MULTIPLICIDADE INTERPRETATIVA NA MÚSICA DE INTERVENÇÃO

Desde cedo o ser humano encontra nos sons e nas imagens referências importantes para a sua vida.

 “Uma imagem vale mais que mil palavras” é uma frase sonante aos ouvidos de todos. A imagem é uma nobre forma de comunicação atrativa e interativa, tanto mostrando factos reais, como levando o indivíduo até ao mais profundo do seu imaginário. Seja ela estática, em movimento, pintada, fotografada ou simplesmente observada, transporta muitas vezes o individuo para outra dimensão.  

A música pode ser considerada uma das formas artísticas mais nobres, aliando sons e silêncios que se adaptam a cada cultura, a cada contexto social, exprime e compartilha emoções e sentimentos. Os gregos chamam-lhe a “arte das musas”, elevando-a deste modo a um patamar de excelência no campo das artes e da cultura.

Tal como a imagem, a música também é uma poderosa forma de comunicação. Ao longo dos séculos adquiriu diferentes relevâncias em torno de conceitos e estruturas sociais diversificados. São vários os estilos, ritmos e contextos. Ora embala, ora desperta, ora a pacificar ora dá voz à revolta, “(…) antes das outras artes, a música, toda ela enigma, e ao mesmo tempo totalmente evidente.” (Adorno, 1993 :142)

A música de intervenção é um desses exemplos. Com forte ligação à música popular, ganha evidência em Portugal em meados do século XX. Este estilo de música surge com intuito de chamar a atenção para problemas em voga, sejam estes de origem social, económica ou politica. 

Foi uma das mais simbólicas fontes de protesto dos finais do Estado Novo. Nomes como, Fernando Tordo, Janita Salomé, Brigada Vitor Jara, Paulo de Carvalho, José Afonso, entre outros, deram voz aos ritmos de protesto, aos ritmos de intervenção da época, sendo o seu feito mais marcante a Revolução de 25 de Abril de 1974.

De um vasto repertório destas músicas, umas perderam-se no tempo, caindo no esquecimento, outras vão sendo lembradas, e há ainda as que se renovam e despontam décadas depois,

 “E depois do Adeus” de José Niza e interpretada por Paulo de Carvalho, foi a primeira senha escolhida para a Revolução de Abril de 1974. Com uma letra que nada tinha a ver com revolução, baseada em palavras retiradas de cartas que José Niza escrevia à sua mulher aquando da passagem deste por Angola, esta é um dos símbolos mais marcantes para aqueles que viveram “Abril”.

https://www.youtube.com/watch?v=pJrtNwD_r_0

Escapando à forte censura do regime, “Grândola Vila Morena” é o som mais evidente da intervenção. Senha principal que dá início à revolução, esta música marca gerações desde então.

https://www.youtube.com/watch?v=Ha-h5bPSxQE

 Imagens que espelham aquilo que se viveu a 25 de Abril de 1974, acompanham a música criando um elo de ligação muito forte com os acontecimentos fazendo-os recordar ou mesmo imaginar para aqueles que não acompanharam tão de perto, ou não tiveram acesso a essa informação.

Todas essas componentes fazem dessa música um bem cultural supremo, que marca o fim de um ciclo sociocultural e politico, e o começo de um outro.

https://www.youtube.com/watch?v=A7nyQm1byHw

 Partindo do pequeno trecho do filme “Capitães de Abril”, uma outra análise pode ser feita desta música, se repararmos ao modo como ela foi transmitida naquela noite. A rádio é o veículo utilizado para difundir a senha da revolução. Os meios de comunicação assumem papel preponderante em diferentes épocas. Se nos dias de hoje a internet ou telemóvel, seriam os meios mais eficazes para difundir ou transmitir uma mensagem, há 40 anos sem o meio de comunicação rádio, “Grândola Vila Morena”, não tinha chegado aos locais planeados para que a mensagem surtisse efeito.

Ao longo dos anos os meio de difusão de som e imagem evoluíram, foram-se adaptando a novas realidades, novos públicos e novos objetivos. Também a forma como são vistos e escutados pelos indivíduos são díspares, conforme as suas necessidades e contextualização social.

https://www.youtube.com/watch?v=MYcTMfdwWkk

Em 2013, a senha de Abril ganha um novo folego, com diferentes objetivos e em diferentes contextos. Deixa de ser um sinal de ação e esperança, e passa a dar voz a um grito de revolta e insatisfação. Passa a ser escutada em inúmeras manifestações, não dá voz ao povo, mas pela voz do povo vai calando temporariamente o poder.

Num contexto social dispare, uma mesma música de intervenção tem uma mensagem diferente da sua origem. Diversos fatores contribuem para esse recriar do sentido desta “forma de arte”, a realidade social, económica, politica e cultural, está afastada daquelas que se viviam na sua génese.

Tal como refere Benjamim (1992), “Em grandes épocas históricas altera-se, com a forma de existência colectiva da humanidade, o modo da sua percepção sensorial.” (p. 80).

Um mesmo objeto, uma mesma obra de arte, uma mesma música, podem obter, por parte da sociedade uma perceção completamente diferente. Entendendo a música como uma obra de arte, podemos referir que, “Cada obra de arte é um instante; cada obra conseguida é um equilíbrio, uma pausa momentânea do processo, tal como ele se manifesta ao olhar atento.” (Adorno, 1993 : 17)

 

Bibliografia:

 ADORNO, Theodor (1993) Teoria estética, Lisboa: Edições 70

BENJAMIN, Walter. (1992), Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Lisboa: Relógio D’ Água

 

Ângela Araújo, pg 25856

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