Um Ponto de Vista na Construção de uma Linguagem Visual e Identitária

por Cristiane Souza Lago

 

Uma linguagem comunicacional face a diversos aspectos como a cultura e a imagem tem papel fundamental na construção identitária visual. Um segmento comum a todos que, desde suas próprias perspectivas, abordam a linguagem é afirmar a importância crucial e essencial do próprio homem. O homem simplesmente não existe sem a linguagem, mas a linguagem pode ser vista de pontos de vista diferentes. As pesquisas sobre ela estão ligadas ao espírito da revolução tecnológica e não são raros os estudos e investigações nessa direção.

A revolução dos computadores, associados às novas tecnologias digitais e de telecomunicações, e o consequente predomínio dos meios de comunicação na sociedade e de suas visões de mundo, atendem, sobretudo, aos negócios humanos. As linguagens artificiais estão a serviço da substituição do trabalho humano na produção das riquezas materiais; salto fenomenal para este instrumento conceitual admirável, que é linguagem e suas combinações infinitas. Na atualidade, não há lugar que não seja varrido pela lógica implacável da precisão digital das operações do mundo. É este traço de racionalidade lógica que atravessa todas as atividades e relações humanas. O pensamento racional grego ganha todo o esplendor com as máquinas a serviço do homem e da sua aventura na Terra. O encontro homem-máquina ganha contornos que começam a questionar a própria natureza do homem.

Atrelado a esse contexto, no texto “O Artista como Etnógrafo”, Hall Foster fala da cultura da alteridade como “objeto de contestação contínua a ser em larga medida a instituição burgueso-capitalista da arte (o museu, a academia, o mercado e os media), as suas definições exclusivas de arte e de artista”. E num outro momento, cita o Proletkult, um movimento social que teve lugar na antiga União Soviética, no início do século passado, que significa “cultura proletária”. Este movimento, criado pelos operários e que tinha como base o trabalho coletivo, contribuiu para desenvolver uma cultura inteiramente proletária, tentando superar a arte e a cultura burguesa. O Proletkult objetivava incentivar o surgimento de artistas advindos da classe operária e diretamente ligados ao trabalho braçal.

E a partir desse movimento organizacional, surgiu o trabalho de Serguei Eisenstein que, dentro daquilo que propunha a chamada “cultura elevada”, desenvolveu alguns trabalhos de destaque. Entre eles o filme “A Greve”, visto como uma experiência visionária, recria a greve de 1912 que ocorreu em Tsarist Russia. Narrando uma história policial, o filme foi considerado um acontecimento cinematográfico, revolucionário e único.

 

greve2  “A Greve” (1924 – Serguei Eisenstein)

 A busca pela linguagem, como sabemos, não se dá a partir de agora e a preocupação do homem é o grande mistério em que consiste o mundo das palavras e das coisas. O raciocínio lógico da mesma nos direciona a modelos para as linguagens artificiais. As atenções voltam-se, então, para o mistério do sentido guardado no texto, que precisa ser decifrado para ganhar “vida”.

A linguagem contribui para o desenvolvimento de reflexões teóricas e práticas sobre espaço num contexto cultural-artístico-reflexivo. E Foster, no texto já citado, também aborda a ideia de lugar, não enquanto fantasia cultural, mas sim enquanto lugar representativo da fluidez da cultura e procura reformular a hegemonia do visual e converter a ideia do percetivo na do multi-sensorial. Além disso, o autor também faz uma crítica da representação referente designadamente no que diz respeito ao confinamento da identidade a sistemas de imagem e o excessivo valor das representações (visuais ou narrativas) em relação à experiência.

A Imagem é uma notação significativa de espaço. O espaço que guarda uma memória, o tempo de sua apresentação e aquilo que se mostra, delimitado por um espaço limitado próprios da imagem gerada. Este espaço se apresenta nos limites de uma borda, que não diz respeito apenas ao papel, mas à história como imagem escolhida e da qual escapa todo o restante do conteúdo, que se faz resto. Espaço perpassado, inicialmente, por um contexto de caráter imediato.

Podemos considerar a procura pelo que não se faz presente de forma positiva, mas que se movimenta para a construção de algo na sua reconstrução histórica e de ressignificação. O tempo é por um lado próprio e por outro lado impositivo de uma significação para além do seu desejo, é marcação de uma escolha e de uma impossibilidade de escolha plena frente à história coletiva, mais do que isso, o tempo é marca de um poder interno ao próprio sujeito, mas aleatório às suas demandas conscientes, está guardado na delimitação da imagem.

A utilização de recursos tecnológicos, nesse sentido, ganha vida apenas quando promove diálogos com discursos e pesquisas voltadas para os processos de integração do conhecimento humano. E nesse sentido, podemos citar uma abordagem de Pierre Lévy:

 

A informática não tem uma identidade estável, porque, longe de serem exemplares materiais de uma idéia platônica imutável, os computadores são redes de interfaces abertas a conexões novas, imprevisíveis, que podem transformar radicalmente a sua significação e a sua utilização.

 

Tomar a hipermídia como portal para as discussões sobre a cultura regional, ancorada a aspectos interpretativos, nos leva a uma compreensão dos fenômenos artísticos – enquanto construções elaboradas do imaginário social, cultural e digital de modo que possa contribuir para cruzamentos férteis com outras iniciativas que compartilham interesses semelhantes.

Ao executar uma leitura de produtos hipermidiáticos, buscando elementos sinalizadores de uma identidade cultural, e partindo da premissa de que “os pontos de vista que nós emitimos não são universais”, podemos dizer que, de certa forma, a cultura deixa de ser um sistema simbólico ordenado com valores morais e institucionais, e passa a ser compreendida como ocorrência dinâmica em processos comunicativos e sistemas de significação. Os objetos que circulam entre os sujeitos humanos são entidades construídas no contexto da prática cultural e só neste contexto adquirem seu valor.

Com isso, é importante observar que existe uma evolução tecnológica que está ligada diretamente aos meios como os homens comunicam-se entre si. As mudanças delimitadas por uma cultura digital, que modificam as formas de comunicação e reconhecimento da informação, criam um novo mundo que, por sua vez, transforma nossa conexão com a linguagem através de instruções destinadas como formas de expressão e interpretação das mensagens.

 

 

REFERÊNCIAS

AUMONT, Jacques. A imagem. Trad. de Estela dos Santos Abreu. Campinas, SP: Papirus, 1993.

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede – A era da informação: economia, sociedade e cultura; v. 1. Tradução: Roneide Venâncio Majer. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1999.

GIANNETTI, Cláudia. Estética Digital – Sintopia da arte, a ciência e a tecnologia. Belo Horizonte: C/ Arte, 2002.

LÉVY, Pierre. As Tecnologias da Inteligência – O futuro do pensamento na era informática. Lisboa: Instituto Piaget, 1990.

MERLEAU-PONTY, Maurice. A linguagem indireta e as vozes do silêncio. Tradução de Pedro Sousa Morais. São Paulo: Abril Cultural, 1980.

O Mestre do Cinema Soviético – Serguei Eisenstein e seu cinema revolucionário – Parte II em: http://www.pco.org.br/conoticias/ler_materia.php?mat=4294.

Proletkult – Blog Persona, post de 10 de Dezembro de 2006. em: http://joseames.blogspot.com/2006/12/proletkult.html.

Vídeo: Democratização Proletkult em: http://www3.brasildefato.com.br/v01/impresso/anteriores/jornal.2008-04-22.9473070268/editoria.2008-04-28.5020771457/materia.2008-04-30.8352870899.

FIGUEIREDO. Carlos Leandro. SERGEI MIKHAILOVITCH EISENSTEIN – Vida e Obra em: http://www.ipv.pt/forumedia/5/20.htm.

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