“Vocabulo sunt notre rerum”*

A linguagem é um fenómeno tão natural como a própria existência do homem, ambos estão interligados, desde sempre, mesmo quando a linguagem não existia tal como a concebemos hoje. Nenhuma sociedade está apartada da comunicação e desprovida de linguagem, essa representação simbólica do mundo (Nascimento e Castro Pinto, 2006: 10). Essa língua natural que acompanha cada indivíduo, desde a sua nascença até à sua finitude, desenvolve-se, acrescenta-se ou modifica-se, contudo, nunca se diminui. Todo o processo de aquisição da linguagem, como manifestação concreta da linguagem humana, é um sistema de conhecimento cuja prática constante, por via dos falantes ou daqueles que escrevem, se sujeita a fatores ou variações dialectuais, sociais, diafásicas ou diacrónicas, sendo a construção de instrumentos de normalização linguística imprescindível para o seu domínio. Todavia, o léxico que cada individuo transporta como bagagem na sua memória está propenso à inevitável transformação, por via do seu enriquecimento.

É certo que algumas palavras vão sendo olvidadas, outras suprimidas, e que simplesmente deixam de pertencer ao conjunto de palavras vivas fluentes nos discursos ou escritos coevos. Este desuso por vezes elimina certas palavras do léxico mental de cada sociedade, tornando-as como arcaicas. Questões como a evolução da sociedade (quer a nível tecnológico, político, religioso, artístico, etc.) como a própria evolução da língua, exemplificando: a criação de novas palavras ou neologismos, por processos morfológicos e não morfológicos, confirma aos que se manifestam como usuários de uma língua a certeza de que esta também nasce, cresce, vive e morre como um ser vivo. Para além das características dos diferentes contextos (pessoais, públicos, institucionais, ficcionais ou outros), o uso da língua acarreta por vezes metamorfoses que só se verificam no futuro. O arcaísmo é um exemplo óbvio.

Podemos entender o arcaísmo como uma palavra ou conjunto de palavras que, pelo seu desuso, foram excluídas do léxico atual, pois entende-se que exista um tempo específico da língua, igualmente diferente do tempo físico e daquilo a que Benveniste chama o tempo «crónico», ou o tempo dos cômputos e dos calendários (Barthes, 1987: 21). Embora possam muitas vezes ser recuperadas, pelo seu efeito estilístico ou pelo seu poder de resgatar determinados contextos históricos para a imagética contemporânea – o que se verifica muito nos livros de género romance histórico –, torna-se algumas vezes imprescindível, para uma melhor compreensão, que o recetor tenha uma ideia da evolução, ou filogénese, que a palavra teve ao longo dos tempos. É possível avaliarmos três tipos de arcaísmos: os lexicais, os semânticos e os gramaticais. Os primeiros devem-se ao uso de termos antigos, por exemplo: “alcova”, atualmente alterado por “quarto”; os segundos devem-se ao sentido empregue já desusado, por exemplo: “físico”, hoje utilizado “médico” e os terceiros devem-se às construções obsoletas, que podemos encontrar na obra Gaibéus de Alves Redol: “ – Eh, gente!… vá d’arribar, qu’o dia não tarda”, ou mais à frente na mesma obra, “o ambiente anda carregado com o cheiro dos corpos suados pelo trabalho e pelas sezões; deixa nas cabeças uma moinha pesada”.

Existem vários motivos para a reutilização destes termos arcaicos e, a título de exemplo, podemos mencionar aqueles que derivam de uma investigação do foro sociolinguístico, da criação ficcional de obras sobre contextos ou épocas passadas, da componente humorística que o uso estilístico do arcaísmo oferece ao discurso, do poder enfático, erudito, cómico ou até mesmo simbólico, como no exemplo do poema de Carlos Drummond de Andrade “Senhor! Senhor! / quem vos salvará / de vossa própria, de vossa terríbil / estremendona / inkomunikhassão?” ou no soneto Anósia de Jorge de Sena: “Que marinais sob tão pora luva / de esbranforida pela retinada / não dão volpúcia de imajar anteada / a que moltínea se adamenta ocuva?”

A necessidade de preservar a herança cultural de uma população, de um país ou do mundo, sobreleva o recurso ao arcaísmo como uma excelente ferramenta para reviver ou revisitar os nossos antepassados e os cenários que lhe deram vida, visto que no meio de todas as palavras, apertado pelo círculo que formam, o homem é designado – mais ainda, requerido – por elas, dado que é ele que fala (Foucault, 1998: 352)e, nessa prática verbal, aprende, por outro lado, a aplicar as expressões que dizem respeito ao mundo, ao conhecimento que tem desse mundo (Hagège, 1990: 25) de forma a que nunca perca as suas raízes linguísticas e humanas e elabore, para o seu futuro e para a posteridade dos que herdarão esse património sensível e inesgotável, uma linguagem mais ampla e mais clara, certo de que, como nos diz o filósofo francês Louis-Gabriel-Ambroise Bonald (1754-1840), o homem não pode falar o seu pensamento sem falar ou conhecer a sua fala.

Fernando Miguel Alves Mendes (PG24780)

Mestrando em Comunicação, Arte e Cultura – 2013/2015

 

 Bibliografia consultada:

* (Marco Túlio Cícero, 106 a.C – 43 a.C)

BARTHES, Roland, O rumor da língua, Lisboa, Editorial 70, 1987.

DUARTE,Inês, Língua Portuguesa, Instrumentos de Análise,Lisboa, Universidade Aberta, 2000.

FOUCAULT, Michael, As palavras e as coisas, Lis­boa, Edições 70, 1998.

HAGÈGE, Claude, Homem dialogal, Lisboa, Edições 70, 1990.

HERDER, Ensaio sobre a origem da linguagem, Lisboa, Edições Antígona, 1987.

KRISTEVA, Julia, História da linguagem, Lisboa, Edições 70, 1999.

NASCIMENTO,Zacarias e José Manuel de CASTRO PINTO, A Dinâmica da Escrita, [5ª. edição], Lisboa, Plátano Editora, 2006.

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