Visconti e Mahler: Morte em Veneza

A filmografia de Luchino Visconti divide-se em duas correntes esteticamente diferentes: a primeira, neorealista, e a segunda, onde se enquadram a maior parte das obras do realizador – que teve os primeiros balbucios em 1954 com Senso//Sentimento, mas foi posteriormente interrompida por obras esteticamente destoantes, como La Notti Bianche//Noites Brancas (1957), e Rocco e i suoi fratelli//Rocco e os seus irmãos (1960) Porém, a partir de 1963, com Il Gattopardo//O Leopardo (1963), Visconti mergulhou no imaginário aristocrático, e apesar de filmes posteriores como Vaghe stelle dell’orsa//As Vagas Estrelas da Ursa (1965) ou Lo Straniero//O Estrangeiro (1967) terem destoado desta estética, os seus últimos filmes vão explodir num glamour e sumptuosidade que se revela a nível visual e sonoro; como diz Gilles Deleuze, «O génio de Visconti culmina nestas grandes cenas ou composições, muitas vezes em vermelho e ouro, ópera de Senso, salões de Il Gattopardo, castelo de Munique de Ludwig, salas do grande hotel de Veneza, salão de música de O Inocente.»

            Morte a Venezia//Morte em Veneza, obra lançada em 1971, é um perfeito representante da estética viscontiana da aristocracia, da decadência, do fluir incessante do tempo e a inevitabilidade da morte. Ao visualizar o filme, presenciamos, acima de tudo, uma poética comunhão entre imagem e música, ambas meticulosamente conduzidas, revelando, além de uma óbvia perícia técnica, a profunda sensibilidade artística de Luchino Visconti, que funde três incontornáveis nomes na concepção fílmica: o próprio Visconti, a música de Gustav Mahler e a obra literária de Thomas Mann. Morte a Venezia segue a história de um músico que, a fim de recuperar de uma crise de bloqueio artístico e exaustão, viaja até Veneza, onde vai desenvolver uma atracção por Tadzio, um jovem polaco de catorze anos. Porém, esta é uma abordagem extremamente superficial da obra cinematográfica de Visconti, que levanta questões complexas, intimamente relacionadas com a vida, a morte, a juventude, a decadência, a rusga pelo Belo, o fluir incessante do tempo…, por outras palavras, o imaginário viscontiano em toda a sua essência. A atracção que Gustav, o protagonista, nutre por Tadzio, vai conduzir toda a acção fílmica, aliado a uma fotografia belíssima e à música de Gustav Mahler, mais precisamente, o adagietto da 5ª sinfonia.

            Analisando a sequência final, presenciamos uma poética orquestração que Visconti faz com a fotografia, a música, os movimentos de câmara, o olhar e os gestos dos personagens; Gustav está sentado numa cadeira, na praia, moribundo, e contempla Tadzio à medida que ele entra calmamente no mar. Tadzio aponta para o horizonte, e Gustav estica o braço para o tentar alcançar, mas é inútil; Gustav acaba por sucumbir à doença. A fotografia é pálida, luminosa, procurando realçar a difusa luz solar que, ao esbarrar na água do mar, cria um ambiente mágico, quase transcendente, à medida que a sinfonia de Mahler ornamenta a sequência num glorioso crescendo até ao climax, quando Gustav sucumbe à doença e Tadzio prossegue a caminhada através do mar.

            O final de Morte a Venezia propõe diversas leituras e abordagens, porém, Visconti presenteia-nos com diversas “pistas” que se vão revelar essencialmente a nível estético, permitindo ao espectador enxergar com mais nitidez o mistério daquela platónica relação entre Gustav e Tadzio; É a comunicação que os personagens fazem através dos gestos, dos olhares, dos movimentos, ou da maneira como Visconti se usa dos meios da câmara para se dirigir aos personagens ou estabelecer relações uns com os outros: neste último caso, Visconti vai tornar o zoom, movimento de câmara – além de quase uma própria personagem do drama – o guia entre o espectador e os personagens, e especialmente entre os próprios personagens. O zoom vai realçar o efeito de contemplação, a obsessão de Gustav, como podemos verificar no plano que segue o movimento em que Tadzio, filmado em contraluz, entra serenamente no mar; a sua delgada e sinuosa silhueta é seguida pela câmara até ao momento em que ele pára e se volta para trás, fitando Gustav; a câmara, focando Gustav, vai recuar num zoom out, à medida que o velho homem, cada vez mais perto da morte, se tenta erguer e alcançar o jovem rapaz. Também a sinfonia de Mahler parece adequar-se rigorosamente aos movimentos de câmara, fazendo sobressair o dramatismo da cena, e também a luminosidade e a escala de cores pálidas que compõe a fotografia.

Imagem

            A música de Mahler adquire também um papel fulcral, não apenas nesta sequência, mas em todo o filme; Quem conhece a obra de Thomas Mann, sabe que Visconti mudou o ofício do protagonista – na obra literária um escritor, na obra cinematográfica um músico – pois o realizador acreditava que Thomas Mann escrevera a personagem de Gustav inspirando-se no compositor alemão. Porém, a música de Mahler transcende esse simples detalhe, pois enriquece e cristaliza aquele paradoxo universo, onde a beleza e a decadência convivem de mãos dadas. Morte a Venezia revela todo o poder da relação imagem-música – da mesma maneira que Il Gattopardo, com as suas paisagens sicilianas e a música de Nino Rota – e, além de se afirmar como puro deleite visual e sonoro, adquire um carácter hipnotizante, transforma o visível em não-visível, obriga o espectador a reflectir sobre as diversas questões que fluem a partir desta comunhão estética: questões relacionadas com a vida, a morte, o Belo e o Feio, o tempo que flui e não volta atrás e a inevitabilidade da morte.

link para o vídeo – https://www.youtube.com/watch?v=35R6SZLPmRQ

Tiago Jorge Vieira da Silva – PG25863

Bibliografia:

– MADEIRA, Maria João: Luchino Visconti, Cinemateca Portuguesa, 2010

– DELEUZE, Gilles: L’image-temps. Cinéma 2, Les éditions de Minuit, Paris, 1985/A imagem-tempo. Cinema 2, Assírio e Alvim, Lisboa, 2006

 

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