Public/Intimacy – o espaco publico e a espacialidade individual na exposicao fotografica de Sara Karpanen

O presente texto trata, de maneira breve, da exposiçao fotográfica realizada por Sara Karpanen, artista visual finlandesa, na cidade do Porto – Portugal.

A exposiçao, de nome Public/Intimacy, consiste em um trabalho fotográfico, com modelos/as voluntários/as que abriram, para as lentes da artista, suas cicatrizes. Cicatrizes visíveis, em diferentes partes do corpo, sao o destaque das fotos, mostradas sob distintos angulos. Apás a realizaçao dos ensaios, as fotos, em diferentes tamanhos, foram colocadas em algumas paredes da cidade do Porto, em locais que comumente denominamos “espaço público”: onde todos que ali passam podem ver.

A confrontaçao entre o espaço físico público (a rua) e os espaços privados subjetivos representados pelas cicatrizes, provocam diferentes reaçoes e levantam questoes. Utilizando de uma linguagem artística e montando a exposiçao em lugares que sao “de todos”, há uma possível quebra das barreiras e limites – subjetivos e objetivos – impostos pela existencia dos museus, por exemplo. Ao mesmo tempo, existe uma dimensao institucional que nao se quebra: a exposiçao tem um roteiro e, principalmente, uma autoria. A autoria nao está clara nas obras de arte em si, mas o projeto faz parte do currículo escolar universitário da artista, e há de se levar em conta esse ponto para analisar a exposiçao sob um ponto de vista mais sociológico.

Quase nao há como identificar os/as modelos/as presentes nas fotos. O anonimato das fotos sugere uma identificaçao generalizada: todos temos nossas cicatrizes, que muitas vezes sao parte indissociável da nossa construçao identitária ‘ seja ela uma auto-construçao ou uma construçao exterior (uma imagem). Este aspecto é potencializado pelo fato da exposiçao realizar-se nas ruas.

No que concerne ao espaço físico, sempre existe uma delimitaçao, ainda que o espaço público – as calçadas e paredes – ”sejam de todos”. As fotos concentram-se numa regiao da cidade que faz parte do cotidiano da artista, bem como dos que a rodeiam. Isto tem consequencias, pois leva uma carga de influencia sobre quem, de fato, passa por ali.

Algumas das fotos já haviam sido removidas. Entende-se que causaram algum incomodo, já que, de uma maneira ou de outra, alteraram a ordem visual, o cotidiano dali. Nao se sabe se foram removidas por possíveis ”proprietários” dos muros, por pessoas que gostaram das fotos e quiseram levá-las para casa… o que sabe-se é que elas foram vistas. Foram interpretadas, e interagiram com o ambiente e com as pessoas.

Houve, inclusive, um acontecimento curioso quando caminhávamos pelas localizaçoes das fotos com a artista na ”inauguraçao” da exposiçao. Na última foto visitada, constatou-se que havia sido removida. Alguns rapazes ali perto, vendo o grupo que procurava pela foto, abordaram-nos e solucionaram a questao: eles haviam trocado a posiçao da foto, da parede de uma lanchonete para a parede de uma casa em frente, que estava abandonada.

Essa relaçao é curiosa: as interaçoes potencias que a cidade recebe logo conectam-se com a ideia de abandono, falta de ordem, ausencia de autoridade instituída. A livre a mais espontanea interaçao torna-se, portanto, imoral, nao faz sentido. Este é o discurso do presidente da camara municipal do Porto para explicar a recente perseguiçao sistemática e cada vez mais intensa ao graffiti, mas também a qualquer forma de interaçao física que traga mudanças no que diz respeito à visualidade.

Isto conecta-se com alguns teóricos da antropologia, que chamam a atençao para a importancia que damos ao sentido visual, em detrimento a outros sentidos humanos (Jay Ruby apud. Ricardo Campos, 2011; Classen, 1997), e facilmente percebemos o quanto é estreita a relaçao entre a conformaçao da ordem e os aspectos visuais defendidos pela administraçao pública. Tal construçao ideológica, no entanto, nao surge e nem permanece estagnada. É compartilhada, e para averiguar tal afirmaçao basta fazer uma pergunta a diferentes pessoas: o graffiti é arte ou crime? Pergunta já batida e totalmente sem propósito, mas que traz, muitas vezes, respostas como: ”estes nomes que nao entendemos é vandalismo, mas os desenhos coloridos sao arte”. O que é compreensível é arte, e o que nao traz nenhuma associaçao óbvia (tanto sob um aspecto textual quanto iconográfico) é crime, é caos.

Mas entao, o belo é político? Qual é o ponto de encontro entre ética e estética?

A relaçao causa-efeito, sujeito-objeto, significante-significado, faz-se necessária na constituiçao do belo. A fotografia, nesse aspecto, é ”favorecida”: a representaçao do real é ”direta”, e, eainda que o olhar do artista imprima uma linguagem própria à foto, ela, por si só, nao choca, nao subverte.

Na faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, realizou-se posteriormente uma exibiçao das fotos tiradas durante a visita de ”abertura” da exposiçao. As fotos foram dispostas numa ordem cronológica, em sentido de narrativa, desde o início do processo de colagem das fotos nas ruas, até a caminhada, em sentido cronológico. Uma definiçao temporal do processo de construçao da arte, que imprime a relaçao tempo-espaço construída pela autora, mas que nao traduz a liberdade permitida justamente na descontextualizaçao do tempo e do espaço possibilitada pelo fato da exposiçao se realizar na rua.

Guilherme de Almeida Abu-Jamra

E4839

Bibliografia:

Campos, Ricardo, et. al. (orgs.). Uma cidade de imagens: produçoes e consumos visuais em meio urbano. Lisboa: ed. Mundos Sociais, 2011.

Classen, C. (1997), Foundations for an anthropology of the senses. International Social Science Journal, 49: 401–412. doi: 10.1111/j.1468-2451.1997.tb00032.x

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