Disparo Final

Por Ana Carolina Matos [pg25861]

Num duo imagem-música dar-se-á este post àquilo a que chamaremos de ouvido visual – quase como se de um uníssono se tratasse, em que imagem e som se juntam numa mesma voz. Melhor: a imagem é real – o tal disparo entre a pose inicial e o papel final de que nos fala Susan Sontag na obra Olhando o Sofrimento dos Outros -, o som não. É um fermento identitário que se dá em todos quanto olham o visual. Quase como acontece nos bolos, em que o fermento engrandece. Ao olharmos para uma fotografia e tentarmos reproduzir toda uma nuvem sonora aquando da captação da mesma, engrandecemo-la. Fazemos com que transborde de sentido – e só o sentido fará com que prevaleça. A este sentido junta-se-lhe uma estória – com e porque particular, de cada um e não com h da História, do colectivo, de todos. Olhemos o visual e o sonoro – mais uno que duo – naquele que é o disparo de Richard Avedon. Na frente da lente William Casby, né esclave (1963):

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O olhar captado, o de William Casby, é um verdadeiro tratado, quase como uma prova inequívoca de uma vida esclavagista. Por detrás a estória – a tal -, a de um olhar que grita e que ao mesmo tempo pede clemência. Melhor: rosto e olhar, os dois a pedir o mesmo, uma folga. Se a fotografia é, de facto, toda uma produção a que se lhe impõe uma máscara, o sentido, o som e a estória são, por consequência, a desconstrução da mesma, da tal persona. Richard Avedon consegue, de facto, derrubar os pressupostos da artificialidade da fotografia e reclama a pureza de um sentido numa só fotografia, num só disparo. Ora Roland Barthes (p. 114), numa obra que data de 1986, Le text et l’image, precisamente sobre este disparo final diz-nos:

“A essência da escravidão está aqui [na fotografia] nua: a máscara é o sentido, uma vez que é absolutamente puro (como no teatro antigo). É por isso que os grandes retratos são de grades mitologistas: Nadar (a burguesia francesa), Sander (os Alemães e a Alemanha Pré-Nazi), Avedon (a classe alta nova-iorquina).”

Uma essência esclavagista nua da qual toda uma parafernália social duvida – enchem o seu sentido de uma série de bugigangas visuais e sonoras [“como na cibernética”] que fazem toda uma dor ser menos dor. Se por um lado a sociedade reclama por esse tal de “significado puro”, por outro, quando o têm, esbarram nele e obrigam-no a pagar, desengonçando tudo quanto já estava no lugar a que lhes pertence. Fazem toda uma dor – que é não mais que esse tal de “significado puro” – parecer menos aguda, ainda. (Barthes, 1986, p. 114).

Uma outra imagem – desta vez uma pintura em que o antes e o depois desse momento ficam suspensos, ambos, entre possibilidades – e, claro, um outro som. É a vez de Judith et Holopherne (1979), da autoria de Artemisia Gentileschi numa ligação ambivalente entre o erótico e o fúnebre.

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De um lado – o de Judith – uma aparente acalmia a que se lhe junta um ar de desdém, de frieza até. Do outro – o de Holopherne – o desespero. Os gritos de tanto tormento ouvem-se. Ensanguentado, grita pedindo compaixão, para que não mais a faca se mova. Talvez tarde demais. A mão de Holopherne também fala. Pede um STOP. Já de Judith, a resposta em forma de silêncio e continuação. Uma não resposta, portanto.

Richard Avedon e Artemisia Gentileschi, em tempos diferentes, via meios diferentes e com perspectivas diferentes conseguem o mesmo: envolvem os seus trabalhos de uma aura – como um singelo cartucho de papel envolve a dúzia de sardinhas -, o que os faz ultrapassar largamente as próprias produções artísticas enquanto objectos e os permite sobrevoar em direcção à eternidade. Melhor: remetem-nos, com passagem directa, para a galeria, onde estão representadas as obras que compõem aquilo a que hoje se chama de memória colectiva. O espólio do mundo que o constitui tal como ele é.

Com essa capacidade sobreautorial de estatuto, estas obras, sendo trabalhos de pintura, por um lado, e de fotografia, por outro, rasgam aquilo a que, numa primeira análise poderia parecer uma limitação de forma. Isto é: são pintura e fotografia, é certo, mas são também tantos outros meios quantos possamos imaginar. São obras que falam, que narram, que sugerem. São uma composição – dir-se-ia hoje – verdadeiramente multimediática, capaz de transportar os fruidores para um plano multidimensional de sentido.

Referências Bibliográficas

Barthes, R. (1986). Le Text et L’Image. Paris: Edition Paris Musées.

Sontag, S. (2003). Olhando o Sofrimento dos Outros. Algés, Gótica.

 

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