O diálogo mata a Poesia!?

“Imagens (filmes/desenhos animados), que falam através da Música (e sons)”:

Depois de lerem este título (e subtítulo), aposto que captei a vossa atenção! Não? Sim? Bem, eu tentei, mas o que importa aqui é que apreciem a leitura do texto que realizei para vocês e que contribua para novos conhecimentos. Porque de facto o título e o subtítulo não têm grande sentido assim à primeira vista. Mas não se preocupem caros leitores e leitoras, eu vou passar a explicar o que está por detrás deste cabeçalho bizarro que vai servir de início, a este meu artigo. Boa leitura…

Creio que toda a gente conhece o famoso Charles Spencer Chaplin, (na Europa conhecido como Charlot). Com aquele seu bigode inconfundível à Hitler, o seu chapéu coco, a sua bengala, o seu jeito engraçado de andar, as suas mímicas, e sem dúvida, as asneiras que fazia. Porque cada tarefa do quotidiano tornava-se numa comédia fantástica com ele. Chaplin foi um dos casos raros que manteve a popularidade, recusando por muito tempo os diálogos nas suas produções fílmicas. Chaplin dizia: “Podeis dizer que eu detesto o diálogo. Vem dar cabo da mais antiga arte do mundo; a arte da pantomima. Esses filmes aniquilam a grande beleza do silêncio”, por isso, os filmes dele brincavam muito com a música de fundo e a imagem. Era o silêncio das imagens que os fundamentalistas defendiam mais, como uma magia poética do próprio cinema, diziam que a maioria dos filmes falados destruíam essa poesia que transbordava do silêncio. De um lado estava o cinema mudo, do outro a necessidade de evoluir para um patamar novo tecnicamente.

  P.S. Uma curiosidade, o Leão da MGM ruge nos genéricos, mas antes foi mudo, parecendo mais um gato domesticado com juba.

Um filme mudo, na base, é um filme que não possui diálogos (linguagem compreensível), a maioria dos filmes eram mudos devido a inexistência de tecnologias para tornar isso possível. Mais tarde tudo muda com a invenção de Thomas Edisson (fonógrafo de cilindros de 1877[1]) e a apresentação do filme “L’Arrivée d’un train em gare de la Ciotat” pelos irmãos Lumiére (em 1895[2]), assim como em 1927 com a exibição do filme “O cantor de Jazz[3]. A compreensão dos filmes fazia-se através de explicações em forma de pequenos texto (legendas) e os actores abusavam dos gestos para uma melhor compreensão do desenrolar da história.

  P.S. Outra curiosidade: na verdade o cinema nunca foi totalmente mudo, porque mal começavam a contar histórias com imagens havia sempre uma banda sonora tocada ao vivo. Nas salas mais luxuosas chegava-se a recriar os sons ambientes, tal como o galope de um cavalo, o assobiar do vento, etc.

Eu acredito que a imagem em si, simplesmente não chega para perceber o decorrer de uma “história” num filme, ou melhor dizendo, uma acção pode ser interpretada de várias maneiras, a música explica o que se deve sentir perante uma certa imagem, ou várias imagens/acções, sem precisar de diálogos. A música complementa a imagem e vice-versa. Concordam comigo certo? Já imaginaram um filme sem música nenhuma? Nem eu! Mas sem diálogo aposto que já imaginaram… Mas atenção, a combinação entre imagem e música não pode ser arbitrária, ambas de ser bem ajustadas e rigorosas para fazerem sentido obviamente, para que assim as emoções sejam projectadas e vividas de forma correcta e harmonizada. Está claro que a arte da Imagem e a arte da Música estão relacionadas desde há muito tempo (arriscaria dizer desde o Barroco quando se inventou a ópera[4]), apresentando uma longa história de cruzamentos.

Mudando de assunto, descobri recentemente que se criou uma animação, mais concretamente um desenho animado, mudo, baseado em sons e em música, e quem é a personagem principal? O nosso querido Charles Chaplin! Nunca adivinhariam certo? Intitula-se Chaplin & CO (em francês), e pelo que li na Internet, o projecto foi iniciado em 2010, existem já 104 episódios, e cada um tem cerca de sete minutos. Na animação, o objectivo de Chaplin é ajudar os outros, sem diálogos obviamente. Este projecto foi de facto uma grande homenagem ao mestre do cinema mudo. Chaplin relembra-nos que não são precisos diálogos para fazer-nos rir ou chorar (de tanto rir). Investiguem:

Actualmente existem imensas animações mudas – e “semi-mudas” (Tom & Jerry, Fantasia, Shaun the Sheep, Happy Three Friends, Coiote e Bip bip, Oggy e as Baratas, Pantera Cor-de-rosa, Tex Avery, etc. Até o Mickey Mouse já foi mudo[5]), que são divulgadas pelo mundo inteiro, e como não existem diálogos, não são necessários os processos de tradução ou legendagem, todas as pessoas são capazes de entender a animação muda graças à combinação perfeita entre a Imagem e a Música/Sons. Podemos mesmo afirmar que a Música procura dar “voz” à Imagem. O som funciona como um íman para atrair espectadores para as cenas mais emotivas, o público sente o que a personagem sente de forma simples e automática. Se estiverem crianças de diferentes países e de diferentes línguas a ver uma destas animações na mesma sala, como por exemplo Chaplin & CO, tenho a certeza que todos ririam e se divertiriam, mesmo não falando a mesma língua, e perceberiam através da música e da imagem o que se passaria na animação e passariam um momento único todos juntos, o que seria semelhante com adultos, e até idosos.

 Nota: Se leram o Jornal Público do dia 21 de Março de 2014[6], encontrariam na página 32 na secção da Cultura, um artigo com o título: “Descobrir Charles Chaplin, cineasta músico num teatro de ópera”, escrito por Luís Miguel de Oliveira, e perceberiam imediatamente que Chaplin é ainda reconhecido e muito popular actualmente, está a ser revisitado e tudo (se ainda não o conhecem, deveriam conhecer, pesquisem na internet, estou farta de postar links!). O artigo fala sobre a reconstituição das partituras do filme “Tempos Modernos[7] (1936), pelo maestro Timothy Brock[8], onde a Orquestra Sinfónica Portuguesa durante a projecção do filme, iria tocar perante as imagens do filme, num teatro de ópera. As imagens temáticas de Tempos Modernos dariam um complexo conjunto de ideias sinfónicas para qualquer compositor, mas não mais do que para o homem que os criou, em primeiro lugar.

Como podem verificar o cinema mudo ainda é “moda” e cultura, pois como deveriam saber, o filme “The Artist”[9](2011), conquistou vários prémios (Globos de Ouro, Óscar, etc), é um filme a preto-e-branco e mudo, onde mais uma vez, demonstra-se que a imagem não vive sem a música. A música acompanha a imagem, reflecte o conteúdo emocional, narra a acção e os movimentos; Ambas têm um papel fundamental de estruturação da narrativa, “a música e a imagem nascem de um tronco comum, da mesma cabeça, da mesma sensibilidade, num todo radicalmente orgânico” (desconhecido). Sem música, a imagem não teria inicio, desenvolvimento nem fim, não teria sentido. Chaplin é o génio do cinema, ele mudou não apenas as imagens do cinema mas também a sua sociologia e a sua gramática (palavras de George Bernard Shaw), através da música, tornou o cinema numa forma de poesia. Agora pergunto-vos: o diálogo mata a poesia? …

[1] http://hojenahistoria.seuhistory.com/thomas-edison-anuncia-sua-primeira-grande-invencao-o-fonografo

[2] http://www.youtube.com/watch?v=v6i3uccnZhQ&feature=kp

[3] http://www.youtube.com/watch?v=YwYtzGMEBb0

[4] http://translate.google.pt/translate?hl=pt-PT&sl=es&u=http://laopera.net/historia-de-la-opera/historia-de-la-opera&prev=/search%3Fq%3D%25C3%2593pera%2B-%2Bhistoria%26biw%3D1280%26bih%3D899

[5] http://www.youtube.com/watch?v=irViT1ajczQ&feature=kp

[6] http://www.publico.pt/cultura/noticia/chaplin-cineasta-musico-1629110#/0

[7] http://www.youtube.com/watch?v=0gY0JR6s38g

[8] http://www.timothybrock.com/

[9] http://www.imdb.com/title/tt1655442/

Pauline Nascimento – PG24792

Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura

U.C: Semiótica e Sociologia da Arte

Docente: Albertino

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