A arte de rendilhar palavras e emoções

Excerto obra de Vergílio Ferreira “Do Mundo Original” 2 3

Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve.

Virgílio Ferreira, in “Escrever” 1

Os pensamentos e as emoções nuas são tão frágeis como os homens nus de todo. Temos que vesti-los.

Paul Valéry, in “Apontamentos. Arte, Literatura, Política & outros” 2

 

Todo o ato de comunicar – oralmente, por escrito ou por outras demais formas – pressupõe um conjunto de preceitos e conteúdos estilístico-normativos que projeta a mensagem para territórios sensíveis de propensa fertilidade cognitiva, justamente porque o terreno do texto vive da mobilidade das fronteiras, tanto como do reconhecimento do seu peso; da sua atenção ao que solicita o terreno da especulação sob o signo da novidade (Buescu, 2008: 79). Aceita, pois, ser a língua um infindo instrumento de ordenanças e receitas de cuja natureza se orienta para uma construção íntima, baseada numa partilha feita exteriormente, como se fosse uma arte de trasfegar a realidade várias vezes sobre si mesma – tal como fazem as rendilheiras ao cruzar os bilros. A língua, tal como uma renda, é como um círculo abstrato de verdades, fora do qual começa a depositar-se a densidade de um verbo solitário (Barthes, 1997: 17), e apercebemo-nos, desta forma, da perene necessidade de decifração através da emotividade que cada mensagem invoca e evoca em cada indivíduo, posto que um determinado discurso não é mais do que um produto que entregamos à apreciação dos outros e cujo valor se define na sua relação com outros mais raros e mais comuns (Bourdieu, 1998: 75).

Neste sentido, face às múltiplas e diversas naturezas de cada discurso, são facilmente detetáveis certas características, relativamente estáveis, que confirmam a grande complexidade e, desta forma, comunicabilidade de um discurso, uma vez que a materialidade escritural, fónica e gestual da linguagem demonstra que ela é um sistema complexo de elementos e de relações, através do qual o sujeito ordena o real (Kristeva, 1999: 46). As sequências textuais prototípicas, sendo abstrações que estremam a organização da mensagem num determinando texto, são em certa medida os pontos luminosos que medeiam cada traço na formulação da constelação linguística que o sujeito escolhe para anunciar a sua verdade ou ideia de verdade.

Podemos considerar as seguintes sequências textuais prototípicas: a sequência narrativa, a sequência descritiva, a sequência argumentativa e a sequência explicativa. Vários discursos são feitos na predileção de uma ou outra sequência, suprimindo as restantes, daí se verificarem os diferentes sentidos e abordagens que cada discurso apresenta enquanto intencionalidade comunicativa, i.e. enquanto, por exemplo, um texto de cariz político se foca mais na sua natureza argumentativa, revigorada por uma sequência descritiva, um texto de estirpe publicitária, ao invés, baseia-se mais numa sequência descritiva, reforçada por uma sequência argumentativa. Nesta lógica, podemos entender que nos diferentes géneros narrativos – textos ficcionais, crónica, poesia, ensaio, carta, diário, artigo científico, sermão, blogue, etc. – subsistam em maior intensidade certas sequências em detrimento de outras, na certeza de que uma frase não é constituída por uma sequência de morfemas sem uma ordem combinatória, sem uma coesão e coerência textuais. Contudo, podemos observar a utilização de várias sequências num mesmo texto, no mesmo plano mareante que é esse mesmo texto, dado que o seu corpo é um barco que o próprio mar modela (Rosa, 1997: 76).

No texto ensaístico em apreciação “A Arte e os Sentidos”, de Vergílio Ferreira, podemos verificar que a sequência textual narrativa, nas suas diferentes fases ou macroproposições, identificável pela sua dinâmica temporal, em frases curtas, sem grandes adjetivações, uma vez usada em textos de cariz narrativo, tais como as obras ficcionais, romances, contos, fábulas, etc., não se verifica, visto não haver narração de factos nem acontecimentos que propiciem um enredo. Como sequência descritiva, onde se verifica a ordem hierarquizada de descrições, embora, neste exemplo, numa enumeração de natureza numérica e sob categorias qualitativas – onde podemos usualmente observar a ocorrência de quatro fases: a identificação, a listagem, o relacionamento e o encaixe – refere-nos o texto esta manifestação, por exemplo, no terceiro parágrafo: “em primeiro lugar, os três sentidos excluídos […]; em segundo lugar, os sentidos como o cheiro…”. Já a sequência explicativa, normalmente confundida com a sequência argumentativa, visto usarem ambas um método inferencial e se verificarem em relações de causalidade, destaca-se por se centrar num domínio ideacional ou referencial da linguagem, visando, assim, através dos seus três momentos (questionamento, resolução e conclusão) conceber uma explicação cabal e entendível da ideia base (por exemplo, no parágrafo sétimo: “Imaginemos que o homem, tal como é capaz de apreender várias cores…”). Relativamente à sequência argumentativa, atravessa todo o texto em apreço (por exemplo, no sexto parágrafo: “A arte do cheiro só é inviável, como não é a da vista e do ouvido…” e ainda no nono parágrafo: “É evidente que tais aromas podem desencadear e desencadeiam reações emotivas…”).

Nesta sequência, podemos verificar que se procura convencer o leitor da ideia que propõe o autor através do relacionamento dos argumentos, estruturados hierarquicamente e validados por um conjunto de informação paralela de que se serve o autor para vingar a sua teoria, podendo ser feita, através de dois processos: em sentido lato, quando se propõe ou refuta uma tese (por exemplo, no parágrafo sexto: “Sem dúvida, Hegel tem razão quando nos frisa que os sentidos não podem veicular a arte…” e ainda “mas errou, segundo penso, se supôs que o olfato…), e em sentido restrito, quando uma organização de informação se opõe à atividade narrativa, bem como à descritiva e à explicativa. Pressupõe esta sequência uma validação racional feita através de premissas que conduzem a uma conclusão conivente pela lógica (por exemplo, parágrafo décimo: “da vista, não, pois o ler implica ouvir, e a leitura pode ser substituída pela audição”).

Podemos concluir que um texto é um corpo vivo, amplamente rendilhado por uma miríade de linhas e fios de raciocínios, que se manifesta nos seus mais ínfimos ou óbvios detalhes e que tudo o que pode fazer quem lê ou recebe, sob a forma de linguagem, uma mensagem externa é aprender a ler no seu espírito e todo o resto virá por acréscimo (Valéry, 1994: 61), pois assim se veste o homem perante o enigma de ter nascido nu.

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1 FERREIRA, Vergílio, Escrever, p. 17

2VALÉRY, Paul, Apontamentos. Arte, Literatura, Política & outros, p. 69

 

Fernando Miguel Alves Mendes (PG24780)

Mestrando em Comunicação, Arte e Cultura – 2013/2015

 

Bibliografia consultada:

Imagem superior: texto digitalizado da obra de Vergílio Ferreira “Do Mundo Original”, editado pela Livraria Bertrand (2.º edição aumentada), em 1979. Situado entre as páginas 89 a 93.

 

BARTHES, Roland, O grau zero da escrita, Lisboa, Edições 70, 1997.

 BOURDIEU, Pierre, O que falar quer dizer, Lisboa, Difel, 1998.

 BUESCU, Helena Carvalhão, Emendar a morte: pactos em literatura, Porto, Campo das Letras, 2008.

DURAS, Marguerite, Escrever, Lisboa, Difel, 2001.

FERREIRA, Vergílio, Escrever, Lisboa, Bertrand Editora, 2001.

FERREIRA, Vergílio, Do Mundo Original [2.º edição aumentada], Lisboa, Livraria Bertrand, 1979.

FOUCAULT, Michel, As palavras e as coisas, Lisboa, Edições 70, 1998.

KRISTEVA, Julia, História da linguagem, Lisboa, Edições 70, 1999.

NASCIMENTO,Zacarias e José Manuel de CASTRO PINTO,A Dinâmica da Escrita, Lisboa, Plátano Editora, 2006 [5ª. edição].

RILKE, Rainer Maria, Cartas a um jovem poeta, Lisboa, Contexto Editora, 1994.

ROSA, António Ramos, Poemas escolhidos, Porto, Civilização, 1997.

SPERBER, Dan, WILSON, Deirdre, Relevância: comunicação e cognição, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.

TODOROV, Tzvetanp, Poética da prosa, Lisboa, Edições 70, 1979.

 VALÉRY, Paul, Apontamentos. Arte, Literatura, Política & outros, Lisboa, Editora Pergaminho, 1994.

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