Convido-vos pois, então, à leitura da Mafalda, para uma posterior reflexão, à custa de umas boas gargalhadas. As suas preocupações, interrogações e reinvidicações são de tal modo actuais, que chega a ser assustador pensar que evolução é esta, a que a humanidade se propõe, mas que tão tarda a chegar.

Bibliografia e fontes electrónicas:

Eco, Umberto (1979) – Apocalípticos e Integrados. São Paulo: Perspectiva.

Bueno, Maria Lúcia (2010) – Do Moderno ao Contemporâneo: uma perspectiva sociológica da modernidade nas artes plásticas.

http://www.rcs.ufc.br/edicoes/v41n1/RCSv41n1.pdf

Santos, Roberto elísio (2002) – Leitura Semiológica dos Quadradinhos.

http://seer.uscs.edu.br/index.php/revista_comunicacao_inovacao/article/viewFile/786/642

Site da personagem, Mafalda:

http://www.mafalda.net/index.php/pt/

Site do autor, Quino:

http://www.quino.com.ar/

 Ana Freitas

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