Cinco Sentidos – O impacto do sentido auditivo

Se tivessem de escolher um dos 5 sentidos, qual teria maior peso na vossa decisão? Visão? Olfato? Paladar? Tato? Audição?

A escolha não será certamente fácil, se é que é possível. No entanto, deparei-me recentemente com uma curta-metragem que, não reunindo todos os sentidos explicitamente, faz-nos pensar em todos eles, e no quão importantes eles são.

A curta-metragem é do Brasileiro Edson Oda – escritor, diretor e redator nascido em São Paulo – e intitula-se “Braille”. Não sendo o seu trabalho mais conhecido, uma vez que “The Writer” da sua autoria, foi escolhido por Quentin Tarantino como melhor curta-metragem na competição “Django Unchained Emerging Artist Contest”, tirando a vez à sua outra obra intitulada “Malária” que apenas não foi a concurso porque Oda não conseguiu finaliza-la a tempo, mas que conta com vários prémios, entre eles o Staff Pick da Vimeo, e que teve mais de 640 mil visualizações.

Braille” conta a história de um homem cego que deseja lembrar qual é a sensação de ver. No entanto, não é a história em si que me prende particularmente a atenção, mas sim a forma como é produzida esta curta-metragem. Apesar de ter imagem, parece-me que Oda tentou aumentar a sensação auditiva do espectador, talvez como tentativa de equiparar a forma como sentimos o vídeo à forma como uma pessoa sem a capacidade de visão sente tudo, no seu dia-a-dia. Desde o início do vídeo ouve-se de forma muito clara todas as ações do protagonista, desde a respiração, o tato, a sua caminhada e até o barulho de uma folha seca cujo som o leva de volta ao passado, e à forma como essa folha reproduzia o som em contacto com cabelo. Deixo aqui a curta-metragem para que possamos perceber exatamente o que está a ser tratado:

Braille – Edson Oda

Para ver insira a password: Braille

Depois de ver o vídeo e prestar atenção ao que assinalei acima, quase conseguimos percebê-lo mesmo de olhos fechados… não fosse pela parte escrita e entendíamos perfeitamente as ações do protagonista.

Talvez a ideia de Oda seria mesmo transportar-nos para o mundo somente da audição, no entanto não seria realmente uma curta-metragem se não estivesse presente a imagem, ou pelo menos não seria tão cativante como quando existe som e imagem em simultâneo pois já há muito tempo que o cinema deixou de ser mudo. No entanto, o áudio e o visual continuam a ser componentes independentes que fazem parte de muitos meios de comunicação, exemplo disso são a fotografia e o telefone, e o audiovisual passa a ser uma outra componente, originária dos dois anteriores, também ela autónoma, como por exemplo a televisão.

Aquando do cinema mudo, dava-se um grande valor ao sentido visual, mas isso começou a mudar com a chegada do som. Hoje em dia o som não é apenas algo que sustenta ou ostenta a imagem, é visto antes como algo que a transforma, fornecendo à receção da mesma um outro sentido, e não apenas um aperfeiçoamento do que já lá está.

“O fenómeno sonoro é a percepção das oscilações rítmicas, normalmente da pressão do ar, que foram estimuladas por outro objeto físico vibrante que actua como fonte de emissão.” (Rodriguez Bravo, 1998: 45) E é a combinação de certas características que faz com que possamos perceber, através da audição, de onde provém o som de determinado objeto, bem como os seus movimentos, a sua direção e a distância a que está do seu recetor. E é natural que, quando alguém perde a visão, a perceção destes sons se torne ainda mais clara, pois o cérebro automaticamente estimula um sentido quando há a falta de outro.

Neste caso em particular, fala-se de alguém que nasceu com o sentido visual e que, a certa altura da vida, quando já tinha a capacidade de associar o som à imagem, perdeu esse sentido. Mesmo para quem tem os dois sentidos, visual e auditivo, os sons mantêm uma estreita relação com os “signos icónicos”, e para uma pessoa que deixou de ver a certo momento da vida, parece-me que este aspeto tenha ainda mais impacto, sendo que o ouvido tem a aptidão de criar imagens ligando-as ao som.

Um outro aspeto importante é a banda sonora presente em todos os filmes ou curta-metragens, no caso de Braille não é diferente. Esta interliga-se ao que nos é captado pela visão para compor um outro sentido. Em televisão a música pode ser descrita e distinta em diferentes aspetos, segundo D’Alessandro (1962: 241) esta serve para: 1-Identificação imediata de um programa; 2- Dar relevo a um personagem; 3- Estimular a recordação de eventos; 4- Criar “atmosferas”; 5- Proporcionar elipses juntamente com outros meios expressivos (visuais, por exemplo); 6- Definir um ambiente; 7- Criar um contraponto.

De todas as formas de som, não podemos esquecer, por outro lado, a falta dele. É o silêncio que nos leva a focar e concentrarmo-nos nas imagens, bem como um determinado som, irrompendo de um silêncio absoluto, faz-nos ficar mais atentos e perceber do que realmente se trata, isto é, cria um efeito de atenção acrescido.

Depois disto, voltemos a analisar o vídeo. Oda consegue jogar inteligentemente com todos estes aspetos: no silêncio, um pestanejar, a respiração, o passar dos dedos pela página escrita em braille e outra vez pela carta escrita à mão… e entretanto, uma música calma e logo de seguida o som do caminhar. Indica uma situação de nostalgia juntamente com outra de paz, talvez a paz que o personagem principal encontrou passado uns anos, pela perda da visão, ou pela perda da mulher que amava (não sendo claro que a tenha perdido, mas levando-nos a assumir isso). “Som, imagem e transformação técnico-retórica compõem um tecido unificado para refletir factos, provocar emoções e sugerir ideias” (Cebrián Herreros, 1995: 382).

Considero esta curta-metragem excelente pela forma que foi escrita, pelo impacto que tem no expectador, mas principalmente pela forma como foi produzida, transportando-nos para o mundo de diferente, o mundo dos sentidos captados pela audição e pela visão, mas que poderia muito bem ser captada apenas por um deles. É uma obra que quase pode ser “separada”, isto é, alguns ajustes em certos aspetos e conseguíamos percebê-la só com a imagem, ou só com o som.

E agora, conseguem imaginar viver sem um dos cinco sentidos?

 

Bibliografia:

[1]http://digartdigmedia.wordpress.com/2013/02/24/a-relacao-entre-a-visao-e-a-audicao/

[2]http://www.ipv.pt/forumedia/3/3_fi6.htm

[3]http://oglobo.globo.com/cultura/conheca-edson-oda-aspirante-cineasta-que-se-tornou-novo-queridinho-de-tarantino-5581644

[4]http://www.edsonoda.com/bio/

 

Elisabete Barbosa Dos Santos Martins

Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura.

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