A imagem do tagarela ou como o silêncio se tornou uma realidade etérea

por Luís Alves (pg25859)

Este post tem um tripé de pensamento que o sustenta: por um lado assenta na ideia do silêncio enquanto bem escasso e contemporanemanete etéreo; por outro na personagem do tagarela – do chato, se quisermos –, o mestre do vazio de discurso, o génio da banalidade; e, para terminar esta tríade, a síntese de ambos, do silêncio e do ruído, associados a imagens mediáticas.

Ruído, por favor
Se geograficamente quisermos localizar o silêncio e o ruído colocá-los-emos, provavelmente, em espaços vagos, diferentes entre si e, seguramente, nos antípodas. Isto é: juntos formam um todo de sentido precisamente porque diferem em tanto quanto possível ou imaginável. São contrários, faces opostas.
Uma das características que mais afasta o silêncio do ruído, talvez mesmo aquela que destrinça definitivamente um de outro, é a quantidade. Incomensurável um – o ruído -, rarefeito o outro. Aliás, este último conheceu o início da sua morte com a modernidade e o declínio que descobriu a partir daí é assombrosamente exponencial.

“A modernidade é a chegada do ruído. O mundo faz ressoar, constantemente, instrumentos técnicos cujo uso acompanha a vida pessoal ou colectiva.” (Le Breton, 1997: 14)

A comunicação, em especial a mediática, contribui quase escandalosamente para esta hecatombe de ruído. A permanência, a intensidade e a ferocidade dos média emprestam aos consumidores um ritmo impossível e não solicitado, que estreita o caminho entre nós próprios e o caos. Abdica-se, inconscientemente, do silere: da tranquilidade, do repouso, do silêncio pelo silêncio, do estádio de ruído zero, que o Latim tão fielmente traduz e ensina.
Porque esquecido e ignorado, o silêncio é um não-lugar. Significa, em última análise, a morte, a paragem, a interrupção. E quem quererá correr algum destes riscos?, quando a sabedoria popular dita que a paragem e a morte são, tão-só, sinónimos.

Ignorando estatísticas e outras ferramentas das ciências exactas, parece pertinente avaliar a nossa percepção sobre a leitura, enquanto hábito, e os livros, enquanto objectos. Nunca em outro momento da História tivemos tão poucos analfabetos e mesmo assim percepcionamos um mundo demasiado dado ao audiovisual e pouco prestado ao analógico, à letra, à palavra, aos clássicos da literatura, ao hábito rotineiro da leitura como resgate da fruição e da aculturação. Serão realidades não-coabitáveis?

“Um dos requisitos fundamentais [para a leitura] é, também, o silêncio. À medida que a civilização urbana e industrial foi prevalecendo, o nível de ruído conheceu um aumento exponencial, estando hoje muito próximo da loucura.” (Steiner, 2006: 26)

“(…) o armário dos discos e a pilhas de discos compactos ou de cassetes ocupam o lugar da estante dos livros, especialmente entre os mais jovens.” (Steiner, 2006: 27)

“Os vários momentos de tempo livre de que depende qualquer leitura séria, silenciosa e responsável tornaram-se apanágio quase exclusivo dos universitários e dos investigadores.” (Steiner, 2006: 28)

Parece ser um dado mais ou menos consensual entre aqueles que dedicaram algum tempo do seu estudo ao silêncio e ao ruído: assiste-se a um processo de substituição acelerado do primeiro pelo segundo, com riscos para todos. Um desses riscos é a produção em massa de criaturas que replicam o formato mediático infernal, ininterrupto.

Os tagarelas

AP

São figuras – estudadas com maior ou menor intensidade por autores como Malinowski, Jakobson, Le Breton, Blanchot, Plutarco, etc. – que devassam os silêncios próprio e alheio em nome de um ruído permanente. Eu existo, eu existo, eu existo, assim é o tagarela, ignorante absoluto do valor maior do silêncio, que “fala só consigo, mas precisa do pretexto de um outro, de um duplo, de rosto indiferente porque, curiosamente, apesar da sua sede de discurso, não é capaz de falar sozinho, diante de um muro ou de um espelho, precisa da sombra do outro para dar corpo à sua verborreia” (Le Breton, 1997: 67).
Esta personagem não só é o mais profundo desconhecedor do silere como também ignora as regras que fazem de uma conversa um exercício a dois. Esquecendo o interlocutor, o tagarela transfigura-o num boneco de papelão, um espanta-pardais sem direito de antena, de resposta ou de outro tipo. As conversas resultam não apenas numa ausência suicida de silêncio – essencial a qualquer diálogo – como se transformam num monólogo entediante.
É aos tagarelas que se atribui a sentença final do resquício de silêncio que a tecnologia deixou. Isto é: se o multimédia, a Internet e toda a parafernália tecnológica abafaram o silêncio, esperava-se, num diálogo, uma pequena sobra, agora raptada por estas figuras solitárias e repelentes.

O silêncio em estado puro

ae05

Andrew Testa, United Kingdom, Panos Pictures for The New York Times.

“É igualmente estreita a convivência entre o silêncio e a morte. A dor, o encaminhamento em direcção à morte, a própria morte, a confrontação com os restos mortais, muitas vezes os rituais funerários, o luto, incitam à suspensão da palavra. (Le Breton, 1997: 21)”

Talvez seja na morte que o silêncio encontra o seu estádio maior de pureza. Se o tagarela e o ruído são representados, mais acima, pela figura de um conhecido político, nesta última encontramos o silêncio do drama, indissociável da morte, especialmente quando esta é não-natural.
A morte é a morte da palavra. Mas quando esta é multiplicada por 600 – o número de caixões na fotografia – e descrita como um massacre (de Srebrenica) de homens e rapazes bósnios, esta inflama-se de sentido e acrescenta-se-lhe um silêncio ainda mais profundo, ainda mais pesado.

Estamos, claro, sedentos de silêncio. Uns conscientemente, outros nem tanto. Mas uns e outros estamos desesperados por um território de impenetrável silêncio, de um offline prolongado – que não seja o da morte -, onde a possibilidade de audição própria seja uma realidade.

Referências

Cunha, T.C. n.d. O Silêncio na Comunicação. BOCC. Disponível em http://www.bocc.ubi.pt/pag/cunhatito-cardoso-silencio.pdf (01/06/2014).

Le Breton, D. (1997) Do Silêncio, Lisboa: Instituto Piaget.

Pinto, P. R. M. (1998) Iniciação ao Silêncio, São Paulo: Edições Loyola.

Steiner, G. (2006) O Silêncio dos Livros, Lisboa: Gradiva

Tags: , , ,

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: