Nova Joalharia– Uma extensão íntima da arte

Nova Joalharia – Uma extensão íntima da Arte

Alberto Campos Baeza escreveu um dia que “ (…) Pensar com as mãos, é a de tentar deixar claro que o labor… necessita tanto da cabeça como das mãos. A cabeça que gera  as ideias e as mãos que materializam aquelas ideias que se constroem”. Esta citação, inspirada no romance A Caverna de José Saramago, diz que os criadores têm como que pequenos cérebros na ponta dos dedos, vindo deste modo, ao encontro do conceito da nova joalharia, onde a fusão do trabalho do artífice, do designer e do criador acontece.

Sendo a Arte uma área de produção humana, dependente do livre pensamento, da criatividade e da experimentação, é uma forma de expressão e de comunicação com os outros e passível de provocar diferentes emoções. A joalharia contemporânea insere-se na perfeição nesta área, é igualmente uma forma de expressão e uma actividade de produção baseado no design, mas de fabrico manufacturado. Em simultâneo ou não, pode ser trabalhado em cada peça para além dos metais e pedras preciosas todo o tipo de material susceptível de ser transformado e manipulável, materiais naturais ou artificiais e alternativos como, madeira, borrachas, vidro, metais, resinas e outros materiais que permitam objectos únicos, com qualidade técnica e estética.

No entanto não é possível reflectir sobre a joalharia sem antes fazer uma breve reflexão sobre o corpo e a relação do homem com o seu corpo. Desde o início da humanidade sabe-se que o homem sempre sentiu necessidade de adornar o seu corpo com colares, brincos, anéis, pulseiras e acessórios para prender o vestuário. Não só para embelezar o corpo, mas sim com a intenção de protecção e poder. Os objectos de adorno do corpo tinham um carácter mágico e eram usados como forma de comunicação, uns para identificarem laços e uniões familiares, outros inseriam conchas de significado simbólico feminino para a fertilidade assegurando a continuidade da espécie, outros   dar força e energia,  como dentes e plumas de animais e outros adornos eram usados como distinção de poder e autoridade dentro das comunidades.

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Se pensarmos um pouco, ainda hoje existe pessoas que acreditam nestes amuletos e utilizam determinados talismãs neles próprios e nas crianças para protecção ou amuletos para a sorte no amor ou no dinheiro.

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À medida que as técnicas foram evoluindo, os materiais para produzir os adornos, também variavam. Inicialmente a natureza encarregava-se de fornecer as conchas, a penugem, ossos, dentes, sementes, caroços de fruta, madeira, …, só mais tarde surgem os metais e as pedras preciosas.

Segundo José Bártolo, a jóia existe com um valor simbólico e cultural, porque existe um corpo que se permite ser revestido. “A jóia é, aliás, o lugar simbólico do contacto, o seu simulacro (…). Através da jóia, o corpo ganha uma capacidade comunicativa nova, funcionando a pele ou a carne como suporte de objectos que transportam, codificados através da sua forma ou do material de que são feitos, determinados significados que determinam quem os usa.”

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Em algumas tribos africanas, o adorno é o próprio corpo trabalhado,  cortes na pele que depois de cicatrizados parecem renda, representando fases importantes na vida de uma mulher. Como os corpos andam nus, as cicatrizes tem uma função estética. As jovens só são consideradas  adultas e aptas para  casar quando toda a sequência estiver completa.

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Bunu, 15 anos, da comunidade Karo, Etiópia. 
A exibição de pequenas conchas, inseridas sob a pele, é um dos acessórios de beleza que deve também provar a resistência ao sofrimento. (In Marie Claire. Obra original:«In search of dignity» de G. Pfannmuller e W. Klein. Ed.francesa:”visages de dignité”, Gallimard.

Na verdade, muitas vezes a jóia vale mais pela sua dimensão simbólica do que pela sua função de uso. A jóia representa a presença simbólica de algo, de uma união, de um sentimento, simboliza a pertença a uma tribo/comunidade/cultura.  O corpo é um espaço de inscrição simbólica para o acessório, usado pela jóia como linguagem comunicacional simbólica e significado estético. Alguns artefactos produzem um impacto visual e social chocante, aderem ao corpo, adaptam-se aos gestos, movimentos e aparência, formam ou deformam, actuam como provocação de uma mutação polissémica. “O objecto que se transforma e o corpo que é transformado” (Baudelaire)

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“A arte está no deformar” Ettore Petrolini

Sobre os alargadores, sabe-se que tribos de diferentes origens geográficas acreditam que alargar orelhas e lábios pode ajudá-los a ouvir e a falar melhor,  outros é uma forma de se distinguirem de outras tribos. Julga-se que esta forma de se diferenciarem dos outros deve ter começado no Egipto antes do início da escrita. Actualmente em África, algumas tribos ainda fazem uso de grandes lip plates.

A Tribo Mursi na Etiópia, como noutras tribos, corta o lábio inferior para introduzir um prato até que o lábio chegue a uma extensão máxima, com o passar dos anos, vão aumentando o tamanho  até que a deformação atinja um tamanho exagerado. Para eles é símbolo de beleza.

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Se nos deslocarmos do contexto das culturas primitivas, esta forma de diferenciação, do ser diferente a partir do uso de artefactos no rosto e corpo, é também adoptado nos contextos urbanos mais desenvolvidos de forma a marcar uma posição num grupo ou comunidade.

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Em diferentes culturas e sociedades evoluídas, a jóia era também usada sobretudo por elementos de classes sociais e económicas mais elevadas e era uma forma de diferenciar o nível social. Mais tarde, o uso das peças de adorno generalizou-se e foi com a Revolução Industrial que nasceu uma nova classe social, os novos-ricos com possibilidades de adquirir peças que antes apenas as famílias mais abastadas conseguiam adquirir. Esta classe aumentou a exigência e ajudou à evolução da joalharia, surgindo novos artistas e novas tendências, bem como, a procura por novos materiais.

Apesar da tradição manter o fabrico de peças com metais e pedras preciosas, começa a surgir então novos desenhos rebuscados e a aparecerem peças com formas sinuosas com características da Arte Nova. Entre o período pós primeira guerra e segunda guerra surgem novos materiais e técnicas que originam um novo estilo, a joalharia moderna, um estilo mais moderado, diversificado com mistura de materiais, cores e formas já considerada arte.

Só a partir de 1960, a joalharia sofre transformações múltiplas e,  inspirando-se na arte conceptual, surge com uma nova linguagem, expressividade e criatividade. Desperta nos artistas mudanças criativas, uma ruptura com os conceitos cristalizados da alta joalharia, do ofício que trabalhava apenas os metais e as pedras preciosas e torna-se uma linguagem livre, conceptual, experimental, provocatória, expressando a personalidade do artista.

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Em 1964, Wendy Ramshaw e David Watkins, pioneiros da chamada Nova Joalharia, lançam no mercado uma série de jóias em papel recortáveis denominadas Something Special.

021Wendy Ramshaw’s  Paper Jewellery
022 SOMETHING SPECIAL paper pieces & OPTIK perspex range

Esta nova joalharia dá aos objectos de adorno, uma nova dimensão social e política, desafiando o estatuto da jóia clássica, enquanto objecto de luxo de acesso elitista, para acessórios realizados com poucos recursos, com materiais de uso quotidiano, restos transformados com nova função, acessíveis e apreciados por um público mais diversificado. A joalharia ganha assim um novo protagonismo em termos conceptuais, formais e materiais.

Uma conhecida galerista de Arte, Palma Bucarelli, em 1973 escreveu: “Na arte moderna, a joalharia tem um novo significado. Não é só um ornamento no sentido naturalista ou alegórico, mas antes o meio através do qual a obra de arte é posta em contacto físico directo com a pessoa.”

Em todo o mundo, redefine-se a relação da joalharia com o corpo. O exercício passa a ser a exploração e experimentação plástica e conceptual. Na joalharia contemporânea dá-se espontaneamente a fusão entre a joalharia clássica e a bijutaria, onde a utilização de vários materiais naturais e artificiais é possível, por exemplo, a mistura entre prata, plástico, vidro e croché, de rápida produção e acessível a todos. Pela sua unicidade, estes novos objectos são colocados no patamar da arte.

A partir dos anos 80, o ornamento acessível a todos e de produção rápida, assegura os seus propósitos dando lugar ao surgimento de artefactos pós-modernos de dimensões teatrais. Os autores desses artefactos, exploram diferentes materiais e formas como os filamentos de nylon, o papel, o PVC, a madeira, e fios de aço e demonstram que a produção da nova joalharia não exige o conhecimento do oficio de joalheiro, mas a necessidade do espírito critico, da criatividade e da imaginação para executar as jóias explorando as formas e a junção dos materiais.

“It was first published in 1985 and is a comprehensive survey of the beginnings of the contemporary jewellery movement from the 1960’s to the 1980’s. While contemporary jewellery has come a long way in the last 25 years (and a discussion of the definition of the “contemporary jewellery movement”) it presents work that still challenges current perceptions of what jewellery can be. As a young jewellery student, it taught me that jewellery didn’t need to be made from silver and gold…” Anna Davern

023The New Jewellery: Trends and Traditions by Peter Dormer and Ralph Turner
024Rose by Gijs Bakker: Colour photograph in laminated plastic 1983
025necklace by Stirling Clark: pasta, 1983
026Paper neckpiece by David Watkins: paper spiral 1983
027Bracelets by Caroline Broadhead: Nylon, 1981

…and that jewellery can make you think…

It also showed that jewellery could relate to the body in many different ways…

031Brooches by Otto Kunzli: Wallpaper, hardfoam, 1983

…and that jewellery can be theatre

032161 Neckpiece, veil by Caroline Broadhead: Nylon monofilament, 1983
http://annadavern.com.au/blog/e-g-etal-blog-post-1/

Ao contrário da joalharia clássica, a joalharia contemporânea usa o corpo como suporte e área de trabalho. De acordo com as opções técnicas e artísticas, o artista poderá seguir a vertente da joalharia de autor, que cria uma identidade, uma linha, ou a vertente experimental pela inquietação e a necessidade de fazer coisas diferentes, arrojadas, explorando consecutivamente conceitos, técnicas e materiais, dando ao seu trabalho a unicidade e excentricidade visível na arte em geral.

Criar novos objectos será sempre um desafio para os artistas, artífices ou designers dentro do actual contexto, onde a tecnologia e a informática predominam e onde a sociedade continua a valorizar as jóias com metais e pedras preciosas.

Na actualidade onde falamos tanto no ambiente, na sustentabilidade, nos recursos, na evolução da tecnologia e dos processos industriais, acredito que não há limites para a criatividade.  A tendência dos artistas, como já se está a verificar, é optarem por métodos de produção auto-suficiente, na maioria artesanal. O desafio será com menos meios e poucos recursos, transformar materiais e criar novos objectos em algo mais antropológico, próximo das pessoas, do quotidiano, de fácil acesso.

042 041 EN-Musubi 047 046 045 044 043vários artistas, fontes de imagens: Google Image

A nova joalharia não é mais do que o reencontro com a manufactura e o artesanato, é inovar e surpreender, recriar novos processos de elaboração e transformação dos objectos, incorporar e misturar novas técnicas e materiais de forma a dignificar e dar novo valor, nova forma de uso e nova função a objectos e materiais nobres e/ou pobres, é promover um diálogo entre o corpo e o objecto e permitir um novo olhar sobre o mesmo e sempre em perfeita sintonia com o corpo,  É ARTE.

Alguns vídeos de designers reconhecidos como joalheiros:

 Peter Skubic Show in Munich

http://www.youtube.com/watch?v=UD9-C3WM5GI

Nora Fok

http://www.youtube.com/watchfeature=player_embedded&v=UKGpsY8dNdQ#at=214

Yoko Izawa

http://www.youtube.com/watch?v=QGMqbttohf8

 Bibliografia:

Campos Baeza, A. (2011). Pensar com as mãos. Casal de Cambra: Caleidoscópio

Codina. Carles. (2000). Joalharia. Lisboa: Editorial Estampa, Lda

Codina. Carles. (2009). Nova Joalharia, Um conceito actual de joalharia e bijuteria.. Lisboa: Editorial Estampa, Lda

ESAD, 2nd Skin Cork Jewellery, (2007). Porto: marca-ag.com

Jewelry Design (2008). Daab gmbh Stuttgart. Los Angeles

http://annadavern.com.au/blog/e-g-etal-blog-post-1/

Fontes de imagens: Google Image

Ana Paula Allen – PG21727

Sociologia e Semiótica da Arte

Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura 2013

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